Para a comunidade do Queens, venda da Anheuser é difícil de aceitar

NOVA YORK - Na manhã de segunda-feira, John Dooley entrou num bar de seu bairro favorito quando o assunto é bebida. Como um apaixonado traído, prometeu manter-se fiel à sua amada, apesar da repentina traição.

The New York Times |

"Essa é a melhor cerveja do mundo", disse Dooley, enchendo seu segundo copo de cerveja Budweiser no bar e restaurante Kennedy, no Breezy Point, distrito do Queens, em Nova York. "Se você me oferecer uma Heineken, eu vou recusar. Nenhuma guerra nuclear pode me deter".

A sabedoria local diz que a Budweiser é, ou certamente era, a bebida mais pedida no Breezy Point, comunidade localizada na extremidade oeste de Rockaways. A questão é que o código postal de Breezy Point - 11697- já foi responsável pelo maior consumo per capita de Budweiser no mundo.

E foi com amargura e resignação que muitos freqüentadores da região leram as notícias da última segunda-feira que diziam que a Anheuser-Busch, produtora da Budweiser localizada em St Louis, Missouri, havia sido  vendida pela empresa belga InBev  por US$ 52 bilhões.

"Eu não gostei da notícia, não gostei nem um pouco, disse Dooley. Depois, ergueu seu copo vazio, que o garçom, Tom Coady, encheu prontamente.

Breezy Point é irresistivelmente irlandês-americano, com uma população oficial de 4.226 habitantes, número que dobra durante o verão. É também muito insular, uma comunidade privada conhecida por ter uma cooperativa responsável pela segurança do bairro.

Uma repórter e um fotógrafo, preparados para registrar a reação local à venda da Anheuser-Busch na segunda-feria, foram interceptados por um segurança no pequeno centro comercial da comunidade, escoltados até a guarita central de Breezy Point lotada de caixas de Budweiser (confiscadas de adolescentes da região), e convidados a deixarem a comunidade. Mais tarde, oficiais deram ao jornalista e ao fotógrafo permissão para permanecerem, contanto que se comprometessem a deixar o local em uma hora. 

Fidelidade, apesar de tudo

Uma hora, como o combinado, se provou suficiente para capturar um passageiro senso de devoção instalado nas pessoas de Breezy Point: elas são tão comprometidas com a Budweiser como são com suas vidas privadas. Eles poderão até continuar a beber Bud, dizem, contanto que o preço e o gosto permaneçam os mesmos.

"Os bebedores de Budweiser serão para sempre bebedores de Budweiser", disse Jerry O'Hara, 65 anos, garçom do Blarney Castle, no centro de Breezy Point. "Contanto que eles não mudem a fórmula, nem a fábrica, nem a água, nem nada".

Um pouco depois das 14h, dois homens no fundo do bar que haviam acabado de beber dois pints de Budweiser foram convidados a sair. Eles falavam sobre o que a venda da Anheuser-Busch significava: outra companhia norte-americana agora era estrangeira.  

"Acho que devemos fazer alguma coisa para barrar a desvalorização do dólar", disse um dos homens, que se recusou a dizer seu nome ("tenho as minhas razões", alegou).  

Do outro lado do bar, Danny Ray, 49, estava em vias de beber uma Bud Light, junto com Bernie Murphy, 76, que bebia uma Coca Diet.

"Eu bebo Miller, não Bud", disse Murphy, que descobriu a diabetes há cinco anos. "Eu costumava beber, mas tem muito carboidrato na bebida".

"Essa Bud é pra você "

O slogan "Essa Bud é pra você", mais falado em Breezy Point do que em qualquer outro lugar, parece ser parte de uma doutrina nova-iorquina. Mas estatísticas confiáveis são difíceis de obter. Uma ligação para Anheuser-Busch não foi retornada.

Sobre antiga lei seca dos EUA, Mike Wallece, autor de Gothan, livro sobre a história de Nova York, conta que quando a lei foi revogada, a Anheuser-Busch despachou para o Empire State Building uma carroça carregada por seis cavalos repleta de cerveja. A bebida, até então proibida, foi entregue para o ex-governador Alfred E. Smith, que assinou a revogação da lei que proibia a venda de álcool no Estado. 

De fato, em Breezy Point, muitos locais admitem que preferem outras bebidas. Bob Frank, 77, alegou ser um homem de drinques blood mary. Sam Sirriyeh, que gerencia o supermercado local Deirdre Maeve's, disse que fez com que muita gente bebesse Budweiser, mas ele mesmo prefere vinho.

Bruce Robertson, 64, amigo de Dooley, o ávido bebedor de Bud, disse, "eu bebi uma geladeira inteira de Stella Artois". Stella Artois é produzida pela InBev, a companhia belga que está prestes a comprar a Anheuser-Busch. "Mas", adicionou, "eu odeio ver as empresas norte-americanas virando empresas globais".

Robertson gastou parte da tarde de segunda no Kennedy, bebendo vinho tinto chileno. Outo amigo, Joe Manello, 65, policial posentado, apareceu.

Manello, é da opinião de que a Budweiser "tem gosto de água de lavar louça", mas adimitiu que é triste ver uma empresa norte-americana sendo vendida. 

"Vou te falar um coisa", disse Robertson. "A Budweiser tem um gosto único. E pessoas que gostam de Bud querem Bud, nenhuma outra. Um rapaz que bebe Budweiser, continuará a beber Budweiser. Se eles mudarem a fórmula, eles são loucos". 

Por CARA BUCKLEY

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