Outdoors alteram paisagem do Cairo

Publicidade maciça altera panorama da capital do Egito, antes marcada por cúpulas de mesquitas, minaretes e arquitetura histórica

The New York Times |

Há outdoors publicitários demais no Cairo. Ninguém sabe exatamente quando isso aconteceu. Talvez tenha sido quando fileiras e mais fileiras de outdoors tomaram conta das calçadas, fazendo do Cairo uma cidade ainda mais difícil de transitar. Mas o início do fenômeno, neste momento, é irrelevante.

The New York Times
Homem caminha em frente de outdoors no Cairo (22/05/2010)

O surto de outdoors publicitários alterou de forma marcante o panorama de uma cidade que era antes definida por cúpulas de mesquitas, minaretes e arquitetura histórica. O cenário apocalíptico é mais um sinal da divisão de classes cada vez mais marcante entre ricos e pobres, onde os ricos podem fazer tudo que seu dinheiro comprar, não importando como isso atinge os pobres.

A epidemia de outdoors, que piorou nos últimos dois anos, é pelo menos uma das consequências involuntárias do crescimento macroeconômico pelo qual o Egito passou nos últimos anos. O problema piorou conforme dinheiro e ambição tomaram ruas nas quais as regras são geralmente consideradas obstáculos a ser eludidos, e os direitos são proporcionais ao poder, conexões e dinheiro.

As avenidas que levam para fora da cidade têm inúmeros outdoors que visam a famílias mais abastadas que se isolam cada vez mais em condomínios fechados longe da desordem do centro. Mas, em qualquer bairro da cidade, os outdoors também parecem vencer a batalha. O governo definitivamente está ciente de que algo tem de ser feito.

The New York Times
Burro passa em frente de anúncio em uma casa nos arredores do Cairo (23/05/2010)
Há alguns anos o presidente Hosni Mubarak emitiu um decreto que buscava restaurar uma certa aparência de ordem à cidade por meio da criação da Organização Nacional para Harmonia Urbana, um nome que não pretendia ter qualquer sentido de ironia.

Como acontece muitas vezes aqui, mesmo apesar das melhores intenções, na prática não houve ação. Em vez disso, a mania de outdoors apenas cresceu.

As autoridades afirmam que os governadores das regiões do Egito controlam os espaços que são vendidos para a publicidade. Em todo a grande Cairo, autoridades do governo emitem certificados que permitem que os outdoors sejam colocados por toda a parte.

Em 2009, o Parlamento adotou um código de construção civil único, que incluía uma provisão exigindo que o grupo de harmonia visual emitisse regras para a colocação de outdoors. Um manual foi concluído poucas semanas atrás e agora, de acordo com as regras, muito do que existe é ilegal.

Um dos motivos para a lentidão do processo é a quantidade de dinheiro que os governos recebem de companhias de publicidade que surgiram da prática. De acordo com uma estimativa, 400 empresas se responsabilizam pela colocação de outdoors - as três maiores são estatais.

Do outro lado da cidade, na margem oposta do Nilo, Faris Farhad contava não ter motivo para olhar para os outdoors porque não tem dinheiro para comprar os produtos anunciados. "É deprimente", disse.

* Por Michael Slackman

    Leia tudo sobre: EgitoCairooutdoorspublicidade

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG