Pais criam salas de recreação para manter adolescentes em casa

Para Keith e Tracy Tobias, pais de três adolescentes em La Quinta, Califórnia, transformar um antigo escritório nos fundos de sua casa em um cinema para seus filhos foi uma decisão óbvia. Nós somos muito sociais e nossos filhos cresceram com isso, disse Tracy Tobias. Somos uma família festeira. Na verdade, o casal teve mais motivos do que seu amor pela diversão. Eles procuraram uma forma de manter seus filhos em casa.

The New York Times |

"As fronteiras foram criadas no mundo de hoje", disse Keith Tobias. "Há pais que permitem bebidas alcoólicas sob seus tetos e pais que não permitem. Lutamos contra isso". Em uma era em que "todo mundo envia mensagens de texto e crianças tanto de escolas públicas quanto das particulares em um raio de cinco cidades sabem o que está acontecendo", ele acrescentou, "fica difícil conhecer todos os pais (ou até mesmo todas crianças)". Para os pais que estão determinados a manter controle sobre a vida social de seus filhos, uma sala de recriação, com cinema, mesa de Ping-Pong e videogame, parece a solução ideal.

A sala de recreação, antes um quarto escondido no porão com um sofá antigo e uma televisão, passa por um renascimento nos Estados Unidos. O espaço que os pais faziam careta antes de entrar e onde os adolescentes passavam a maior parte de seu tempo foi recriado, principalmente por afluentes suburbanos, como o paraíso dos home theaters, móveis estilosos, mini cozinhas de aço escovado e banheiros completos para tratamentos de spa (tudo para manter os adolescentes dentro de casa).

Julia Buckingham Edelmann, decoradora de Chicago, disse que nos últimos anos ela viu um grande aumento de clientes que querem decorar espaços para seus filhos adolescentes e menos interesse em salas de estar para toda a família. "Há espaços dedicados para cada atividade" hoje em dia, ela disse (a sala de ginástica, o spa) "então faz sentido que os adolescentes tenham um espaço só seu".

Felizmente para os pais que não querem que seus filhos reajam, os adolescentes parecem mais dispostos a ficar em casa. Edelmann fala do surgimento de uma geração de adolescentes aninhados, mais HGTV do que MTV. Em sua observação, "os adolescentes agora gostam de entretenimento como seus pais". Jovens como Jeff, filho do casal Tobias, e seu amigo e vizinho Michael Knopf, ambos com 16, parecem concordar. Ambos dissera que preferem não sociabilizar.

"Eu acho que houve uma mudança nos últimos anos", disse Michael. "Agora é mais bacana fazer coisas em casa, seja assistir a um filme, malhar na academia, ou simplesmente ficar por ali. Em casa é melhor".

Alissa Quart, jornalista e autora especializada em crianças, acredita que a disponibilidade dos adolescentes em ficar em casa tem relação com a forma como foram criados. "Quando jovens da classe média alta brincam hoje, eles brincam de forma estruturada, quase  como em um trabalho", ela disse, ao invés de espontaneamente, em espaços públicos ou semi-públicos.

"Faz sentido que os adolescentes sejam encorajados a comprar seus móveis de criações da CB2 ao invés de utilizar os antigos", ela disse. CB2 (uma loja filial da 'Crate and Barrel') e outras companhias, como a Target, Urban Outfitters e Pottery Barn, parecem investir na domesticidade dos jovens, criando linhas especiais para adolescentes através de catálogos direcionados e websites. De acordo com Sarah Plamondon, porta-voz da Pottery Barn, a linha adolescente da companhia, que teve início em 2003, cresceu cerca de 30% no primeiro quadrimestre desse ano e irá abrir sua primeira loja em Atlanta em novembro. A loja cria móveis com seu cliente tecnologicamente consciente em mente como a iChair (uma cadeira de US$399 com auto-falantes para iPod ou sistemas de videogames).

"Essas companhias vendem diretamente para os jovens", disse Kelly Kole, decoradora da firma Kandrac & Kole, de Atlanta. Em seu próprio trabalho ela fica longe das decorações prontas para adolescentes, "porque podem se tornar brega rapidamente. Eu acredito que os adolescentes não querem algo que seja forçadamente calculado".

A maioria dos espaços que ela cria para os adolescentes imitam espaços de adultos, com almofadas para o chão e sofás ultra-macios (as principais palavras que seus clientes menores de idade usam para descrever suas preferências em decoração são "discreto" e "lounge") e muitos espaços para relaxar e entreter. Em muitas casas de sua área não faltam espaços como esse, ou com detalhes arquitetônicos que o facilitem. "Muitas dessas salas de entretenimento ainda são no porão, mas têm grandes entradas e escadas, então não parece uma sala na qual ninguém quer entrar".

Kole recentemente criou uma sala de recreação para a família Fowlers, uma família mista do subúrbio de Atlanta. Beth Fowler, 44, e seu marido, Hall, 47, têm quatro filhos adolescentes e quando cada um leva um amigo para casa o número aumenta. Em um sábado comum em junho, 22 jovens se reuniam no que o casal chama de "poço dos jovens".

"O bom é que eles se reúnem no seu espaço e fazem o que fazem e não precisamos nos preocupar sobre seu paradeiro", disse Beth Fowler. "Drogas e álcool e sexo e outras milhões de tentações existem lá fora e achamos que os jovens, às vezes, se sentem tão assustados com isso como os pais. Ter um lugar legal para reunir os amigos debaixo de seu próprio teto facilita as coisas". Além disso, ela disse, "com o preço do combustível do jeito que está e o preço do cinema mais de 10 dólares, também é economicamente mais inteligente".

Isso certamente é verdade sobre uma sala de recreação como a da família Fowlers, que foi criada por Kole usando muitos dos móveis da família, por cerca de US$5,000.

O casal Fowlers trabalhou com a firma de Kole para transformar o espaço de seus filhos com uma televisão de tela plana, uma mesa de bilhar, móveis minimalistas e uma mesa de escritório com computadores. "Isso é muito diferente de quando eu era uma adolescente", disse Ms. Fowler. "Eu nunca queria ficar em casa".

Dana Cuff, professora de arquitetura e planejamento urbano da UCLA, vê muitos motivos por trás da cooperação dos adolescentes. "Há um grande aumento na tecnologia disponível para as casas, todos seus amigos estão online e há poucos lugares públicos tão interessantes e seguros", ela disse. "Tudo isso se une e os pais começaram a criar casas dentro das casas para seus adolescentes".

Os pais dizem que criaram espaços específicos para os adolescentes não apenas para o benefício de seus filhos, mas para sua própria sanidade. Para Peter Skarzynski, consultor de gerenciamento de 46 anos de Wilmette, e sua mulher Caren, 45, ter uma área no porão para seus seis filhos (de idades que variam entre 8 e 19 anos) significa ter espaço para eles. A família Skarzynskis reformou o porão para que parecesse um pub inglês, com tudo menos um bar. "Muitos dos decoradores que vieram aqui queriam colocar um bar nesse espaço", disse Caren Skarzynski. "Eu precisei deixar bem claro que nós já temos isso para os adultos em outra parte da casa".

Ao invés disso, eles instalaram uma mesa de bilhar, outra de Ping-Pong, um projetor, uma máquina de pipoca, um PlayStation e um Xbox, e uma cozinha onde os jovens cozinham para si mesmos. "Nós temos crianças que comem aqui, dormem aqui e jogam o dia inteiro aqui", disse Caren Skarzynski. "Criar um espaço onde nossos filhos possam ter suas amizades, sua privacidade suas próprias vidas é uma prioridade para nós. Isso gera muito menos ansiedade para todo mundo".

Gale Goldring, uma mãe de 50 anos que vive em Pacific Palisades, com seu marido Fred, advogado, e duas filhas adolescente, tiveram preocupações similares quando fizeram da garagem um sala de recreação similar a uma cabana.

"Para ser honesta, era importante que as meninas tivessem seu próprio espaço porque eu não queria que fizessem muita bagunça na casa", ela disse. "Eu sabia que esse seria um lugar onde elas poderiam aproveitar com seus amigos, usar a piscina, a sala e tudo mais sem destruir a casa".

Na sala há três camas para as amigas, uma banheira e um chuveiro, além de um deck no teto. O projeto custou US$175,000, disse Gale Goldring, acrescentando que "uma vizinha gostou tanto da idéia que fez o mesmo para seus filhos".

As salas de recreação ainda são aquele lugar para onde os adolescentes vão quando "querem se esconder de nós", disse Sandy Gillis, 52. Ela e seu marido, Tom Gammill, ambos escritores em Altadena, dedicaram parte do andar terreo de sua casa à sua filha, Alice, 16, e seu filho, Henry, 18. Apesar de terem colocado um estúdio de gravação e GarageBand, uma coisa que não oferecem é acesso à internet. Na sua casa, o casal quer manter as ameaças do mundo à distância. "Ainda é um lugar seguro", disse Sandy Gillis.

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