Onde pesquisas e turismo batem de frente

GOTHIC, Colorado ¿ Quando Michael Soule pesquisava borboletas nesse vale no começo dos anos de 1960, a cidade próxima a Crested Butte era pouco mais que um assentamento de minas de carvão. ¿Você nem podia comprar uma caneca ou uma camiseta¿, disse Soule, hoje biólogo conservacionista.

The New York Times |

Crested Butte, renascida como a meca para os esportes de esqui e mountain-bike, hoje tem fileiras de lojas e restaurantes, e fácil acesso à montanha. No Laboratório Biológico de Rocky Mountain, onde Soule e gerações de outros pesquisadores estudaram o habitat dos alpes remotos, o crescimento está mudando a paisagem e os dados que eles coletam. O laboratório, como muitos outros locais que realizam pesquisas biológicas, vem tentando decidir se estuda essas mudanças ou luta contra elas.

Fundado em 1928 no lugar de uma cidade de minas de prata abandonada, o laboratório independente atrai estudantes e cientistas de várias partes do mundo. Trabalhando atrás de um remanescente pico de 3.800 metros de uma catedral gótica, pesquisadores coletaram décadas de dados sobre insetos, salamandras, marmotas e o calendário de florescimento das plantas alpinas.

Todo o laboratório trabalha de uma forma ou de outra em experimentos essencialmente de longo prazo, disse Paul Ehrlich, da Universidade de Stanford, que estuda populações de borboletas no laboratório desde 1960. O aquecimento global aumentou o interesse científico nesses conjuntos de dados, revelando mudanças induzidas pelo clima que não podem ser vistas em estudos de curto prazo.

Como o turismo continua em Crested Butte, os visitantes chegam em grande quantidade ao vale íngreme que o laboratório chama de lar. A estrada estreita e suja entre a área de esqui e o terreno do laboratório leva a trilhas de mountain-bike e áreas de camping, e geralmente está cheia de carros, bicicletas e veículos off-road.

O tráfego diário através do laboratório pode ultrapassar 750 veículos ¿ irrisório para padrões urbanos, mas uma mudança notável para esse vale antes isolado, onde filas de carros emitem contínuas nuvens de poeira.

Os pesquisadores acreditam que o tumulto próximo à estrada faz com que até os comuns pardais brancos possam abandonar seus ninhos. A multidão crescente também prejudica a pesquisa: apesar das sinalizações, ciclistas e hikers retiram bandeiras e estacas demarcando áreas de pesquisa, e cachorros sem coleira pulam em experimentos de campo. A poeira da estrada às vezes é tão pesada que os pesquisadores têm dificuldade de observar a vida selvagem de longe, e o tráfego acelerado mata pássaros e mamíferos individuais que eram objeto de longos estudos.

Apesar de as marmotas serem extremamente desenvolvidas para lidar com predadores, elas não estão aptas para lidar com carros, disse Daniel T. Blumstein, biólogo da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Em uma manhã durante um fim de semana do começo de julho, a equipe de campo de Blumstein coletou uma marmota que havia morrido momentos antes; suas etiquetas de orelha a identificaram como membro de um estudo de 46 anos do laboratório sobre o comportamento das marmotas. Como esses roedores vivem por até 15 anos, um único animal pode representar dados armazenados de enorme valor. Cada fêmea fértil é de um valor incalculável, ele disse.

Há pouco tempo, ele acrescentou, uma marmota etiquetada subiu em um carro estacionado próximo ao laboratório e apareceu em um posto de gasolina no subúrbio de Aurora, em Denver, a 402 km de distância ¿ um exemplo extremo do que ele chamou de dispersão por carro de marmotas dentro e fora da área de laboratório.

Mesmo com os cientistas realizando novos esforços de pesquisas de longo prazo, como a National Ecological Observatory Network para documentar os efeitos da mudança climática e outros fenômenos globais, muitas áreas de pesquisa antigas enfrentam cada vez mais pressão devido ao crescimento e ao desenvolvimento.

Os lugares onde realizamos trabalhos fundamentais ¿ onde hoje temos uma base, onde podemos voltar e fazer algo dez vezes mais interessante porque temos uma nova tecnologia e uma nova visão ¿ a muitos desses lugares não podemos voltar porque eles se foram, disse Julio Betancourt, paleoecologista do U.S. Geological Survey. Isso está acontecendo com uma freqüência cada vez maior.

Betancourt passou grande parte de sua carreira no Desert Laboratory, uma reserva de pesquisas botânicas de 105 anos de idade nos arredores de Tucson. O laboratório, antes rodeado pelo deserto, hoje faz fronteira com o desenvolvimento, não só com entusiastas das caminhadas, mas também um pasto invasivo e sujeito a incêndios.

Apesar da tradição do laboratório de observação passiva, ele estabeleceu horas limitadas para visitantes e combateu as ervas daninhas com herbicidas.

Algumas áreas da Long-Term Ecological Research Network, um sistema de 26 áreas financiadas pela National Science Foundation, têm tido uma abordagem ativa similar em relação à civilização intrusa, trabalhando para preservar as áreas ao redor, controlar os visitantes e erradicar espécies invasoras. A maioria deles, no entanto, tem pouca escolha além de transformar as incursões em oportunidades de pesquisa.

Na Palmer Station na Antártica, William R. Fraser passou mais de 30 anos estudando os efeitos do turismo sobre a população de pingüins-de-adélia, concluindo que regulamentações severas sobre o tráfego de turistas até hoje têm tido sucesso na proteção de pingüins na estação.

No centro do Novo México, um grande rancho que faz fronteira com uma área de pesquisa muito antiga, baseado no Sevilleta National Wildlife Refuge, foi recentemente vendido a uma construtora residencial. Antes estávamos praticamente isolados e agora, cada vez que vamos para lá, vemos escavadoras construindo estradas e colocando hidrantes, disse Scott Collins, principal pesquisador da área. Está completamente fora de controle.

Enquanto alguns cientistas do Laboratório Biológico Rocky Mountain estudam as conseqüências do turismo, o laboratório como um todo está usando sua influência para gerenciar e minimizar o impacto das multidões. Acho que se esta é uma área que, se não amamos do fundo do coração, de onde podemos tirar vantagem do capital intelectual que está acumulado com o tempo, mudanças serão inevitáveis, disse Ian Billick, diretor do laboratório.

O país começou a tratar parte da estrada com cloreto de magnésio, o que reduz a poeira, mas também incentiva os carros a acelerarem mais. O laboratório, junto com a cidade de Crested Butte, oferece um serviço de transporte gratuito duas vezes ao dia para o vale.

Billick e outros membros da equipe do laboratório estão trabalhando com funcionários da cidade e do condado, representantes da área de esqui e outras pessoas com relação a novas regulamentações para a estrada, discutindo opções como horário de encerramento, aumento do transporte obrigatório ou voluntário de ônibus e um sistema de autorização para carros particulares. Um exemplo às vezes citado é a estrada que leva ao popular Maroon Bells-Snowmass Wilderness, perto de Aspen, Colorado, onde um serviço de ônibus público substitui os carros particulares durante o verão.

Apesar de agentes locais oferecerem amplo apoio ao transporte público na estrada do laboratório, os detalhes são controversos, já que quaisquer regras terão que atender as necessidades de caminhantes, ciclistas, equitadores e os próprios cientistas. No oeste rural, onde muitas pessoas prezam a liberdade de ir a qualquer lugar a qualquer hora, a ciência pode se ver em maus lençóis com a sociedade local. 

Estima-se que o número de visitantes do vale vá crescer. A área de esqui de Crested Butte, que está propondo expandir seu terreno, planeja a construção de 1.100 novas unidades residenciais na extremidade norte de sua propriedade, mais perto do laboratório, e de 450 a 500 unidades de condomínios e hotéis na base da montanha.

Apesar de a área de montanha ao redor do laboratório ser pública em sua maior parte e controlada pelo Serviço Florestal dos Estados Unidos, ela está repleta de minas, cerca de 6.000 acres, e as propriedades particulares possivelmente terão seu valor aumentado com o desenvolvimento da região. A Trust for Public Land, junto com uma organização local de custódia de terras, o laboratório e outros grupos, até agora comprou ou conservou mais de 1.600 acres dessas propriedades.

A maioria dos pesquisadores do laboratório está relutante em se tornarem estudantes da perturbação. Podemos documentar a destruição desse vale, mas para os cientistas isso é um tipo de problema trivial e monótono, disse John Harte, da Universidade da Califórnia, que estudou os efeitos ecológicos do aquecimento das temperaturas perto do laboratório pelos últimos 18 anos. A boa ciência é poder estudar o comportamento de plantas e animais e suas interações com o clima e outros fatores, durante um longo período de tempo.

Johannes Foufopoulos, ecologista do laboratório e professor da Universidade de Michigan, acrescentou: Há lugares para se estudar interferências ecológicas e há lugares para se tentar estudar ecossistemas intactos. Se eu quiser estudar interferências ecológicas, posso fazer isso nos arredores de Detroit.

Por MICHELLE NIJHUIS

Leia mais sobre ciência - turismo

    Leia tudo sobre: ciênciaturismo

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG