Oposição no Irã: Tempo ameniza candidato criado pela revolução

TEERÃ - Seus seguidores começam a chamá-lo de o Ghandi do Irã. Sua imagem é carregada em cartazes que passeiam acima das multidões durante os protestos de oposição que atingiram o país nos últimos dias, com seu nome entoado em versos rítmicos que invocam os mais sagrados mártires do Islã. Mir Hosein Mousavi se tornou a face pública do movimento, o homem que os manifestantes consideram ser o verdadeiro vencedor da disputada eleição presidencial.

The New York Times |

Mas ele é um líder de certa forma acidental, uma figura moderada preparada no último instante para representar o levante popular contra a presidência de Mahmoud Ahmadinejad. Ele está longe de ser um liberal no sentido ocidental e ainda não está claro quão longe estaria disposto a ir na defesa da esperanças de uma democracia mais ampla que veio a personificar.

Mousavi, 67, é uma pessoa de dentro dos meandros do poder que caminhou para a oposição e seus motivos para fazer isso continuam incertos. Ele era próximo ao fundador da Revolução Islâmica do Irã mas sua relação com o atual líder supremo é delicada. Algumas figuras proeminentes apoiam sua causa, inclusive o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani. Isso não deixa claro quanto desta batalha reflete uma resistência popular às duras políticas de Ahmadinejad e quanto não passa de uma disputa por poder.

Mousavi e sua mulher, que teve um papel fundamental em sua campanha, têm estado sob enorme pressão para aceitar o resultado anunciado, afirmou um parente próximo que pediu anonimato. Ele não especificou que tipo de pressão.


Mousavi e sua mulher votam nas eleições no Irã / NYT

"Eles são muito corajosos e esperam que a pressão aumente", disse o parente. "O Sr. Moussavi diz que entrou em um caminho para o qual não há volta e está pronto para fazer sacrifícios por ele".

Moussavi começou sua carreira política como linha-dura e favorito do principal arquiteto da revolução, o Aiatolá Ruhollah Khomeini. Apesar de ter uma relação adversa com o atual líder supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, seu status como político envolvido faz com que ele evite desafiar as instituições centrais da república islâmica.

Ele foi um defensor precoce do programa nuclear e, como primeiro-ministro nos anos 80, aprovou a compra de centrífugas no mercado negro, de acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica da ONU.

Ainda assim, como muitas figuras centrais da revolução, ele chegou à conclusão que o radicalismo incendiário dos primeiros dias precisava ser amenizado em uma era de paz e construção do Estado, dizem aqueles que o conhecem. Alguns veem um significado simbólico na sua decisão de fazer com que a enorme passeata de segunda-feira tenha partido da Praça Enghelab (revolução) para a Praça Azadi (liberdade).

"Ele é um filho híbrido da revolução", disse Shahram Kholdi, professor da Universidade de Manchester que escreveu sobre a evolução política de Moussavi. "Ele está comprometido com os princípios islâmicos mas tem aspirações liberais".

Nos últimos dias, Moussavi tem sido levado a um confronto que contém em si terríveis riscos para ambos os lados. Se as autoridades usarem a força em grande escala para conter os protestos, o movimento pode ser destruído. Mas também pode criar mártires e aprofundar a raiva pública, aumentando ainda mais as manifestações contra um sistema que Mousavi quer preservar.


Protestos com manifestantes carregando fotos de Mousavi / NYT

A resignação que ele mostrou desde que o resultado da eleição foi anunciado no sábado ajudou a solidificar seu papel como líder e a comoveu seus apoiadores.

"A exigência do povo é o objetivo central da república islâmica", disse Moussavi conforme as urnas eram fechadas na noite de sexta-feira, em um ato que foi visto como um ataque direto à liderança clériga e um alerta de que levaria o caso ao público caso suspeitasse de fraude.

Figura improvável

De certa maneira, Moussavi é uma figura improvável. Calmo e deliberado, ele tem uma maneira professoral de se expressar, e mesmo seus mais ardentes apoiadores dizem que seu carisma é pequeno.

Ele ficou longe do público por duas décadas, arquiteto com jeito suave que ama ficar em casa e ver filmes, Mousavi foi obscurecido por sua mulher, a professora e artista Zahra Rahnavard, por muitos anos. Ainda assim, muitos o descrevem como uma figura resoluta cuja experiência como primeiro-ministro do Irã nos anos 80 o ensinou a não ter medo de tomar decisões arriscadas.

"Ele era artista, professor universitário sem experiência política, mas conseguiu lidar com condições difíceis e liderar um país de 35 milhões de pessoas através de tentativas e erros", disse Muhammad Atrianfar, que serviu como seu ministro do Interior e depois se tornou jornalista. "Seu maior lucro foi a auto-confiança que ele ganhou com aquilo".

Como primeiro-ministro, ele geralmente tinha confrontos com Khamenei, que era presidente na época. As disputas giravam em torno de questões econômicas (Mousavi favorecia maior controle do Estado sobre a economia daquele período de guerra e Khamenei pedia menor regulação). O presidente era mais moderado em algumas questões e, ao contrário de Moussavi, algumas vezes era rechaçado pelo então líder supremo Khomeini. Neste ponto eles mudaram de posição, ainda que o clima persista ( veja quem é quem na política iraniana ).

Depois de deixar o cargo em 1989, Mousavi se manteve envolvido na política, servindo no Conselho Expedicionário do Irã. Mas a maior parte de seu tempo foi dedicada a arquitetura e pintura. Suas principais influências incluem o arquiteto italiano Renzo Piano, afirmou seu parente.

"Ele usa alguns elementos da arquitetura japonesa moderna e americana pós-moderna e as coloca em contexto na arquitetura iraniana", ele disse.

Família liberal

Apesar de ser profundamente religioso, Mousavi parece ter opiniões sociais relativamente liberais. Sua mulher é uma conhecida professora de ciências sociais que fez campanha a seu lado, chegando a fazer discursos e conceder coletivas de imprensa por si mesma.

Quando eram mais jovens, ele muitas vezes era apresentado como "o marido de Zahra Rahnavard". Sua mulher prometeu que se ele for eleito irá avançar os direitos das mulheres e indicar "pelo menos duas ou três" para o gabinete.

Sua filha mais velha é física nuclear. A mais jovem prefere não usar o chador islâmico e seus pais não se importam, conta o parente. "Nunca houve nenhuma obrigatoriedade nesta família", ele disse.

Nos últimos anos, Moussavi demonstrou profundo descrédito com os excessos da polícia moral e com a decisão do governo de fechar jornais, diz seu parente.

Ele decidiu concorrer à presidência no começo do ano para salvar o Irã do que chama de políticas "destrutivas" de Ahmadinejad. Mas apenas algumas semanas atrás o movimento  popular começou a apoiá-lo. Conforme a campanha caminhava para o fim, Mousavi começou a responder aos ataques do presidente com sua própria linguagem forte.

"Quando o presidente mente, ninguém o confronta", disse Mousavi durante seu último debate. "Eu sou revolucionário e estou falando contra a situação que ele criou. Ele encheu o país de mentiras e hipocrisia. Eu não tenho medo de falar. Lembrem-se disso."

Durante muito tempo, Moussavi foi comparado desfavoravelmente a Mohammad Khatami, o carismático clérigo reformista que foi presidente entre 1997 e 2005. Mas muitos agora dizem que durante protestos recentes, Mousavi se manteve firme contra o governo de forma que Khatami nunca teria feito.

"Ele não é tão aberto quanto Khatami", disse o analista político Nasser Hadian. "Mas é um homem de muito mais ação".

- ROBERT F. WORTH

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