Pânico por surto da bactéria E.coli arrasa produtores espanhóis

País que concentra maior índice de desemprego da UE, Espanha tem setor exportador abalado por associações iniciais de epidemia a seus vegetais

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O início de junho é normalmente uma das mais movimentadas estações do ano em Motril, coração agrícola da Espanha . Trata-se da época em que um exército de trabalhadores sazonais colhem de pepinos a tomates nas 5 mil estufas que pontilham a paisagem da região. Mas a maioria das estufas estava deserta na quarta-feira, conforme a demanda por produtos hortícolas espanhóis entrou em colapso depois de as autoridades regionais anunciarem um surto letal de E. coli da Alemanha às fazendas da Andaluzia.

Longe dos hospitais de Hamburgo, onde os pacientes estão morrendo, outra crise tem se desdobrado em Andaluzia, que já era a região mais atingida pelo aumento do desemprego na Espanha desencadeado pela crise financeira mundial.

"A Alemanha destruiu a minha vida essa semana", disse Miguel Rodriguez Puentedura, que trabalhava na colheita de pepinos até segunda-feira, quando a estufa que o empregava fechou.

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Trator recolhe pepinos espanhóis que seriam exportados antes do surto de uma nova cepa da bactéria E.coli na Europa
Na terça-feira, autoridades nacionais alemãs, contrariando observações feitas anteriormente por autoridades regionais, disseram que os exames feitos até agora mostram que os pepinos espanhóis não contém o tipo da bactéria E. coli que provocou mortes. Ainda assim, eles não descartaram oficialmente os produtos espanhóis. Além disso, na quarta-feira autoridades europeias tentaram amenizar os temores dos consumidores sobre qualquer ameaça de produtos frescos.

Mas poucos em Motril pareciam otimistas. "O consumidor precisa saber que é completamente seguro comer pepinos e todos os outros produtos da nossa região, e essa mensagem certamente não foi passada pela Alemanha até agora", disse Adrian Picazo, diretor-geral da Mercomotril, uma exportadora de produtos agrícolas.

No final de 1970, recordou Picazo, a produção de laranja em sua região natal de Valência caiu depois de mercúrio ter sido encontrado em algumas frutas. "Demorou um ano para o setor citrícola se recuperar daquilo e eu não tenho certeza que vai ser muito mais rápido desta vez", disse.

Na verdade, Motril não foi mencionada na semana pelas autoridades alemãs como uma possível fonte da bactéria E. coli, mas "nenhum consumidor na Alemanha ou em outro lugar vai comprar produtos com rótulos que indicam origem espanhola", disse Picazo.

Reflexos

Na fábrica da Mercomotril, apenas uma das oito correias transportadoras estava operando na quarta-feira, com as mulheres tirando e acondicionamento tomates em caixas destinadas para os mercados espanhol e britânico.

Ao longo da última semana, a força de trabalho na fábrica foi reduzida de 110 para 25. Em vez de caminhões saindo da unidade, um tinha acabado de voltar da Alemanha com 14 toneladas de pepinos não vendidos, devolvidos pela Rewe, um supermercado alemão.

"O Rewe se comportou bem, pagando o custo de transporte completo, bem como o reembolso de 10 centavos (de euro) por quilo de pepinos indesejados", disse Picazo. "Acredito que muitos outros supermercados irão devolver os produtos nos próximos dias, mas é hora de crise e provavelmente nem todos nos oferecerão condições tão decentes".

As autoridades espanholas estimam a perda em 200 milhões de euros por semana devido ao cancelamento do envio de produtos agrícolas, pelos quais o governo espanhol deve pedir indenização da União Europeia. Alfredo Perez Rubalcaba, vice-premiê da Espanha, afirmou na quarta-feira que "nós não excluímos tomar medidas contra as autoridades de Hamburgo, que questionaram a qualidade dos nossos produtos", informou a Associated Press.

Mas a esperança de alívio financeiro parecia distante para os que estão na Espanha. "Há muito debate político, mas nos meus 19 anos neste trabalho, eu certamente aprendi a não acreditar em qualquer promessa de compensação até que tenha o dinheiro na minha mão", disse Francisco Garcia Vacas, gerente de uma estufa de pepino que teve de demitir 12 funcionários nesta semana. "Se a demanda não chegar até o fim de semana, o próximo passo será começar a desmantelar esse lugar”.

Motril enfrentou turbulência em sua agricultura antes. A cidade se desenvolveu como um centro de produção de cana-de-açúcar, mas a atividade cessou após os subsídios da União Europeia ao setor do açúcar serem declarados ilegais em 2005 pela Organização Mundial do Comércio. A produção de pepino, em seguida, tornou-se a atividade principal da região, em parte porque também é uma das hortaliças espanholas que não têm enfrentado forte concorrência de produtores mais barato, como o Marrocos.

Setor

A agricultura emprega cerca de 30 mil das 150 mil pessoas que vivem em torno de Motril, de acordo com o prefeito da cidade, Carlos Rojas. Segundo ele, antes do surto de E. coli a agricultura era um dos poucos sucessos no panorama econômico da região, compensando parte das perdas recente de trabalho na indústria da construção.

"É um desastre após o outro, porque agora estamos falando de destruição de empregos em um setor que havia conseguido nos ajudar a absorver um pouco o estouro da bolha da construção", disse.

A Andaluzia já tinha o maior índice de desemprego entre as 17 regiões espanholas, com uma taxa de desemprego de 29,7% no final do primeiro trimestre, segundo o Instituto Nacional de Estatística. O índice de desemprego médio na Espanha é de 21%, o dobro da media de toda a União Europeia.

*Por Raphael Minder

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