Os gastos de hoje podem afetar a economia de amanhã?

Agora mesmo há um intenso debate sobre o quão agressivo o governo dos Estados Unidos deve ser em suas tentativas de recuperar a economia. Muitos economistas, inclusive eu, estamos pedindo por uma grande expansão fiscal para impedir a economia de continuar em queda livre. No entanto, há outros que se preocupam com as dificuldades que podem ser depositadas nas gerações futuras devido a um grande déficit no orçamento.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Mas os preocupados com o déficit entenderam tudo errado. Sob as condições atuais, não há troca entre o que é bom para o curto prazo e o que é bom para longo prazo; uma expansão fiscal forte poderia na verdade elevar as possibilidades da economia no longo prazo.

A afirmação de que déficits no orçamento empobrecem a economia no longo prazo é baseada na crença de que o governo empresta investimentos privados para todo mundo ¿ e de que ele, distribuindo muitos débitos, conduz as taxas de interesse, tornando indesejável gastos nos negócios com instalações e equipamentos, e que isso acaba por reduzir a taxa de crescimento da economia no longo prazo. Sob circunstâncias normais, esses argumentos fazem muito sentido.

Situação

Mas as circunstâncias agora são tudo, menos normais. Considerando-se o que aconteceria no próximo ano se a administração de Obama cedesse os déficits aos abutres e escalasse os planos fiscais de volta.

Isso iria levar a taxas de interesse mais baixas? Isso certamente não iria levar a uma redução dessas taxas, no curto prazo, que são mais ou menos controladas pelo Fed. E ele já está mantendo essas taxas o mais baixo possível ¿ quase zero ¿ e não mudará a política ao menos que veja sinais de que a economia esteja sendo ameaçada por um alto aquecimento. E isso não parece uma possibilidade realista no momento.

Período

E quanto às taxas de longo período? Essas, que já estão muito baixas, refletem principalmente nas expectativas do futuro nas de curto período. O rigor fiscal poderia baixá-las ainda mais -  mas apenas ao criar expectativas de que a economia permaneça em profunda depressão por um longo período, o que reduziria, e não aumentaria, o investimento privado.

A idéia de que uma política fiscal rigorosa em uma economia em depressão reduz o investimento privado não é somente um argumento hipotético: é exatamente o que aconteceu em dois importantes episódios da história.

História

O primeiro aconteceu em 1937, quando Franklin Roosevelt equivocadamente deu atenção aos conselhos dos economistas preocupados com o déficit de sua própria época. Ele reduziu agressivamente os gastos do governo, entre outras coisas, cortando na metade os gatos da Works Progress Administration (agência que empregou milhares de americanos na época do New Deal) e também aumentou as taxas. O resultado foi uma séria recessão e a uma grande queda no investimento privado.

O segundo episódio foi 60 anos depois, no Japão. Em 1996-97, o governo japonês tentou equilibrar seu orçamento, cortando os gastos e aumentando as taxas. E de novo a recessão que se seguiu levou a uma grande queda no investimento privado.

Só para ficar claro, não estou argumentando que tentar reduzir o déficit no orçamento sempre é ruim para o investimento privado. Você pode ter um caso razoável como a moderação fiscal de Bill Clinton nos anos 90, que ajudou o combustível a se tornar o maior investimento dos EUA naquela década, o que acabou sendo uma ressurreição no crescimento da produtividade.

Rigor fiscal

O que tornou o rigor fiscal algo ruim tanto no caso de Roosevelt nos EUA ou do Japão nos anos 90 foi suas circunstâncias especiais. Em ambos, o governo recuou frente à armadilha da liquidez, situação em que a autoridade monetária havia cortado as taxas de interesse o máximo que pôde, ainda que a economia estivesse operando muito abaixo de sua capacidade.
E estamos na mesma armadilha hoje ¿ que é a causa pela qual as preocupações com o déficit acabar por provocar enganos.

Mais uma coisa: a expansão fiscal será ainda melhor para o futuro dos EUA se uma grande parte dela tomar a forma do investimento público ¿ de construção de estradas, conserto de pontes e desenvolvimento de novas tecnologias, tudo o que torna a nação mais rica no longo prazo.

Funcionamento

Será que o governo tem uma política permanente para funcionar com um grande déficit no orçamento? Claro que não. Embora o débito público não seja tão ruim quanto as pessoas acreditam ¿ basicamente é o dinheiro que nos pertence sendo usado para nós mesmos ¿ no longo prazo, o governo, como indivíduos particulares,  tem que adaptar os gastos com os lucros.

Mas agora temos uma pequena deficiência fundamental nos gastos privados: os consumidores estão descobrindo as virtudes de economizar, ao mesmo tempo em que os negócios, queimado por excessos passados e desabilitado por problemas no sistema financeiro, estão reagindo com cortes no investimento.

Essa lacuna irá fechar algum dia, mas antes que isso aconteça, os gastos do governo devem levantar as partes negligenciadas. Caso contrário, o investimento privado e a economia como um todo irão mergulhar ainda mais.

O ponto principal, então, é que as pessoas que pensam que a expansão fiscal no momento é ruim para as futuras gerações estão entendendo errado. A melhor direção a se tomar, tanto para os trabalhadores de hoje como para suas crianças, é fazer o máximo possível para trazer a economia de volta para o caminho da recuperação.

Por PAUL KRUGMAN

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