Paquistão: Mistério cerca concurso em homenagem a Bin Laden

Na maior universidade paquistanesa, grupo anônimo patrocina concurso de textos que façam elogios ao líder da Al-Qaeda

The New York Times |

Os cartazes foram afixados em todo o campus da maior universidade do Paquistão no mês passado, convidando os alunos a participar de um concurso de redação e poesia elogiando uma figura histórica importante que passou seus últimos anos de vida em reclusão no país.

O objeto de tamanha onda de louvor? Osama bin Laden

NYT
Estudantes conversam na Universidade de Punjab, em Lahore, no Paquistão

O concurso pode ter parecido “deslocado” aqui na Universidade de Punjab, uma instituição centenária de prestígio em Lahore, conhecida como a capital artística e cultural do país. Afinal, não houve protestos no campus denunciando a morte de Bin Laden, que foi morto em um ataque noturno por agentes dos Estados Unidos na cidade de Abbottabad.

Mas a grande surpresa não foi o concurso em si, pelo menos não em um país onde 63% da população desaprova a operação que matou Bin Laden, de acordo com um levantamento realizado em junho pelo Centro de Pesquisa Pew.

Na verdade, a grande surpresa foi exatamente o oposto: que os organizadores do concurso tenham optado por permanecer anônimos, proporcionando nada mais do que um endereço de email para o envio das participações.

Por mais de três décadas, este campus tem sido um reduto de um grupo de estudantes islâmicos conhecido como Islami Jamiat Talaba. O grupo impõe suas interpretações islâmicas aos alunos, efetivamente proibindo músicas e atividades culturais, ridicularizando a interação entre homens e mulheres fora das salas de aula e atacando regularmente alunos do sexo masculino que se encontram sentados perto de colegas do sexo feminino. Os estudantes já foram hospitalizados, um dormitório foi invadido por torcedores empunhando armas, e textos antiocidentais e pró-Jihad estão facilmente disponíveis.

Pareceria natural que o Jamiat, como o grupo de estudantes é comumente chamado, não apenas realizasse tal competição, mas fizesse isso com orgulho.

Então, por que todo esse mistério?

“Estamos tentando descobrir quem está por trás disso", disse Khuram Shahzad, oficial de relações públicas da universidade. "Achamos que essa é uma atividade política censurável e uma ação disciplinar será tomada contra os organizadores".

Aumentando o suspense, os organizadores prometeram enviar os prêmios somente por email. Também não houve anúncio dos vencedores.

As suspeitas caíram amplamente sobre o Jamiat porque o grupo não faz mistério sobre sua presença no campus e mantém rígido controle nos dormitórios, lembrando constantemente os visitantes e ocupantes de sua presença por meio de cartazes, notificações e panfletos.

Salahuddin, 20, um estudante de comunicação, disse que frequentemente encontra cartazes e revistas pertencentes a diferentes grupos islâmicos como o Jamiat – bem como de grupos militantes nacionais como o Lashkar-e-Taiba ou o Hizb-ut-Tahrir – no ‘dormitório dos meninos’. "Vi cartazes convocando os estudantes para a Jihad", disse Salahuddin.

Ele também suspeita de envolvimento do Jamiat no concurso, mas como muitos outros alunos, professores e administradores da universidade, ele não tem qualquer prova para fundamentar sua opinião.

Apoio a Bin Laden no campus certamente não é algo difícil de se encontrar. Muhammad Chanzaib, 25, colega de quarto de Salahuddin, disse ser a favor do concurso.

"Osama é um herói dos muçulmanos", disse ele. "Os Estados Unidos já mataram muçulmanos no Iraque e no Afeganistão."

Naeem Khan, professor de zoologia que faz parte da administração do campus, disse que três semanas após o assassinato de Bin Laden o clérigo da principal mesquita do campus começou a elogiá-lo e pediu às pessoas que orassem por ele.

"Me recusei e deixei a mesquita, assim como algumas outras pessoas", disse Khan. "Mas muitos alunos levantaram suas mãos para a oração."

Como muitos outros, Khan acreditava que o anonimato dos organizadores é apenas uma tática para escapar de suspensão ou expulsão.

"Eles aprenderam suas lições", disse. "No início, o Jamiat costumava anunciar abertamente a sua filiação e seus membros nunca foram tímidos de ter seus nomes impressos em cartazes e panfletos. Mas, nos últimos anos, a administração universitária começou a tomar medidas contra esses alunos".

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Cartazes do grupo Jamiat são vistos presos nos corredores da universidade em Lahore

Khan, que disse ter expulso mais de 100 alunos com tendências extremistas durante seu mandato, disse que a ortodoxia conservadora está "se espalhando como fogo" no país em geral e em instituições estatais de educação em particular. "Há mais radicalização a cada ano", disse Khan referindo-se ao ambiente do campus.

No mês passado, estudantes pertencentes ao Jamiat atacaram Kashif Hussain, um estudante de filosofia, depois que o encontraram sentado ao lado de aluna no início da manhã, antes de a maioria dos alunos chegar para as aulas.

"Ele estava sentado com seu corpo tocando o corpo da mulher", disse um estudante que simpatiza com o Jamiat mas se recusou a dar seu nome. "Esse comportamento anti-islâmico não será tolerado".

Hussain disse em uma entrevista que estava apenas conversando com sua colega de classe e que muitos no campus rejeitam a linha dura do Jamiat. Em 22 de junho, cerca de 50 estudantes do sexo feminino realizaram um comício contra as táticas do grupo.

Dois dias depois, no entanto, pelo menos 40 apoiadores do Jamiat invadiram o dormitório onde a maioria dos estudantes de filosofia vive. Quatro deles brandiam revólveres e atiraram para o ar, segundo alunos e professores. Dois estudantes de filosofia foram tão severamente espancados que tiveram de ser hospitalizados. Dois professores também ficaram feridos.

A administração da universidade optou por não apresentar uma queixa policial depois que o Jamiat se desculpou.

Muhammad Zubair Safdar, 25, líder do Islami Jamiat Talaba no campus, disse que a violência não foi tolerada por ele e negou que membros de seu grupo estavam envolvidos no tiroteio. Ele também negou ter qualquer ligação com o concurso.

Safdar disse que o Jamiat manteve a sua presença na universidade por ser apoiado por uma grande maioria de alunos.

"Fazemos tudo abertamente", disse ele. "Não acreditamos em atividades secretas. Não vamos deixar ninguém entrar em atividades secretas”.

Por Salman Masood

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