Paquistão pode não estar pronto para concurso de beleza

NOVA YORK - Se você mora no bairro de East Village em Manhattan, pode ter visto a atual Miss Paquistão saindo de seu prédio perto de St. Marks Place. Pode até ter visto ela comemorando sua vitória com os amigos no Hotel Hudson, ou entrando em um dos bares de jazz onde vai para ouvir música ao vivo.

The New York Times |

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De vez em quando, você pode ver a Miss Paquistão, Natasha Paracha, 24, entrando em um táxi com sua tiara brilhante, logo depois de uma performance pública. "Me dê essa tiara", gritou um jovem acompanhado de seu namorado há algumas semanas, "eu quero!". Ela lhe concedeu um enorme sorriso, mas ficou com a tiara, que normalmente guarda em uma caixa florida no fundo de seu armário. 

Por um lado, parece natural que a Miss Paquistão viva no centro de Manhattan, um lugar onde celebridade equivale à cidadania. Por outro lado, não faz nenhum sentido. Pode-se falar muito sobre o internacionalismo glamouroso de, digamos, Xangai, e mesmo assim você não verá a atual Miss América morando por lá, se limitando a uma pequena plateia de expatriados. 

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Miss Paquistão vive em Manhattan

O concurso de Miss Paquistão, agora em seu sexto ano, é único em relação a este tipo de disputa. Nenhuma das concorrentes deste ano, para começar, mora no Paquistão, mas todas veem dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. (O título completo do concurso revela seu sabor internacional: Miss Paquistão Mundo.)

E elas não concorrem pela coroa em Lahore ou Islamabad, mas em Mississauga, Ontário. O Paquistão, aparentemente, ainda não está pronto para um concurso de beleza, ainda que os motivos para isso sejam diferentes para cada pessoa. 

"O país ainda é muito novo e o conceito de concurso de beleza ainda é novidade por lá", disse Paracha, elegante em um vestido Nanette Lepore, bebendo um espresso no restaurante Blue Water Grill. "A indústria de entretenimento local ainda está se desenvolvendo".

Paracha, que trabalha nas Nações Unidas e mora nos Estados Unidos desde que tinha dois anos de idade, confessa que podem haver reações adversas no Paquistão, um Estado muçulmano conservador, caso uma de suas representantes concorra internacionalmente em um biquíni.

De fato, Amna Buttar, fundadora da Rede Asiática-Americana Contra Abusos dos Direitos Humanos, que vive em Lahore, revelou que o país passa atualmente por um escândalo sobre o vazamento de fotos da filha do governador de Punjab nadando de biquíni. 

"No Paquistão estamos tentando conseguir direitos básicos para as mulheres: casamento, divórcio, oportunidades iguais de trabalho e educação. Projetos como o Miss Paquistão atrapalham este movimento", disse Buttar. "Uma mulher paquistanesa comum não usa biquíni em público e para ela é importante que haja igualdade de oportunidade e todo o foco deveria ser sobre isso e não em um concurso do qual apenas a elite pode participar". 

Questão de segurança

A fundadora do concurso, uma empresária de Toronto que se chama Sonia Ahmed, disse que planejava levar o concurso ao Paquistão no próximo ano antes da queda do presidente Pervez Musharraf, cujo governo era considerado relativamente aberto aos avanços das mulheres (algo que, pelo menos no Paquistão, significava que as condições seriam relativamente mais favoráveis para as aspirantes a uma coroa de um concurso de beleza). Agora, ela manterá o concurso no Canadá porque não pode garantir a segurança das concorrentes.

"Pode ser apenas 1% da população, mas o problema fundamentalista ainda está presente no Paquistão", disse Ahmed.

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Concurso não acontece
em território Paquistanês
Desde que foi coroada em maio, Paracha, formanda da Universidade da Califórnia, Berkeley, limitou suas aparições aos Estados Unidos, falando em reuniões de paquistaneses não moradores do país em Nova York, aparecendo na comemoração do Dia do Paquistão em Washington, arrecadando dinheiro para a Vision of Development, uma agência sem fins lucrativos que fundou no ensino médio para apoiar mulheres na zona rural de seu país e aparecendo na mídia ocasionalmente.

Neste mês, ela foi à CNN para pedir que o país se levante e condene os ataques terroristas em Mumbai, mas acidentalmente usou a palavra apoie. Felizmente, o contexto explicou o que ela queria dizer, e nenhum incidente internacional decorreu deste escorregão. (Mesmo com o erro, seus comentários representaram uma melhora em relação aos que foram feitos pela antiga Miss Paquistão, que disse que Musharraf era um homem "atraente" com quem ela gostaria de sair.)

Paracha é uma rainha da beleza, ao contrário de muitas outras em alguns aspectos, mas parecida com elas em outros: uma embaixatriz da vontade de seu país em evitar controvérsia enquanto o promove e busca ser um bom exemplo para jovens mulheres (ela também é uma ótima dançarina de flamenco). Ela disse à CNN que gostaria de "mostrar que as mulheres paquistanesas são fortes e definitivamente podem fazer muito para representar sua nação no cenário global".

Isso pode parecer um exagero, mas dado o que Ahmed tinha a dizer sobre o assunto, Paracha, que viajará a Islamabad no sábado para visitar sua família e, ela espera, fazer algumas aparições públicas, pode ter feito uma declaração mais política do que admite ao aceitar sua tiara.

Em futuras competições mundiais, Paracha, uma muçulmana não praticante, diz que sim, estará disposta a usar biquínis (não houve um necessidade disso na competição Miss Paquistão deste ano, mas isso já aconteceu anteriormente). "Este é apenas um pequeno aspecto do concurso", ela disse.

Tanto o Miss Mundo quanto o Miss Universo exigem que suas concorrentes sejam coroadas no país que representam, portanto Paracha não poderá participar das competições. Mas o Miss Rainha do Turismo Internacional que se prepare!

Por SUSAN DOMINUS

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