Operação tenta salvar Babilônia das ruínas

Depois de anos de negligência e violência, autoridades se voltam a tesouro da humanidade no Iraque, que data do século 5 a.C.

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Os danos causados às ruínas da antiga Babilônia são visíveis de um pequeno morro perto da Torre de Babel, cuja importância bíblica é difícil de imaginar pelo que resta dela hoje.

No horizonte estão torres de guarda e arame farpado entre as palmeiras, cercando fazendas e casas de concreto desta e de outras aldeias. E também o enorme palácio que Saddam Hussein construiu na década de 80 no topo da cidade que foi governada por Nabucodonosor 2.

Outra coisa também é visível: montes de barro que escondem tudo o que ainda está para ser descoberto em uma cidade que o profeta Jeremias chamava de “uma taça de ouro nas mãos do Senhor, uma taça que deixou toda a Terra embriagada".

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Helicóptero sobrevoa reconstrução de 1950 da Porta Ishtar, na Babilônia
Na encosta, durante uma de suas muitas visitas às ruínas, Jeff Allen, um preservacionista do Fundo Mundial de Monumentos, disse: "Tudo isso não foi escavado. Há um grande potencial neste local. Você pode escavar o mapa das ruas de toda a cidade".

Isso certamente levará anos para acontecer, dada a realidade do Iraque hoje. Mas, pela primeira vez desde a invasão dos Estados Unidos em 2003, após anos de negligência e violência, os arqueólogos e os preservacionistas mais uma vez começam a trabalhar para proteger e até mesmo restaurar partes da Babilônia e outras ruínas antigas da Mesopotâmia. E há novos sítios sendo escavados pela primeira vez, na sua maioria em segredo para evitar atrair a atenção dos saqueadores que continuam a ser um flagelo local.

O Fundo Mundial de Monumentos, trabalhando com o Conselho de Antiguidades e Patrimônio do Estado do Iraque, elaborou um plano de conservação para combater um eventual agravamento da situação das ruínas de tijolos de barro da Babilônia e reverter alguns dos efeitos do tempo e das recriações da era de Saddam.

Em novembro, o Departamento de Estado anunciou uma doação de US$ 2 milhões para começar a preservar as mais impressionantes ruínas do local. Entre elas estão a fundação da Porta de Ishtar, construída no século 5 a.C. pelo pai de Nabucodonosor, Nabopolassar, e adornada com relevos dos deuses da Babilônia, Marduk e Adad, nos tijolos. (A famosa porta de vidro azul encomendado por Nabucodonosor foi escavada no início do século 20 e reconstruída no Museu Pergamon, em Berlim.)

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Portal recontruído em 1950, depois de anos de desgaste e negligência
O objetivo é preparar o local e outras ruínas – de Ur, no sul, a Nimrud, no norte – para o que as autoridades esperam um dia transformar em um fluxo contínuo de cientistas, estudiosos e turistas que possam contribuir para a recuperação econômica do Iraque, quase tanto quanto o petróleo.

O Projeto Babilônia é o maior e mais ambicioso do Iraque até o momento, um reflexo da fama da antiga cidade e sua ressonância na herança política e cultural do país moderno. "Este é um dos grandes projetos que temos e é apenas o primeiro", Qais Hussein Rashid, diretor do Conselho Estadual de Antiguidades e Patrimônio, disse em uma entrevista em Bagdá. "Queremos tê-lo como um modelo para todos os outros sítios".

Desafios

No entanto, a tarefa é difícil e as ameaças ao sítio são abundantes. No caso de algumas das reconstruções da era de Hussein, elas são irreversíveis. A invasão dos Estados Unidos e a carnificina que se seguiu interromperam os trabalhos arqueológicos e de conservação em todo o país, deixando as ruínas abandonadas ou, no caso de saques, muito piores.

Os militares americanos transformaram a Babilônia em uma base. Mais tarde, ela foi ocupada por tropas polonesas e, apesar de ter sido devolvida ao controle do Conselho Estadual de Antiguidades e Patrimônio em 2004, os detritos de uma presença militar ainda são vistos como cicatrizes no local.

O Fundo Mundial de Monumentos vem realizando algo como triagens arqueológicas desde que começou seu plano de conservação em 2009. Ele criou programas de computador que registram precisamente os prejuízos nas ruínas e identificam as ameaças mais perniciosas, começando com a erosão causada por águas salgadas. "O que temos de fazer é criar um ambiente estável", disse Allen em novembro. "Como está agora, o sítio está se desintegrando rapidamente".

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Imagem retrata Marduk, deus da Babilônia, da época de Nabopolassar
A absorção de água subterrânea pelos tijolos de lama, agravada pela colocação de uma passarela moderna de concreto e as escavações realizadas pelo arqueólogo alemão Robert Koldewey mais de um século atrás, já corroeram algumas das paredes de 2.500 anos na base da Porta de Ishtar.

"Eles cuidaram da Porta de Ishtar apenas por dentro, porque ali eram recebidas as visitas de líderes internacionais", disse Mahmoud Bendakir, um arquiteto que está trabalhando com o fundo, referindo-se aos responsáveis pelo sítio durante a era Hussein. "A parte externa está um desastre".

Ajuda de fora

A ajuda dos Estados Unidos vai pagar por reparos para canalizar a água para longe da fundação do portão, que fica vários metros abaixo da área circundante. Reparos semelhantes estão programados para dois dos templos da Babilônia, Ninmakh e Nabu-sha-Khare, as ruínas mais completas do local, embora também sofram com a erosão e restaurações prejudiciais com tijolos modernos.

"É difícil dizer o que está sendo pior, mas o conjunto é quase tóxico para a preservação de monumentos", disse Allen.

A equipe americana de reconstrução reformou um moderno museu no local, bem como um modelo da Porta de Ishtar, que durante décadas serviu de entrada para visitantes. Dentro do museu estão algumas das relíquias mais valiosas do sítio: leões de tijolo de vidro, alguns dos 120 que antes se alinhavam no caminho processional de entrada na cidade.

O museu, com três galerias, está previsto para reabrir este mês, recebendo seus visitantes pela primeira vez desde 2003. E com a nova segurança instalada, negociações estão em curso para retornar antigos artefatos babilônios do Museu Nacional de Bagdá.

O destino da Babilônia já está sendo contestado por líderes iraquianos, com oficiais de antiguidades em choque com as autoridades locais sobre quando abrir o local para os visitantes e como explorar o  turismo que, na sua maior parte, continua a ser um objetivo e não uma realidade. Mesmo agora eles estão se chocando sobre o destino do valor dos ingressos: o conselho de antiguidades ou o governo provincial.

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Visitantes caminham na entrada que leva ao sul do palácio restaurado por Saddam Hussein na Babilônia
Outra das ameaças mais terríveis para o sítio são as construções sem controle dentro dos limites da antiga muralha da cidade, abrangendo cerca de sete quilômetros quadrados. O projeto do fundo criou lotes nas paredes antigas em um mapa, causando temor entre os iraquianos que vivem no local agora.

Eles temem que a preservação das ruínas da Babilônia irá tirá-los de suas casas e terras, como quando Saddam expulsou os moradores de uma vila local para construir seu palácio. "Levaram-nos de suas terras", disse Minshed Al-Mamuri, que dirige uma organização cívica de viúvas e órfãos aqui. "É algo psicológico para eles".

Allen, que supervisiona o trabalho do Fundo, disse que a preservação da Babilônia exigiria a colaboração entre círculos eleitorais concorrentes, algo que é extremamente raro em meio à instabilidade política do Iraque.

"Estamos olhando não apenas a arqueologia", disse ele sobre o projeto. "Nós estamos olhando para as oportunidades econômicas e de viabilidade para a população local. Eles precisam ver algo sobre este sítio. Isso é possível, e é possível ao mesmo tempo preservar a integridade do sítio".

*Por Steven Lee Myers

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