Palin: uma imagem política tão grande quanto a multidão desejar

Nome forte do Tea Party, Sarah Palin ganha fortuna de Hollywood e funciona mais como um símbolo cultural do que como política

The New York Times |

A estreia do programa Sarah Palin’s Alaska na TV a cabo nesta semana pareceu mais uma formalidade do que uma nova direção profissional. De qualquer forma, Palin tem estrelado seu próprio reality show desde que deixou o cargo de governadora no ano passado, funcionando mais como um símbolo cultural do que como política e ganhando uma fortuna de Hollywood ao longo do caminho.

O que tornou tudo isso possível, quando você analisa a estreia de Palin como uma figura nacional em 2008, não foi sua semelhança como um governo e valores liberais, mas sua falta de uma identidade política. Palin habilmente se permitiu ser moldada pelas demandas do mercado e dessa forma se tornou o melhor exemplo até agora de um novo fenômeno na nossa política – o que poderíamos chamar de o candidato da multidão.

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Sarah espera pelo marido, Todd, em episódio do Sarah Palin¿s Alaska
Palin, como se recordarão, explodiu na consciência nacional como uma política relativamente inexperiente e imatura, uma prefeita de cidade pequena que tinha servido menos de dois anos como governadora do Alasca. Sua mensagem principal, até aquele momento, havia sido de reforma e de um bom governo.

Sim, ela era uma conservadora cultural, mas sua principal crítica ao próprio partido, que ela anunciou com sucesso ao concorrer contra o governador republicano Frank Murkowski, em 2006, era que ele estava envolto em nepotismo e corrupção.

Isso era o que a equipe do senador John McCain sabia sobre Sarah Palin quando ela pisou timidamente no palco para o seu primeiro comício como sua candidata à vice-presidência, com o candidato sussurrando direções de palco em seu ouvido. Como uma conservadora solidamente religiosa e pró-vida, Palin deveria acalmar a base desconfiada do partido, mas seu objetivo central era o de reavivar a imagem desbotada de McCain como um republicano independente.

Personagens

A encarnação mais recente de Palin como uma guerreira de tecnologia em nome daqueles culturalmente oprimidos – com críticas pungentes no Twitter e Facebook sobre a construção da mesquita, orações sancionadas pelo Estado e tudo isso – tomou forma principalmente depois que ela internalizou a ira de seu público desencantado. Sua persona anti-intelectual "Mama Grizzly" é a fusão de muitas milhares de opiniões diferentes, o produto da coleta de uma fúria coletiva que Palin soube rapidamente sentir e destilar.

Palin não é a primeira candidata moderna a se encontrar fustigada por uma tempestade digital de emoções. É fácil esquecer que quando Howard Dean entrou no que parecia ser uma disputa quixotesca à presidência em 2003, ele anunciou-se como um ex-governador de centro, prometendo reformar o sistema de saúde (sem um plano administrado pelo governo) e equilibrar o orçamento federal. Dean, que se alinhou durante algum tempo ao centrista Conselho da Liderança Democrata, chegou a chamar a si mesmo de "triangulador" nos moldes de Bill Clinton.

Um ano e alguns milhares de encontros depois, Dean emergiu como a voz do movimento progressivo ascendente na política democrata, um herói para os liberais antiguerra que não apenas detestavam o governo controlado pelos republicanos, mas também a linha Clintoniana do partido. Dean foi tão longe que, quando o presidente Barack Obama estava quase aprovando a sua própria versão de uma reforma da saúde no ano passado, Dean condenou o projeto como ineficaz por não incluir uma opção pública.

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Sarah Palin está recebendo cerca de US$ 250 mil por episódio
Nada disto quer sugerir que Palin e Dean não são sinceros em suas convicções. Na verdade, o contrário parece ser verdade. Também não há qualquer razão pela qual os políticos não devam ser autorizados a evoluir, como o resto de nós.

A questão é que em uma sociedade cada vez mais interativa, os candidatos podem obter uma reação instantânea e ampliada para tudo o que dizem. E uma candidata que é mais maleável na sua filosofia política, seja porque ainda não optou por uma ou porque tem temperamento suscetível às paixões da multidão, pode ser transformada de acordo com o momento.

O jornalista Jeff Howe, escrevendo para a revista Wired, explorou pela primeira vez e batizou o conceito de crowd-sourcing em 2006. Sua teoria, para resumi-la cruamente, afirma que empresas que antes dependiam de um único funcionário para produzir o conteúdo necessário agora podem voltar-se para a multidão em busca de uma alternativa mais barato e variada.

Em outras palavras, por que comprar fotografias tiradas por profissionais para seu site, quando milhares de amadores estão dispostos a fornecer seu material através do clique de um botão? Por que investir pesadamente em pesquisa e desenvolvimento, quando alguns amadores online podem ter descoberto a resposta para seu problema? Basta perguntar à multidão.

Palin não pediu exatamente à multidão que fornecesse o conteúdo de seu apelo político. Mas ela absorveu sua mensagem e nisso encarna a versão política do "conhecimento coletivo", em que alguns segmentos de militantes – em vez de um consultor do partido – fornecem a resposta à questão fundamental do que um político espera realizar.

Provavelmente, podemos esperar que essa classe de políticos se expanda a cada novo levante popular. Tais candidatos podem ter um potencial limitado para ganhar eleições, pois eles buscam um segmento mais vocal e populista do eleitorado. Mas os políticos que forjam suas identidades através da multidão, podem continuar a encontrar um sucesso mais amplo.

Palin, afinal, está recebendo cerca de US$ 250 mil por episódio de seu novo programa, de seu novo programa, no qual ela caça e caminha pelo Alasca. A máquina republicana nunca poderia pagar tão bem.

*Por Matt Bai

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