Para alguns no México, lixo é tesouro pelo qual vale a pena lutar

Fechamento do aterro Bordo Poniente, do qual dependem 1,5 mil catadores para sobreviver, causa polêmica sobre novos rumos da política ambiental

The New York Times |

Já faz muito tempo que Pablo Tellez Falcon administra um dos maiores lixões do mundo, na periferia da Cidade do México. Ele nasceu no lixo, gosta de dizer, e lá também pretende morrer.

Algumas semanas atrás, no entanto, a cidade fechou seu gigante aterro Bordo Poniente para sempre. Ao fechar seus portões, os caminhões de lixo passaram a se direcionar para novos aterros mais distantes. Otimistas, as autoridades planejaram estratégias para reciclar, queimar e aterrar uma fração do lixo que a cidade produz.

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Mas essa visão do estilo europeu de lidar com o lixo não levou em consideração as necessidades dos 1,5 mil catadores de lixo, que dependem do aterro de Bordo Poniente todos os dias para sobreviver.

"O lixo nunca vai acabar", previu Tellez, 74 anos, em um monólogo de uma hora no qual ele citou Sócrates (apesar de ser analfabeto ) e comparou-se a Galileu. "Fizemos grandes avanços, e agora os outros estão vindo para acabar com o negócio que criamos."

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Um dos 1,5 mil catadores que dependem do lixo de Bordo Poniente para sobreviver
Don Pablo, como Tellez é conhecido entre os catadores, fica dentro de um escritório decorado com fotografias que mostram ele acompanhado por presidentes. Nos velhos tempos, os políticos contavam com os catadores de lixo como base de apoio. Eles ajudavam a trazer multidões para eventos de campanhas políticas, levantavam bandeiras para dignitários ou até mesmo serviam como tropas de choque pró-governo para atacar protestos da oposição.

Os presidentes não solicitam mais sua ajuda. Mas os catadores de lixo ainda podem chamar a atenção dos políticos.

Várias vezes no ano passado, eles bloquearam a chegada de caminhões de lixo no aterro para protestar contra o fechamento do local. Como consequência da ação, quando o prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, foi até o aterro no dia 19 de dezembro para fechar o local e anunciar um projeto para uma usina de energia abastecida por metano do lixão, ele também teve de prometer que os catadores de lixo do local poderiam ficar.

A cidade concordou em não fechar a usina de separação onde os catadores pegavam o lixo, mesmo que isso signifique que o lixo deverá ser primeiramente entregue a Bordo Poniente, e logo em seguida, recarregado em caminhões para ser transportado para novos aterros depois de os catadores separarem o que podem vender.

"O Marcelo prometeu que nós poderíamos continuar trabalhando aqui por mais 25 anos", advertiu Tellez. "Ele tem de cumprir sua promessa."

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Na escuridão da usina de separação, um imenso galpão, os catadores vasculham o lixo que se encontra em movimento através de três correias e uma plataforma móvel, produzindo uma nota atonal com cada garrafa que deixam cair em seus sacos de lixo. Na parte de fora, os adolescentes raspam a ferrugem do metal ou retiram os cabelos de bonecas, e as jogam em uma pilha desconcertante de membros coloridos e corpos de plástico.

Apenas um décimo do lixo que eles separam podem ser reciclados. Com todo esse esforço, cada catador ganha entre US$ 39 e US$ 62 por semana.

"Desde que fecharam o Bordo, pode-se dizer que há bem menos lixo", disse Cesar Laguna, 46 anos. "Os garis e catadores de rua vasculham os caminhões antes de chegar ao aterro e então não sobra mais nada para nós."

Os caminhões de lixo do bairro carregam consigo os seus próprios catadores, três ou quatro voluntários que podem vasculhar o lixo doméstico. Eles ganham menos que os trabalhadores do Bordo Poniente, mas, pelo menos, "pegamos menos doenças ao trabalhar nos caminhões", segundo Adrian Castellanos.

Hector Castillo Berthier, um sociólogo da Universidade Nacional Autônoma do México, estima que cerca de 250 mil pessoas na Cidade do México dependem do lixo para sobreviver, sendo eles garis catadores de lixo, comerciantes de sucata e as famílias que eles sustentam. "Qualquer coisa que você mudar alterará essa tradição", disse ele. "Cada vez existem mais e mais camadas de informalidade. Esses são processos complexos", observou.

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Ele não tem confiança nos planos das autoridades municipais para redução de lixo e reciclagem. “Eles não têm um Plano A”, muito menos um plano B, disse Castillo. "Eles acham que os sistemas informais se reorganizam sozinhos.”

Na verdade, embora manter o aterro de Bordo Poniente aberto possa ser positivo para os catadores de lixo, faz pouco sentido economicamente. Os caminhões de 20 toneladas que coletam o lixo dos bairros devem agora fazer um desvio para o aterro antes de se dirigir para outros aterros mais distantes que a cidade está pagando para guardar o lixo.

Saída

Especialistas dizem que os novos aterros sanitários são uma solução imperfeita porque acaba sendo muito caro transportar o lixo para tão longe, além de argumentarem que os locais acabarão enchendo relativamente cedo. Em janeiro, protestos da vizinhança temporariamente bloquearam o transporte de caminhões de lixo da Cidade do México para lá.

"Lixões clandestinos podem surgir", alertou Gustavo Alañas, diretor do Centro Mexicano de Direito Ambiental.

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Gabriel Quadri de la Torre, um ex-oficial federal ambiental que está concorrendo à presidência sob a bandeira de um partido menor, disse que com uma administração adequada, a cidade poderia ter utilizado o Bordo Poniente por muitos mais anos, através da acumulação de novas camadas em regiões mais antigas do lixão.

Mas as autoridades locais dizem que elas estão aos poucos resolvendo o problema do lixo da Cidade do México, encontrando usos para grande parte antes de enviar o restante para o lixão. "A questão toda é que o Bordo é uma grande oportunidade que nos permitirá mudar os hábitos das pessoas em relação à gestão de lixo", Fernando Aboitiz, secretário municipal de obras e serviços, disse recentemente.

Aboitiz disse que nos últimos 14 meses, a cidade reduziu bastante a quantidade de lixo que precisa ir para os novos lixões, de 12,6 mil toneladas por dia para cerca de 4 mil.

Outras 500 toneladas de resíduos inorgânicos são utilizadas diariamente como um combustível alternativo para fornos de cimento operados pela Cemex, uma grande empresa de cimento, que disse que conseguiria processar até 3 mil toneladas por dia.

A cidade também iniciou um plano para instalar grandes recipientes de plástico nas esquinas das ruas para que as famílias possam separar e depositar os seus resíduos sem ter de esperar o caminhão de lixo do bairro passar. Isso permitiria que a cidade reciclasse ainda mais seu lixo, observou Aboitiz.

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Catadores separam lixo em Bordo Poniente, próximo à capital Cidade do México
Mas Quadri contesta os números da redução de lixo, dizendo que são "imprevisíveis", e ele argumenta que o mercado de reciclagem do México não conseguirá absorver mais do que 20% dos resíduos do país. "Não existe infraestrutura, mercados, preços e tampouco regulamento para que tudo isso funcione", disse ele. “E isso vem ainda antes dos negócios da cidade terem de enfrentar a oposição esperada vinda do sindicato dos trabalhadores de saneamento.”

"É simplesmente uma idéia estúpida", disse um motorista de caminhão, David Cosme, sobre as novas lixeiras, dando de ombros. "Elas não vão durar nem um mês. Os bêbados irão roubá-las."

Apontando para os voluntários com seus pés atolados no lixo de seu caminhão de 22 anos de idade, Cosme propôs uma solução mais simples. "Por que não dar-lhes contratos reais?", protestou. "Ou comprar alguns caminhões mais modernos?".

*Por Elisabeth Malkin

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