Para apresentadora americana, família faz parte do trabalho

Ao contrário de Barbara Walters e Diane Sawyer, nova geração de âncoras equilibra carreira e filhos diante das câmeras

The New York Times |

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A apresentadora do programa da Fox News "America Live", Megyn Kelly
Quando Megyn Kelly estava começando sua carreira na televisão, uma repórter de TV de alto escalão lhe disse: "Você terá que escolher entre ter uma família ou tornar-se uma âncora de telejornal importante".

Kelly - agora âncora da Fox News, ex-advogada da firma Jones Day, com um visual parecido ao da atriz Katherine Heigl e a energia de uma ex-instrutora de aeróbica - decidiu ignorá-la. "Foi um conselho infeliz", disse ela.

Megyn, 41, faz parte de uma nova geração de âncoras de TV - Erica Hill do "The Early Show" na CBS, Mika Brzezinski do programa "Morning Joe" da MSNBC e Soledad O'Brien, ex-apresentadora do programa "American Morning" da CNN - que conseguiram conciliar sua vida familiar com a vida profissional diante de milhões de telespectadores de uma maneira que Barbara Walters e Diane Sawyer não conseguiram. Ao invés de esconder a gravidez, elas a exibiram, e ao invés de ocultar o papel de mãe no tempo livre, elas o transformaram em parte da sua “persona” de apresentadora.

Na década de 1960, quando Barbara Walters estava no programa "Today", ela teve vários abortos involuntários, voltando a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Ela adotou uma criança sem dizer nada para ninguém e não teve licença maternidade.

"Não existia a possibilidade de ter os dois", disse Barbara em entrevista para Jane Pauley, em 2003. "Nunca pensei sobre isso. Não pensei 'será que eu consigo conciliar os dois?' Provavelmente teria conseguido, não sei."

Megyn, que voltou da licença-maternidade em agosto, após o nascimento de seu segundo filho, não teve tais problemas. Amplamente vista como uma das afilhadas prediletas de Roger Ailes, ela moderou seu primeiro debate entre pré-candidatos à presidência em setembro recebendo críticas positivas, e foi escolhida para ser moderadora do debate republicano em Iowa nesta semana.

Logo após seu retorno, no entanto, Megyn cometeu um pequeno deslize quando solicitou que Mike Gallagher, um conservador anfitrião de um programa de rádio, comparecesse a seu programa à tarde, "America Live", para um esclarecimento sobre comentários depreciativos que havia feito sobre seus três meses de ausência. "Que absurdo!” disse Gallagher a Chris Wallace, âncora da Fox, em uma entrevista.

Ela criticou Gallagher no ar. "Os Estados Unidos são o único país que não requer que a licença de maternidade seja paga", disse ela, citando a Lei de Licença Médica Familiar, que diz que empregadores não precisam pagar os pais durante sua licença.

"Estamos ajudando a popular a raça humana", disse ela depois sobre mulheres em licença-maternidade. "Não é um período de férias. É um trabalho duro e importante."

Naquela noite, no "The Daily Show", Jon Stewart disse: "Nunca se coloque entre uma mamãe e sua licença de maternidade!" Ele, então, mostrou um clipe de Megyn lamentando "os tentáculos que o governo tem colocado em nossas vidas."

Stewart, referindo-se ao novo corte de cabelo de Megyn, disse que sabia o que tinha acontecido. "Quando você corta o seu cabelo, ele acaba com sua força conservadora - como um Sansão de direita"

Megyn se diz apolítica, uma descrição também feita por vários de seus amigos e ex-colegas, apesar de um deles dizer que as pessoas tinham a impressão de que ela era conservadora. Ainda assim, "não acho que ela tenha uma ligação muito forte com o Partido Republicano", disse o ex-colega.

O que a maioria de seus colegas de Direito lembram é do quanto ela trabalhava. Gregory A. Castanias, sócio da Jones Day, que se considera um amigo de Megyn, a chamou de "uma das advogadas mais intensas e organizadas com as quais eu já trabalhei."

Seu trabalho atual pode não estar tão distante assim de sua antiga vida como advogada. Kelly disse acreditar que os dois trabalhos são semelhantes: "Absorvemos grandes quantidades de informação e tentamos contar uma história da maneira mais convincente, seja para um júri ou para uma audiência. Âncoras e advogados são em sua essência artistas perfomáticos."

Megyn se levanta as 6 da manhã, depois de duas sessões de cuidados noturnos com seu filho de 6 meses,Yardley, para começar a rodada da manhã de colocar seus emails em dia, o trabalho de preparação e os cuidados intermitentes do bebê e seu irmão mais velho, Yates (cujas imagens Megyn exibiu no ar logo depois de ter voltado ao trabalho).

Em certa manhã de outubro, Megyn estava caminhando ao redor de seu apartamento em Manhattan usando jeans e com um bebê em um braço e o outro abraçando sua perna, conversando com sua babá e seu marido, Doug Brunt, um ex-empresário que agora é escritor.

Logo ela estava indo para o estúdio, digitando coisas em seu BlackBerry e discutindo ideais com Tom Lowell, um produtor do programa."Isso é bom, nossos telespectadores conhecem e vão se interessar", disse ela, referindo-se a Mark Fuhrman, o policial do assassinato do caso de O.J. Simpson que virou comentarista.

Na Fox, um maquiador rapidamente corrigiu os cílios antes de Megyn entrar na reunião de pauta das 10h. Ela corrigiu os valores de uma de suas assistentes sobre a população cristã do Egito e escreveu uma chamada para uma das histórias do dia: "Geithner diz que Obama está ‘incansavelmente focado’ na questão dos empregos – será verdade? Um relatório justo e equilibrado."

Depois disso, ela leu enquanto amamentava e se vestiu. "Se você quer me ver vestindo algo agradável, assista o programa das 13h às 15h", disse ela, enquanto vestia uma roupa de seu guarda-roupa da Fox News. As opções incluem estilistas como Jimmy Choo, Prada e YSL, Elie Tahari e Trina Turk.

No ar, Megyn alterna facilmente entre histórias políticas sobre Herman Cain e o movimento Ocupe Oakland para notícias de tabloide como a candidatura de um praticante do nudismo para o conselho da cidade e o caso do sumiço de um bebê.

"Aqui está uma pergunta para você", disse ela, zombando de um processo da organização Pets. "As baleias têm direitos? O parque aquático SeaWorld diz que esse processo nada mais é do que um golpe publicitário. Você acha?"

É uma abordagem muito diferente da atitude de outras âncoras femininas mais tradicionais: ela procura empatia e apoio.

"Como um advogado, você tem um adversário cuja missão é fazer com que você pareça um idiota", disse ela. "Você tem que saber sobre tudo que está acontecendo e estar preparado para alguns comentários de esquerda."

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Megyn Kelly posa para foto antes de ir ao ar com o programa America Live, gravado em Nova York

De muitas maneiras, a mudança de carreira aos 30 anos foi um retorno às suas raízes. Rejeitada pela escola de jornalismo da Universidade de Syracuse, ela se formou em ciências políticas e se envolveu no corpo estudantil, que então a levou à escola de direito.

Megyn praticava advocacia em Chicago e nos escritórios de Nova York da Jones Day antes de ser transferida para Washington, onde seu primeiro marido, um médico, conseguiu um emprego. Infeliz com as longas horas de trabalho, ela começou a freqüentar aulas de jornalismo, e como último recurso tentou uma vaga na sede da rede televisiva ABC em Washington, junto ao vice-presidente da rede, Bill Lord.

"Ela era confiante e muito inteligente", lembrou. Ela também foi, segundo ele, muito agressiva. "Não foi difícil descobrir que havia muita vontade dentro dela."

"Eu disse que ia colocar um estilete através de seu olho se ele não me colocasse no ar” – foi assim que Megyn fez o seu pedido para trabalhar na empresa. Ela conseguiu o emprego.

Pouco tempo depois, seu casamento acabou e a Fox News a contratou. Ela e Brunt se conheceram em um encontro às cegas, e foi nesse momento que Kelly, que se considerava "uma menina focada em sua carreira", decidiu que queria filhos. Yates nasceu um ano depois que eles se casaram.

"Confiante" é o adjetivo mais usado para descrever Megyn. Embora ela tenha dito que chorou após alguns usuários da internet fizeram piadas de uma foto que ela postou de seu filho Yates. Segunda ela, uma vez Brit Hume lhe disse: "Seu problema é que você é tão vulnerável como qualquer outra pessoa, mas você aparenta ter zero vulnerabilidade."

Os comentários em geral não a incomodam, disse ela: "Eles vêm de um lugar cheio de ódio”. O programa de Stewart, ela continuou, é pura comédia. Ela disse que muitas vezes ouve na rua: "Eu odeio a Fox News, mas eu te amo"

Quando Megyn vai para casa, por volta das 17h, ela dá comida aos filhos e por vezes assiste um episódio de "Boardwalk Empire" com o marido. "Eu era uma menina de cidade pequena", disse ela. "Não estudei em escola particular. Tive que aprender a lidar com as pessoas no poder. "

Assim como o apresentador Bill O’Reilly, ela gosta da corrida política. O último debate republicano foi a única vez que Megyn se lembrou de ter se sentindo nervosa. Na maioria das vezes, ela parece estar se divertindo.

“Eu realmente estou me divertindo”, afirmou. “Antes de trabalhar com isso, teoricamente tinha tudo para ser feliz: um trabalho em uma grande firma de advocacia, um marido médico. Porém, não era divertido.”

Megyn disse que estava ansiosa para o debate de quinta-feira. O desafio, segundo ela, era se certificar de que os candidatos não iriam se esquivar de suas perguntas.

"Os candidatos que fogem das perguntas podem parecer fracos", disse ela. "Você deve ser mais forte e mais esperto do que isso. Você tem que ter a coragem e a confiança de enfrentá-las. "

Por Pamela Paul

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