Os perigos reais que a internet pode trazer

Em uma tarde da primavera de 2006, por motivos desconhecidos àqueles que o conheciam, Mitchell Henderson, um garoto da sétima série de Rochester, no Estado de Minnessota., pegou um rifle calibre .22 da prateleira no armário do quarto dos pais e deu um tiro na própria cabeça.

The New York Times |

Na manhã seguinte, a escola de Mitchell se reuniu na quadra e começaram a lamentar. Seus colegas de sala criaram um memorial virtual no MySpace e o decoraram com honrarias. Um escreveu que Mitchell era um herói por dar o tiro, por abandonar a todos nós. Deus sabe que queríamos voltar no tempo...

Alguém mandou um e-mail do obituário de Mitchell no jornal para o MyDeathSpace.com , um site que leva à página do MySpace dos mortos. A partir do MyDeathSpace, a página de Mitchell foi exposta à atenção de um fórum na Internet conhecido como /b/ e os trolls, como vieram a ser chamados, que se hospedam lá.

/b/ é o fórum aleatório do 4chan.org , um grupo de fóruns que atrai mais de 200 milhões de page views por mês. Um post consiste em uma imagem e algumas linhas de texto. Quase todo mundo posta como anônimo. /b/ soa como o interior de um banheiro de colegial ou um disque-sexo.

Algo sobre Mitchell Henderson foi considerado engraçado pelos usuários. Eles acharam especialmente divertido uma referência em sua página do MySpace a um iPod perdido. Mitchell Henderson, como o /b/ decidiu, se matara por conta de um iPod perdido. O título de um herói nascera. Dentro de horas, as multidões anônimas estavam envolvendo a tragédia da morte de Mitchell com absurdos.

Alguém invadiu a página do MySpace de Mitchell e lhe deu a cara de um zumbi. Alguém colocou um iPod no túmulo de Henderson, tirou uma foto e postou no /b/. O rosto de Henderson foi anexado a iPods dançantes, iPod que giram, cenas de pornografia explícita. Uma reconstituição dramática da despedida de Henderson apareceu no You Tube , completa com o iPod destruído.

O telefone começou a tocar na casa dos pais de Henderson. Pareciam crianças, lembra o pai de Mitchell, Mark Henderson, executivo de tecnologia da informação de 44 anos. Eles diziam, Oi, aqui é o Mitchell, estou no cemitério. Oi, estou com o iPod de Mitchell. Oi, é o fantasma de Mitchell, a porta da frente está trancada. Você pode vir aqui e me deixar entrar? Ele suspirou. Afetou muito a minha mulher. As ligações continuaram por um ano e meio.

No final dos anos 1980, usuários de internet adotaram a palavra troll para denotar alguém que intencionalmente perturba comunidades on line. A prática dos trolls no começo era relativamente inócua, acontecendo dentro de grupos pequenos, com um só tópico. Os trolls empregaram o que a professora do MIT, Judith Donath, chama de tática pseudo-ingênua, fazendo perguntas idiotas e vendo quem morderia a isca.

Criadora de identidades

Hoje a internet é muito mais do que fóruns de discussão esotéricos. É um meio massivo para definir quem somos. Adolescentes engomam seus perfis no MySpace tão intensamente quanto o cabelo, qualquer um que procura emprego ou paqueras espera ser buscado no Google. À medida que nosso investimento emocional na internet cresceu, a prática do troll evoluiu de uma piada irônica individual à caça viciosa de grupo.

Lulz é como os trolls marcam os pontos. Uma distorção de LOL ou laugh out loud (rir sonoramente), lulz significa a alegria de perturbar o equilíbrio emocional de alguém. Lulz é ver alguém perder a cabeça ao computador a duas mil milhas de distância enquanto você conversa com os amigos e ri, diz um ex-troll que, como muitos que contatei, se negou a revelar sua identidade legal. (Enquanto escrevia este artigo, fiz tudo o que podia para verificar as histórias dos trolls e as identidades, mas não pude me certificar. Afinal, estava examinando uma subcultura que é construída sobre enganações e regozijos ao brincar com a mídia.)

A lógica do "lulz" se estende para além do /b/. Duas estudantes de direito de Yale processaram um usuário com pseudônimo que postou fantasias violentas com elas no AutoAdmit , um fórum de contratações da faculdade. Na China, nacionalistas anônimos estão postando ameaças de morte contra ativistas pró-Tibete junto com seus nomes e endereços. A tecnologia, aparentemente, faz mais do que controlar a sabedoria da multidão. Ela pode intensificar também seu ódio.

Jason Fortuny deve ser a coisa mais próxima desse movimento de provocadores anônimos a um representante. Aos 32 anos, ele trabalha com serviços de freelance tipicamente de Clark Kent ¿ web design, programação ¿ mas sua paixão é a prática do troll, provocando emoção nas pessoas. Fortuny classifica seus atos de troll como experimentos, questionamentos sociológicos sobre comportamento humano.

No outono de 2006, ele postou algo falso no Craiglist , passando-se por uma mulher que procurava homem musculoso e brutal. Mais de cem homens responderam. Fortuny postou seus nomes, fotos, e-mail e números de telefone em seu blog, rotulando a exposição o Experimento da Craiglist. Isso fez de Fortuny o mais proeminente vilão da internet nos Estados Unidos até novembro de 2007, quando sua fama foi eclipsada pelo suicídio no MySpace de Megan Meier .

Reprodução
Megan Meier cometeu suicídio após conversas no MySpace
Megan Meier cometeu suicídio
após conversas no MySpace
Meier, uma garota de 13 anos de Missouri , se enforcou com um cinto depois de receber mensagens cruéis de um rapaz com quem estava flertando no MySpace. Ele não era um garoto real, dizem os investigadores, mas a criação ficcional de Lori Drew, a mãe de uma das ex-amigas de Megan. Drew disse mais tarde que ela esperava descobrir se Megan estava fazendo fofocas sobre a sua filha. A história foi uma sensação da mídia.

O Experimento da Craiglist de Fortuny cerceou dos sujeitos mais do que apenas a privacidade. Dois deles, ele diz, perderam o emprego, e pelo menos um, durante um tempo, perdeu a namorada. Outro entrou com processo de invasão de privacidade contra Fortuny em um tribunal de Illinois. Depois de receber ameaças de morte, Fortuny meticulosamente apagou o endereço e número de telefone reais da internet. Qualquer um que saiba quem você é e onde está é um buraco na segurança, ele me disse. Possuo uma arma. Tenho uma rota de fuga. Se alguém vier, estou pronto.

Senso próprio de moral

Fortuny e eu nos encontramos pessoalmente num dia claro da primavera em seu apartamento em Kirkland, no Estado de Washington, perto de Seattle. Ele é magro, com características de pássaros e com uma expressão pálida de alguém que trabalha em frente a uma tela.

Uma TV de alta definição e tela plana dominava a sala de estar de Fortuny, à frente de um colchão preparado com cobertas cuidadosamente dobradas. Aí é onde eu dormiria nas próximas noites. Enquanto Fortuny apanhava seu gato e o acomodava numa cadeira estilo Eames, perguntei-lhe se a prática do troll magoava as pessoas.

Não vou me sentar aqui e dizer, Oh, Deus, por favor me perdoe! para que alguém se sinta melhor, disse Fortuny, sua voz calma momentaneamente aumentando. O gato deitado ronronava em seu colo. Eu sou o malvado? Eu sou a pessoa horrível que destruiu a vida de alguém com alguma informação? Não! Isso é a vida. Bem-vindo à vida. Todo mundo passa por isso. Eu também passei por coisas horríveis.

Como o quê? perguntei. Abuso sexual, Fortuny disse. Quando Jason tinha 5 anos, ele disse, foi molestado pelo avô e por outros três parentes. A mãe de Jason me contou mais tarde, também, que ele foi molestado pelo avô. A última notícia que teve de Jason foi uma carta dizendo a ela que se matasse. Jason é um jovem com uma grande dose de dor emocional, ela disse, chorando enquanto falava. Não seja tão duro. Ele ainda é meu filho.

Nos dias que seguiram a publicação da história de Megan Meier, Lori Drew e sua família se encontraram no caminho dos trolls. Suas informações pessoais se espalharam pela internet. Malfeitores anônimos fizeram ameaças de morte e arremessaram um tijolo na janela da cozinha.

Então veio o blog Megan Had It Coming. Supostamente escrito por um dos colegas de sala de Megan, o blog chamava Megan de rainha do drama, tão instável que Drew não podia ser culpada por sua morte. No terceiro post o autor se revelou como Lori Drew.

Esse post recebeu mais de 3.600 comentários. A Fox e a CNN debateram sua autenticidade. Mas a identidade de Drew era outra máscara. Na verdade, Megan Had It Coming era outro experimento de Jason Fortuny. Ele, não Lori Drew, Fortuny me disse, era o autor do blog. Depois de observá-lo entrando no site e adicionando um post, acreditei nele.

A intenção do blog era, ele diz, questionar a fome do público por remorso e desafiar o cumprimento das leis de assédio pela rede como a que foi aprovada pela cidade de Megan depois de sua morte. Fortuny concluiu que elas não eram cumpridas.

O departamento do condado anunciou que estava investigando a identidade da falsa Lori Drew, mas nunca encontrou Fortuny, que não está especialmente preocupado em se mostrar agora. Eles vão me processar por quê? ele perguntou. Enganar pessoas confusas? Por que as pessoas não verificam de quem essas coisas estão vindo? Por que presumem que é verdade?

Assusta para ajudar

Fortuny passou a maior parte do fim de semana em seu quarto administrando algumas janelas no monitor. Uma mostrava uma sala de chat pipocando com notícias de um ataque contra o site da Epilepsy Foundation. Trolls inundaram os fóruns do site com imagens piscando e links para campos coloridos animados, levando pelo menos um usuário fotossensível a alegar que teve um ataque.

WEEV: todas as imagens piscando postadas sobre o lance dos epilépticos? passou dos limites.

HEPKITTEN: alguém pode me dizer por favor como fazer algo que os admins intencionalmente deixaram habilitado é hackear?

WEEV: é hackear os cérebros desligados das pessoas. temos que delinear uma linha moral em algum lugar.

Fortuny não concordou. Para ele, submeter usuários epilépticos a luzes piscando foi justificado. Invasões assim falam para que você tome cuidado ao acertá-lo com um taco de beisebol, ele me disse. Demonstrar esses tipos de exploração geralmente é única maneira de consertá-los. Então a mensagem é compre um capacete, e o meio é uma tacada na cabeça? perguntei.

Não, é como um arremessador pedindo ao rebatedor para colocar o capacete ao acertá-lo na cabeça a partir do seu espaço. Se você tem uma doença e está na internet, precisa tomar precauções. Alguns dias depois, ele escreveu e postou um guia para que os epilépticos surfem com segurança na Web.

Por que infligir angústia a um estranho perdido? É tentador culpar a tecnologia, que aumenta o alcance de nossas comunicações enquanto desumaniza os recipientes. Mas isso não explica o impulso inicial dos trolls, que parece nascer de um desejo humano destrutivo que muitos sentem mas poucos fazem algo a respeito. Há muito ódio por aí, e muito o que odiar.

Então como lidamos com casos como ataques a epilépticos e a possibilidade de danos reais impostos a estranhos? Alguns legisladores dos EUA recentemente propuseram medidas contra provocações virtuais. Em nível federal, a deputada Linda Sanchez, uma democrata da Califórnia, introduziu o Ato de Prevenção contra Provocações Virtuais Megan Meier, que tornaria crime federal mandar qualquer comunicação com a intenção de causar desordem emocional substancial.

Em junho, Lori Drew alegou inocência das acusações de que ela violara leis de fraude federais ao criar uma identidade falsa para atormentar, prejudicar, humilhar e envergonhar outro usuário, e ao violar os termos de serviço do MySpace.

Mas dificilmente alguém se dá ao trabalho de ler os termos de serviço, e milhões criam identidade falsas. Enquanto a conduta de Drew é imoral, é um grande exagero chamar de ilegal, escreveu o especialista em privacidade online, Professor Daniel J. Solove, no blog Concurring Opinions.

Estamos prontos para uma internet em que o cumprimento da lei mantém vigia sobre cada seção de comentários, pronta para brotar no primeiro sinal de violência? Provavelmente não. Todos os debates acalorados se mesclam aos trolls no perímetro; é quase impossível extrair os trolls sem extinguir a discussão.

Se não podemos condenar os trolls por conta do anonimato on line, haverá alguma maneira de aliviar com a tecnologia? Uma solução que se mostrou eficaz é o desvogalmento -- fazer com que os administradores dos fóruns removam as vogais dos comentários dos trolls, o que dá aos trolls a visibilidade que almejam enquanto encobrem suas mensagens.

Uma resposta mais ampla são os pseudônimos persistentes, um sistema de apelidos que permanecem iguais em vários sites. Isso pode reduzir os excessos de anonimato enquanto preserva os benefícios dos alcagüetes e opositores além-mar.

Finalmente, os trolls irão parar quando o público parar de levá-los a sério. As pessoas sabem ser profundamente céticas com relação ao que lêem na frente de uma propaganda de supermercado, diz Dan Gillmor, que dirige o Center for Citizen Media. Deveriam ser ainda mais com comentários anônimos. Não deveriam começar com uma credibilidade de, digamos, 0. Deveria ser algo como -30.

Claro, nenhum desses métodos será seguro contra falhas enquanto indivíduos como Fortuny interpretar o bem-estar humano da maneira que o fazem. Quando discutimos sobre o ataque aos epilépticos, perguntei a Fortuny se uma pessoa era obrigada a dar comida a um estranho faminto. Não, Fortuny defendeu; ninguém tem o direito de ter nossa simpatia ou empatia. Podemos escolher se damos ou nos recusamos do modo que achamos adequado. Não posso empurrá-lo para o incêndio, ele explicou, mas posso olhar para você enquanto está queimando no fogo e não ser solicitado a ajudar.

Semanas mais tarde, depois de conversar com seu amigo de longa data, Zach, Fortuny começou a ponderar sobre as forças emocionais mais profundas que o levaram ao troll. A teoria do cabelo verde, disse ele, me permite encontrar pessoas que fazem coisas estúpidas e mudá-las. Zach perguntou se eu pensava que poderia mudar meus pais. Quase desmontei. A idéia que eles aprendessem com seus erros e se tornassem pessoas que eu pudesse realmente me orgulhar... Era desconcertante. Ele continuou. Não é que faço isso porque os odeio. Faço isso porque estou tentando salvá-los.

- (Mattathias Schwartz é escritor da equipe na revista Good)

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