Oxitocina pode estar associada ao nível de confiança nos outros

O desenvolvimento da confiança é uma ferramenta social essencial, que permite às pessoas estabelecer relacionamentos produtivos e com significado, tanto no nível pessoal quanto no profissional. No entanto, laços de confiança também são extremamente frágeis, e um único ato de traição ¿ como um caso extraconjugal ¿ pode instantaneamente apagar anos de comportamento digno de confiança.

The New York Times |

As conseqüências dessas quebras de confiança podem ser desastrosas, e não somente para um relacionamento. Pessoas que foram traídas no passado às vezes começam a evitar futuras interações sociais, que é um precursor potencial para a fobia social. Devido a essas ligações, uma pesquisa recente tentou esclarecer os mecanismos nervosos que estão por trás da confiança.

Esse é o objetivo de um novo e interessante estudo do neurocientista Thomas Baumgartner e seus colegas da Universidade de Zurique na Alemanha, que combina diferentes disciplinas (economia e neurociência) e metodologias (exames neurológicos de imagem e neurofarmacologia) para investigar como o cérebro se adapta a quebras de confiança.

A Química da Confiança

Para estudar interações sociais, economistas, e mais recentemente neurocientistas, tiram vantagem de um simples jogo entre duas pessoas chamado de jogo de confiança.

Em um jogo de confiança típico, um investidor (Jogador 1) se depara com uma decisão de ficar com uma quantia de dinheiro (digamos, 10 reais) ou dividi-la com uma pessoa de confiança (Jogador 2). Se a quantia for dividida, o investimento é triplicado (30 reais) e a pessoa de confiança agora encara a decisão de retribuir a confiança ao devolver grande parte do investimento inicial (por exemplo, 15 reais para cada participante) ou desertar e quebrar a confiança ao ficar com o dinheiro para si.

Nesse jogo, o investidor então encara um importante dilema social: confiar ou não confiar. Apesar de ser mais rentável confiar, ao fazê-lo, o investidor tem o risco de ser traído.

Levantou-se a hipótese de que a oxitocina, um hormônio reconhecido pelo seu papel nas ligações sociais e na facilitação de interações sociais, também é importante na formação da confiança.

Por exemplo, a aplicação de oxitocina em investidores em jogos experimentais aumentou a tendência deles de se comprometer com riscos sociais e confiar a outra pessoa seu dinheiro.

O estudo de Baumgartner e seus colegas destacam os mecanismos nervosos através dos quais a oxitocina age para facilitar o comportamento confiante ao investigar o que ocorre no cérebro quando a confiança se quebra.

Quando a Confiança se Quebra

Os autores usaram exames de ressonância magnética funcional para avaliar 49 participantes que receberam placebo ou oxitocina através de sprays nasais. Os participantes foram instruídos a agir como investidores durante várias rodadas do jogo da confiança com diferentes pessoas de confiança. Também foi dito a eles que eles iriam participar de um jogo de risco (similar ao jogo de confiança quanto aos riscos financeiros, mas jogado com um computador em vez de outro ser humano).

Para investigar o papel da oxitocina após quebras de confiança, o experimento foi dividido em fases antes e depois do feedback. Entre essas duas fases, os participantes receberam informação de feedback indicando que cerca de 50% das suas decisões (tanto no jogo da confiança quanto no jogo de risco) resultou em investimentos insatisfatórios ¿ ou seja, sua confiança foi quebrada (jogo da confiança) ou sua aposta não rendeu (jogo de risco).

Pessoas que receberam placebo antes do jogo diminuíram seu nível de confiança (isto é, a quantidade de dinheiro que eles estavam dispostos a investir) depois de descobrirem que sua confiança foi quebrada. Participantes que receberam oxitocina, no entanto, continuaram a investir em níveis similares, sem importar com o fato de terem tirado proveito ou não de sua confiança.

Essas diferenças nos comportamentos dos grupos foram acompanhadas por diferenças em respostas neurais, à medida que participantes do grupo de oxitocina diminuíram as reações na amídala e no núcleo caudado. A amídala é uma região do cérebro envolvida no aprendizado de emoções e medo, e é rica em receptores de oxitocina, enquanto o núcleo caudado foi anteriormente relacionado a respostas relativas a recompensas e à aprendizagem da confiança.

Assim, os autores teorizam que a oxitocina diminui tanto os mecanismos do medo associados a uma potencial aversão a traições (via amídala) e nossa confiança em feedback positivo que pode influenciar futuras decisões (via núcleo caudado). Isso, por sua vez, facilita a expressão de confiança mesmo depois de terem ocorrido quebras de confiança.

Notavelmente, os resultados comportamentais e neurológicos observados só foram aparentes quando participantes jogaram o jogo da confiança, mas não o jogo de risco, sugerindo que os efeitos da oxitocina no nível de confiança são exclusivos para interações com pessoas reais.

Uma ciência de fobias sociais?

O desenvolvimento da confiança é uma ferramenta social essencial, que permite às pessoas estabelecer relacionamentos produtivos e com significado, tanto no nível pessoal quanto no profissional. No entanto, laços de confiança também são extremamente frágeis, e um único ato de traição ¿ como um caso extraconjugal ¿ pode instantaneamente apagar anos de comportamento digno de confiança.

O estudo demonstra como a oxitocina pode facilitar interações sociais após quebras de confiança, ao diminuir potencialmente mecanismos de defesa associados a riscos sociais e ao superar feedback negativo que é importante para a adaptação do comportamento no futuro.

Esses resultados intrigantes oferecem um importante avanço na nossa compreensão de distúrbios psicológicos onde déficits de comportamento social são observados. Medo excessivo de traição, por exemplo, pode representar como um precursor para a fobia social, um distúrbio caracterizado por um medo paralisante de interações sociais.

A longo prazo, essa falta de interação social pode levar a sérios problemas para o bem-estar psicológico e físico. Assim, para continuar formando uma ponte entre a pesquisa básica e clínica, futuros estudos devem focar nos efeitos da oxitocina durante os tipos de traição que ocorrem mais comumente na vida real (como ser traído pela pessoa amada ou por um sócio nos negócios). Também será interessante analisar o quanto os sexos masculino e feminino reagem de formas distintas a quebras de confiança após a administração de oxitocina.

A confiança é um mecanismo de adaptação essencial para o estabelecimento de relações sociais, e quebras de confiança têm um impacto profundo no comportamento social e na saúde psicológica. Entender o equilíbrio entre níveis de oxitocina e níveis adequados de confiança será outro passo importante no futuro.

Níveis menores de oxitocina em algumas situações podem certamente ser adaptativos, já que uma pessoa ficará mais cautelosa quanto a possíveis danos. Níveis mais altos de oxitocina, no entanto, também podem ser necessários às vezes, para permitir que uma pessoa perdoe e esqueça, um passo fundamental para manter relacionamentos a longo prazo e o bem-estar psicológico.

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