Onda de crimes no Egito deixa todos com medo, até mesmo a polícia

Três meses após de saída de Hosni Mubarak do poder, onda de violência que toma conta do país ameaça transição para democracia

The New York Times |

Os vizinhos assistiram impotentes, atrás de portas fechadas, a uma troca de tiros na delegacia local. Em seguida, cerca de 80 prisioneiros deixaram o local – alguns vestindo apenas roupas íntimas, muitos empunhando armas, facões e até mesmo extintores de incêndio – enquanto a polícia fugia.

"A polícia tem medo", disse Mohamed Ismail, 30 anos, uma testemunha. "Eu estou com medo de deixar o meu bairro”.

Três meses após a derrubada de Hosni Mubarak, uma onda de crimes tem tomado conta do Egito pós-revolucionário e representa uma séria ameaça à sua prometida transição para a democracia. Empresários, políticos e ativistas de direitos humanos dizem temer que a desordem – que vai desde conflitos sectários a brigas em estádios de futebol – está prejudicando a recuperação econômica desesperadamente necessária, ou pior, convidando uma nova repressão autoritária.

AFP
Em protesto na praça Tahrir, no Cairo, egípcios pedem unidade nacional depois de violentos choques entre cristãos e muçulmanos deixarem 12 mortos
Pelo menos cinco tentativas de fuga foram relatadas em prisões do Cairo nos últimos dois meses, três delas com sucesso. Outras tentativas semelhantes ocorrem "todos os dias", disse um oficial de alto escalão do Ministério do Interior, falando sob condição de anonimato por não estar autorizado a falar publicamente.

E os jornais estão cheios de outros episódios escabrosos: a revolta entre muçulmanos e cristãos que se alastrou na semana passada diante da polícia, deixando 12 mortos e duas igrejas em chamas; um sequestro com pedido de resgate de uma sobrinha do falecido presidente Anwar Sadat; torcedores de futebol que invadiram um campo e atacaram uma equipe adversária quando a polícia desapareceu; um ataque da máfia no bairro nobre de Maadi, que levou um oficial de polícia de trânsito para o hospital; e o rapto de um outro oficial por tribos de beduínos no Sinai.

"As coisas estão realmente indo de mal a pior", disse Mohamed ElBaradei, antigo oficial internacional de energia atômica, que é candidato presidencial. "Onde foram parar a polícia e o Exército?"

Polícia

A resposta, em parte, é o legado da revolução: a fúria pública contra os abusos policiais ajudaram a desencadear os protestos, que destruíram muitos postos de polícia. Agora os policiais que conheciam apenas arrogância e brutalidade são humilhados e desmoralizados.

Em um esforço para restaurar a confiança depois dos distúrbios sectários da semana passada, o conselho militar que rege o país até as eleições previstas para setembro anunciou que 190 pessoas envolvidas serão levadas a tribunal militar, alarmando uma coalizão de defensores dos direitos humanos.

O primeiro-ministro Essam Sharaf saiu de uma reunião de emergência do gabinete reiterando a promessa que tinha feito antes dos protestos: a de que o governo apoia a polícia para que use todos os procedimentos legais, "incluindo o uso da força", para defenderem a si mesmos, a suas delegacias ou locais de culto”.

Foi uma afirmação extraordinária de um primeiro-ministro, em parte porque a polícia já deveria fazer exatamente isso. "Essa pode ser a primeira vez que um governo já teve de dizer que apoia plenamente a polícia", disse Bahey Hassan El-Din, diretor do Instituto do Cairo para Estudos de Direitos Humanos. "É uma indicação da gravidade do problema".

Terrorismo

Muitos egípcios, incluindo pelo menos um ex-policial, alegam que a polícia egípcia aprendeu apenas uma forma de combater o crime: aterrorizar os suspeitos.

Agora os policiais veem seu antigo líder, o ministro do Interior Habib el-Adly, servindo uma sentença de 12 anos de prisão por corrupção e outro julgamento por acusações de assassinato ilegal. Dezenas de policiais estão na cadeia por seu papel na repressão aos protestos.

"Eles eram arrogantes e tratavam as pessoas como pragas, por isso imaginem quando essas pragas agora se levantam, os desafiam e humilham", disse Mahmoud Qutri, um ex-policial egípcio que escreveu um livro criticando a força. "Eles se sentem discriminados".

Hassan, que passou sua carreira criticando a polícia, disse que simpatiza com a sua situação. Os policiais que lutaram para defender os seus postos de manifestantes estão na prisão, enquanto aqueles que foram para casa dormir não enfrentam qualquer julgamento”.

"Então, a polícia pergunta: ‘O que é esperado de nós?’. É uma questão muito lógica e o problema é que eles não têm uma resposta", disse ele, culpando autoridades superiores.

Abusos

Lojistas dizem que a polícia costumava entrar com arrogância em suas lojas exigindo sem rodeios produtos pela metade do preço. Agora, disse Ismail, a testemunha da fuga de presos na delegacia, os policiais que entram em sua loja de celulares murmuram "por favor" e colocam o valor total do produto em cima do balcão. "As coisas mudaram", disse ele.

A mudança na atitude do público é igualmente impressionante, disse Hisham A. Fahmy, presidente-executivo da Câmara de Comércio Americana no Egito. "Agora eles dizem: ‘Fale direito comigo! Eu sou um cidadão!’

O aumento da criminalidade é um notável contraste com a vida sob o estado policial de Mubarak, quando a criminalidade violenta era uma raridade e poucos temiam andar sozinhos à noite. "Agora é como Nova York", disse Fahmy, acrescentando que seu grupo, que advoga para empresas internacionais, tem pedido que os líderes militares respondam mais vigorosamente.

Em uma recente partida de futebol entre um time do Cairo e outro da Tunísia, um cordão de policiais cercou o campo até que o árbitro marcou uma falta contra o goleiro egípcio. Em seguida, os policiais pareceram desaparecer quando uma multidão de torcedores agrediu o árbitro e a equipa visitante. Cinco jogadores ficaram feridos, dois dos quais foram hospitalizados, e o árbitro fugiu.

"Quando a violência começou, a polícia simplesmente desapareceu", disse Mourad Teyeb, um jornalista tunisiano que cobria o jogo. O policial que encontrou lhe disse: "Eu não me importo, eu não assumo qualquer responsabilidade", disse Teyeb, acrescentando que ele temeu por sua vida até que encontrou refúgio no vestiário do time egípcio.

Alguns enxergam uma conspiração reacionária. "Eu acho que é deliberado", disse Shady al-Harb Ghazaly, outro organizador dos protestos da Praça Tahrir, alegando que os oficiais estão abrindo espaço ao caos e à repressão. "Eu acho que existem cérebros maiores em funcionamento”.

Oficiais do Ministério do Interior, falando sob condição de anonimato por não estarem autorizados a discutir a situação de segurança, disseram que a destruição de delegacias durante a revolução contribuiu para a desordem. As delegacias restantes estão superlotadas, com presos de outros locais. Dos 80 presos que fugiram de Shobra, 60 foram recapturados, afirmou um oficial.

O ministro do Interior Mansour el-Essawy disse que a situação é uma herança inevitável da revolução. Dos 24 mil presos que escaparam durante a revolução, 8,4 mil ainda estão foragidos e 6,6 mil armas roubadas de arsenais do governo não foram recuperadas, disse El-Essawy em uma entrevista recente ao jornal egípcio Al-Masry Al Youm.

Depois da revolução, ele disse, a polícia justificadamente se queixou de turnos de 16 horas por baixos salários. O suborno costumava compensar o baixo salário, dizem os críticos. Assim, o ministério diminuiu as horas de trabalho dos policiais e, como resultado, também reduziu o número de policiais de plantão a qualquer momento. E a súbita perda de prestígio tornou ainda mais difícil o recrutamento de novos agentes. "As pessoas não querem fazer parte da polícia", ele se queixou.

*Por David D. Kirkpatrick

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