Os recordes caem, mas as suspeitas de doping continuam

Por Jeré Longman PEQUIM ¿ Muitos especialistas em corrida de velocidade chamaram Usain Bolt de ¿anormal¿ depois que ele quebrou o recorde de 19.30 segundos nos 200 metros na quarta-feira. Um treinador jamaicano tirou Bolt da esfera do atletismo e o colocou na esfera dos físicos teóricos, o comparando a Einstein e Isaac Newton.

The New York Times |


Você tem pessoas que são exceções, disse Stephen Francis, treinador de corrida de velocidade jamaicano. Não dá para explicar como e o que eles fazem.

Eu quero acreditar que talento, trabalho duro e determinação não são combustíveis fósseis, e que humanos, ao contrário de carros, não precisam de aditivos químicos para correr com o máximo de eficiência.  

Bolt é tão amável e divertido quanto rápido. Sua rapidez é de tirar o fôlego.

Ele é o primeiro homem a vencer a prova olímpica dos 100 e 200 metros desde Carl Lewis em 1984, o primeiro a quebrar os recordes e ambas as provas na mesma Olimpíada.  


Usain Bolt comemora a vitória nos 200 metos / Reuters

Mas quando eu quero acreditar completamente, sinto uma pontada de ceticismo. Isso incomoda, como uma dor no tendão.

Por 20 anos, eu cobri esse esporte. Eu vi alemães orientais, Flo-Jo, Ben Johnson, Carl Lewis, Michael Johnson, Maurice Greene e Marion Jones. E agora Bolt. Eu vi momentos inspirados, mas também testemunhei a corrosiva implosão do doping.  Por mais que tente com bravura, eu não consigo acreditar irrestritamente. Eu sempre me repreendo no último segundo, mancando com dúvidas.

Três dos cinco últimos campeões olímpicos dos 100 metros - Ben Johnson, Linford Christie e Justin Gatlin - levantaram suspeitas. Um quarto, Greene, foi acusado por um fornecedor assumido de esteróides de ter recebido substâncias proibidas, apesar de Greene ter negado e nunca ter sido acusado por autoridades antidoping.

Agora, Jones, a desonrada campeã dos 100 e 200 metros na Olimpíada de Sydney em 2000, deve estar assistindo a essa Olimpíada de um presídio federal.  

Pode parecer ingênuo não suspeitar. Ao mesmo tempo, me sinto culpado por duvidar.  

Por que corredores devem levantar suspeitas enquanto Michael Phelps e outros nadadores venceram sem ter que responder a questões sobre doping?

E eu me sinto mal pelo atletismo.

O atletismo e o ciclismo trabalham mais duro que qualquer outro esporte para pegar os usuários de drogas. Ao invés de se sentirem recompensados pela vigilância, eles não estão se importando e estão se infestando de drogas. O inocente já não consegue provar que é inocente. É difícil parecer correto. 

Dada essa realidade corrosiva, a pior coisa que o membro do conselho da Liga de Beisebol Bud Given pode fazer é adotar testes mais rígidos para ao esporte. Se o beisebol tornar a verificação mais rígida, ele vai pegar mais traidores. E a reputação deles também vai sofrer um grande, e talvez letal golpe como os sofrem os atletas de corrida.

Melhor olhar para o outro lado, como faz a NBA e NHL. Fingir que não existe o problema das drogas, e o público irá acreditar que não existe mesmo.

Pessoalmente, eu permitiria aos atletas colocar o que eles quisessem dentro de seus corpos. Pelo menos o esporte seria mais honesto. Vamos ter o Winstrol 200 e o Stanozolol 400. Eu não tenho posições éticas sobre o uso de drogas para melhorar o desempenho. Eu só quero estar apto a acreditar no que vejo.

Nesse momento, isso não é possível.

É um esforço em vão adivinhar quem está ou não usando substâncias ilícitas. Só uma coisa é certa, como escrevi antes: não dá para acreditar que nenhuma vitória da Olimpíada, nem nenhuma outra competição da elite esportiva, pode ser conquistada sem substâncias ilegais.

Teste ineficaz

Uma urina limpa não significa nada. De fato, ser pego na Olimpíada, onde os atletas sabem que serão inspecionados, é mais uma falha em um teste de QI que em um teste de doping.  

Gina Kolata do The New York Times escreveu semana passada que a melhor maneira de burlar o teste de urina é pingar uma gota de sabão em pó. Clareadores, cujas enzimas quebram as proteínas, destroem o eritropoietina (EPO) e hormônios humanos de crescimento presentes na amostra.

Não dá para saber se o que vemos de Bolt e de outros atletas nos Jogos de Pequim é legítimo ou fraudulento, como as bandeiras que flutuam artificialmente no Estádio Olímpico, que se movimentam com jatos de ar que saem do maestro.

Você nunca terá essas respostas, devido ao ambiente agora, disse Renaldo Nehemiah, agente esportivo e detentor do recorde mundial dos 110 metros com barreira.  

Mesmo assim, disse que Bolt não caiu da árvore, dizendo que a estrela jamaicana imprimiu sua marca no esporte. Ele foi campeão júnior aos 15 anos e sua carreira seguiu passos premeditados.

Ele tem pedigree," disse Nehemiah. "Isso é inevitável.

Ele corre com muito facilidade de acordo com Christian Malcolm, que terminou em quinto nos 200 metros . Ele consegue velocidade nos primeiros 60 metros.  

O salto balístico é que separa Bolt de Lewis, disse Harvey Glance, treinador americano de corrida de velocidade.

Se você não estava na frente de Carl nos 40 metros, ele te incomodava, disse Glance. Esse cara te incomoda desde o começo.  

Para um corredor alto, Bolt é fundamentalmente sólido e com um posicionamento reto dos pés desde os primeiros passos, disse Nehemiah.  

Ele não perde muita energia indo para a esquerda e a direita antes de começar, disse Nehemiah.

Ele parece não estar sujeito a padrões particulares antidoping em casa.

A Jamaica não tem um programa independente para filtrar os atletas, considerando a única maneira efetiva de pegar usuários de droga. Alguns dos atletas reclamaram, com grande sobressalto, em um esporte aonde o aprimoramento vem com centésimos de segundos.

Recordes batidos

Shelly-Ann Fraser venceu os 100 metros feminino em 10.78, quase um segundo mais rápido que sua melhor marca de 11.74 dois anos atrás.

Melanie Walker venceu os 400 com barreiras em 52.64, 1.5 mais rápido que sua melhor marca de 54.14 em 2007.

Na quarta-feira, Bolt diminuiu seu melhor resultado nos 200 metros, passando de 19.67 para 19.30 (apesar de, para ser sincero, Michael Johnson, o recordista anterior, diminuiu sua marca de 19.79 para 19.32 em apenas um mês em 1996.)

Quão rápida você pode ir antes do recorde mundial ser atingido? perguntou uma aterrorizada Kim Collins, depois de terminar em sexto nos 200. Quão rápido um ser humano pode ir antes de não ter mais corrida?

Por quanto tempo poderemos acreditar no que estamos vendo?

Por JERÉ LONGMAN

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