ONU enfrenta inúmeras dificuldades em suas missões de paz

NAÇÕES UNIDAS ¿ Mais de uma década após os agentes da paz da ONU fracassarem em evitar os massacres em Ruanda, na África, ou em Srebrenica, na Bósnia, o que muitos consideram ser o ponto forte da organização parece estar caminhando para uma crise mais uma vez, de acordo com diplomatas e outros especialistas.

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Agente de paz indiano no Congo, onde os massacres continuam


De acordo com eles, a causa mais imediata é o aumento dramático no número de compromissos que os agentes da paz têm ao redor do mundo e o tipo de missão desagradável que inclui inúmeras obrigações desde construir nações até tarefas tradicionais como tentativas de manter os inimigos distantes.

As novas demandas apareceram em um tempo em que membros dos Estados com armas avançadas, particularmente, se tornaram mais contidos em se comprometer com o fornecimento de tropas adicionais ou mesmo equipamentos necessários, como helicópteros.

Esses desafios foram apenas adicionados ao um problema mais profundo e duradouro: a constante falta de esclarecimento sobre como as Nações Unidas deveria intervir quando seus membros têm a falta de forças militares ou de boa vontade política ¿ ou ambos ¿ para acabar com a matança.

O processo de manter a paz está sendo prensado contra a parede, disse Bruce Jones, diretor do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York. O centro está trabalhando com as Nações Unidas na luta pela reforma. Há uma sensação no sistema de que isso é uma bagunça ¿ sobrecarregada, sem financiamento e muito pressionada.

Entre os fracassos mais perceptíveis nos últimos meses estão: a inabilidade das tropas no Congo e em Darfur para parar a violência que está matando civis, a dificuldade em encontrar tropas suficientes para ambas as missões e a má vontade de qualquer nação em liderar uma possível missão na Somália.

Falta de recursos

Em dezembro no Congo, um contingente de 100 agentes da paz que estavam a menos de 1,5 km distante não interveio em um massacre rebelde que, de acordo com investigadores de direitos humanos, mataram 150 pessoas; os agentes relataram que estavam com poucos equipamentos, homens e que faltava capacidade de Inteligência para descobrir o que estava acontecendo na cidade.

Em algumas zonas de conflito, os agentes não possuem tecnologia para realizar nem mesmo tarefas básicas como traçar os movimentos dos grupos armados para mantê-los longes um do outro.

Os problemas estimularam diversos líderes dos esforços de paz das Nações Unidas a embarcarem em uma nova onda de estudos sobre como garantir que os agentes possam cumprir suas missões, por meio de esforços que durem vários meses a fim de evitar soluções rápidas que deixem o verdadeiro problema para o futuro.

Mas alguns especialistas dizem que o mais importante a ser consertado é também o mais difícil. De acordo com eles, o Conselho de Segurança precisa evitar o envio de missões para países onde não há realmente uma chance de manter a paz.

Fracassos e dificuldades

A diferença entre dois mandatos de paz, um escrito em 1974 e o outro que começou a valer há 14 meses, envolve um longo caminho para explicar as dificuldades que as tropas da ONU enfrentam no momento.

O mandato que estabeleceu o Exército da ONU na fronteira entre a Síria e Israel há quase 35 anos não é muito extenso ¿ ele basicamente direciona as tropas para monitorar o cessar-fogo. Desde então, as cenas mais sangrentas testemunhadas pelos soldados de capacetes azuis se desenvolveram um pouco mais do que os binóculos, que na maioria das vezes só veem vacas pastando e que de repente explodem por causa de terras minadas.

A missão de 2007 estabelecendo que as forças de paz da ONU para Darfur tinham mais que duas páginas e detalhava uma pilha de tarefas. Elas incluíam a proteção de civis, o direcionamento de um processo político inclusivo, a promoção do desenvolvimento econômico e dos direitos humanos e o monitoramento da fronteira com os Estados vizinhos.

Antes vocês estavam lá mais como um símbolo importante do que uma força ativa, disse Nicholas Haysom, diretor de assuntos políticos, humanitários e manutenção da paz.

O alvo e o número de missões expandiram, em boa parte, para tentar evitar os fracassos do passado. Após mandar cinco missões consecutivas para o Haiti, onde a violência irrompeu novamente depois que partiram, as Nações Unidas decidiram que os agentes da paz deveriam garantir que os países estivessem economicamente estáveis para partirem.

Novas medidas

E depois dos massacres de Ruanda e da Bósnia, as Nações Unidas acrescentaram a proteção aos civis como uma prioridade todas as missões. Mas muitos sentem que a manutenção da paz se tornou uma panacéia, com o posicionamento estratégico das forças da ONU consideraram uma prova de que o Conselho de Segurança está prestando atenção em uma crise: se as tropas estão sendo eficientes ou não. O conselho tem uma tendência em apenas ficar estendendo missões uma vez que elas são aprovadas.

Como resultado, o número do pessoal aumentou de 40 mil em 2000 para 113 mil soldados, oficiais de polícia e civis que se inscreveram para 18 missões. Somente nos últimos meses, o Conselho de Segurança fez uma votação para pegar o comando desenvolvido em Chad, para aumentar o exército no oeste do Congo e para contemplar o desenvolvimento de uma nova força na Somália.

O orçamento para a manutenção da paz aumentou para US$ 8 bilhões e os Estados Unidos pagam cerca de 27% desse orçamento. A embaixadora Susan E. Rice sugeriu que a administração de Obama buscasse mudanças nas missões de paz, mas ela ainda deve defini-las.

Ao menos três diferentes esforços começaram recentemente com o sistema da ONU a fim de encontrar formas de simplificar e desenvolver a manutenção da paz, incluindo uma referente ao próprio Conselho de Segurança.

Mudanças necessárias

Especialistas das Nações Unidas e externos a ela dizem que duas mudanças são essenciais. As forças precisam treinar especificamente para cada aspecto das missões expandidas ¿ como intervir para acabar com a epidemia de estupro no Congo, por exemplo.

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Agentes de paz nigerianos em uma patrulha noturna em Darfur, no Sudão

Mas, de acordo com os especialistas, a mudança mais crítica seria se a ONU confrontasse a ideia de mandar forças para zonas de batalhas em ação, incluindo aquelas onde poderia ser necessário enfrentar o governo nacional.

Eles não podem começar uma guerra contra o governo de um país como uma campanha sudanesa bem organizada, disse o major general Patrick C. Cammaert, marinheiro holandês com longa experiência nas operações de paz da ONU. Isso vai além da proteção de civis, está em uma magnitude com a qual a missão da ONU não pode lidar. É uma questão política sobre a qual o Conselho de Segurança tem que decidir antes de lançar a missão.

E o major general B. T. Obasa, militar adido na Missão da ONU na Nigéria, que movimenta 4 mil soldados em Darfur, expressou frustração porque os países que contribuem com tropas não são mais consultados.

Nossa missão no Sudão era manter a paz e não estabelecê-la por meio da força, que é o que estamos fazendo agora, disse. Quando a ONU vai a qualquer país, deveria saber e ter certeza do que fará no local, quais as exigências e quanto tempo ficará.


Por NEIL MacFARQUHAR

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