Padre prega no México com o dialeto de um gângster

Reverendo faz sermão com gírias de rua para se conectar com membros de gangues, dependentes de drogas e jovens em risco

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Reverendo Frederick Loos, padre nascido nos EUA, prega em igreja na Cidade do México
Frederick Loos blasfemou como um marinheiro em uma noite recente, algo surpreendente uma vez que ele é um padre católico e seu discurso sujo foi feito no púlpito, diante de centenas de fiéis.

Ele falou de Deus, da necessidade de servi-lo e como ele pode transformar vidas. Mas intercalado em seu sermão estavam gírias em espanhol usadas na rua, que fizeram sorrir muitos dos membros de gangues, dependentes de drogas e outros jovens presentes para ouvi-lo.

"Quando você vai para a China tem de falar chinês", explicou o sacerdote mais tarde, retirando suas vestes religiosas. "Se você fala com jovens, tem de usar seu idioma. Não acho que Deus se ofenda se isso os aproxima dele."

Aqueles envolvidos no emaranhado da próspera cultura de drogas do México - usuários e traficantes - têm uma relação incomum com a igreja. Cheirar cola e fazer o sinal da cruz pode não parecer algo que combina com matar e aceitar a catequese. Mas, para muitos fiéis no México de hoje, combina sim.

O enorme grupo que vai à Igreja San Hipólito no dia 28 de cada mês é composto por paroquianos não convencionais, para dizer o mínimo. Com tatuagens e piercings, os jovens fiéis vêm de alguns dos bairros mais violentos da capital e muitos deles reconhecem que andam com gangues e usam drogas. O uso de drogas, na verdade, é abundante na entrada da igreja, onde a fumaça da maconha enche o ar e cheirar cola é algo comum.

Mas esse santo do século 1 que muitos jovens mexicanos adotaram como seu guardião está alterando as mentes também. Milhares de jovens de algumas das mais difíceis e viciadas regiões da capital mexicana começaram recentemente a fazer essas peregrinações mensais a San Hipólito carregando velas, rosários e efígies de São Judas, o santo patrono das causas desesperadas.

"Quero me conectar com Deus", disse um adolescente de olhos vidrados segurando uma estátua de São Judas e cheirando cola, quando questionado sobre seu fervor religioso. "Yeaaah", disse seu amigo, oscilando precariamente, também sob o efeito da droga.

Os jovens chegam de metrô, ônibus e moto de todos os cantos da capital, ávidos por bênçãos. A igreja, um pouco constrangida, tenta canalizar essa massa pouco ortodoxa. O reverendo Rene Perez, padre da paróquia encarregado de manter o novo grupo sob controle, quer reinventar São Judas como padroeiro oficial dos tóxico dependentes."Não temos uma varinha mágica, mas queremos aproveitar essa fé que eles têm", disse.

Como resultado, ele aceita drogas na cesta de coleta caso os fiéis queiram abandonar seus vícios ali mesmo. Ele também trouxe para a igreja o padre Loos, de 74 anos, um americano que vive no México há mais de quatro décadas e cuja gíria o ajuda a se relacionar com os recém-chegados.

"É um fenômeno enorme e ninguém entende isso", disse Loos, observando o uso de drogas na porta da igreja. "Eles estão claramente em busca de ajuda para os seus muitos problemas. Eles carregam essas estátuas de São Judas, algumas maiores do que eles mesmos. São Judas está se tornando algo muito próximo deles."

Na esperança de evitar que sua fascinação por São Judas se transforme em um interesse em Jesus Malverde, um bandido do século 20 que foi adotado como santo por aqueles que vivem no submundo das drogas, a igreja está ansiosa para canalizar a fé dos jovens. Alguns fiéis tradicionais, porém, não gostam muito da linguagem chula, e um grupo deles se reuniu com Perez em uma noite recente para protestar contra as palavras de Loos.

Os jovens paroquianos da Cidade do México não são os únicos que combinam religião com vício. Poderosos traficantes de drogas em outras partes do país doam consideráveis montantes para reparos de igrejas e outros projetos. Dizendo que os traficantes são "muito generosos", Dom Carlos Aguiar Retes, presidente da Conferência Episcopal Mexicana, causou polêmica no ano passado, quando foi citado pelo jornal Reforma creditando-lhes pela a construção de igrejas, capelas e outras obras de infraestrutura.

Em Michoacán, Estado na região central do México conhecida pelo cultivo de maconha e produção de metanfetaminas, uma versão distorcida da Bíblia tem sido adotada por uma gangue de drogas conhecida como La Família.

"Peço a Deus para me trazer desafios que me fortaleçam", diz sua escritura. "Peço que me dê sabedoria e problemas para resolver. Peço que me dê prosperidade e cérebro e músculos para trabalhar." A obra é assinada por Nazário Moreno, líder espiritual da La Família, que atende pelo apelido de "El Más Loco".

Enquanto essa paróquia na Cidade do México tenta convencer os jovens perturbados a desistir de seus vícios, "El Más Loco" criou um culto no interior que usa a religião para justificar a violência homicida de sua gangue, mesmo que isso signifique matar policiais que tentam interromper seus negócios ou eliminar os rivais decepando suas cabeças. Que o bem e o mal possam estar tão perigosamente entrelaçados é algo que faz com que os pastores sacudam a cabeça.

"A maioria das pessoas que matam umas as outras é católica de batismo", disse Loos. "Como podem fazer o que estão fazendo? A violência é tão sádica. Como eles podem ir para casa à noite e segurar seus filhos? Não consigo entender."

* Por Marc Lacey

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