Olho celeste do Vaticano busca informações e não anjos

MOUNT GRAHAM, Arizona ¿ O ¿Requiem¿ de Fauré é ouvido ao fundo, seguido pelo Quarteto Kronos. Eventualmente a música é interrompida por um arranjo eletromagnético (como um solo de clarineta no jazz) conforme os motores que guiam o telescópio sobem e descem. Uma noite de observação da galáxia está prestes a começar no observatório do Vaticano no Monte Graham.

The New York Times |

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Imagem do telescópio do Vaticano mostra galáxia a 102 milhões de anos-luz da Terra
Imagem do telescópio do Vaticano mostra
galáxia a 102 milhões de anos-luz da Terra
Está tudo bem, ele está feliz", diz Christopher J. Corbally, o padre jesuíta que é vice-diretor do Grupo de Pesquisa do Observatório Vaticano, ao se sentar diante dos controles para fazer alguns ajustes. A ideia não é procurar por almas ou anjos, mas realizar a espécie de astronomia que contraria a percepção de que a ciência e o catolicismo precisam necessariamente entrar em conflito.

No ano passado, em um discurso aberto em uma conferência em Roma, intitulada Ciência 400 Anos Depois de Galileo Galilei, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, elogiou o antigo antagonista da Igreja como "um homem de fé que via a natureza como um livro escrito por Deus". Em maio, como parte do Ano Internacional da Astronomia, um centro de cultura jesuíta em Florência conduziu "uma re-examinação histórica, filosófica e teológica" da questão Galileo. Mas na tentativa de reabilitar a imagem da igreja, nada parece maior do que um estudo do astrônomo publicado no Jornal de Astrofísica ou no Mensal de Notícias da Sociedade Astronômica Real.

Nesta clara noite de primavera, o foco não é a teologia mas uma longa lista de tarefas mundanas necessárias para dar vida ao telescópio. Conforme rastreia o céu, o enorme instrumento gira em torno de um anel a base de óleo pressurizado. As bombas precisam ser ativadas, as correias verificadas, os computadores reiniciados. O sensor eletrônico do telescópio, parecido como o de uma câmera digital, precisa ser resfriado com nitrogênio líquido para manter o megapixels estáveis diante do barulho quântico.

Conforme Dr. Corbally corre de um lado para o outro ligando botões, ele parece menos com um padre ou mesmo com um astrônomo do que com um engenheiro de manutenção. Finalmente está tudo pronto, as estrelas apreendidas por espelhos de dois metros de altura, que são reconstituídas nas telas de vídeo.

Hoje em dia a observação depende muito das telas de computadores", disse Dr. Corbally. As pessoas dizem: 'deve ser tão bonito observar o céu'. E eu respondo: 'é como assistir TV'".

De calça jeans e camisa, ele não é o tipo de homem que anuncia sua religião. Nenhuma benção é feita antes do rápido jantar na cozinha do observatório. Na verdade, o único sinal de que o Telescópio de Alta Tecnologia do Vaticano é diferente dos outros no Monte Graham, onde fica um complexo astronômico operado pela Universidade do Arizona, é a placa dedicatória ao lado da porta.

Esta nova torre para o estudo das estrelas foi erguida neste lugar pacífico. Que quem a use de dia ou de noite em busca do longínquo espaço possa fazê-lo com a ajuda de Deus", lê-se em latim. A partir dali a religião acaba e a ciência entra em ação.

O interesse da Igreja Católica Romana nas estrelas começou por preocupações práticas no século 16 quando o Papa Gregório 13 usou a astronomia para explicar que o calendário juliano estava fora de sintonia com os céus. Em 1789, o Vaticano abriu um observatório na Torre dos Ventos, que depois foi realocado para um monte atrás do Domo de São Pedro. Nos anos 1930, astrônomos da igreja se mudaram para Castel Gandolfo, a residência de verão do Papa. Conforme a eletricidade chegou à Roma, a igreja procurou um lugar remoto no escuro Arizona.

A construção em Monte Graham foi difícil. Os apaches diziam que o observatório era uma afronta aos espíritos da montanha. Ambientalistas afirmavam que seria uma ameaça à uma espécie de esquilo vermelho. Houve protestos e sabotagem. Até 1995, três anos depois que o edital da Inquisição contra Galileo foi revogado, o novo telescópio do Vaticano fez sua primeira observação.

O alvo de hoje são três galáxias espiraladas que ficam a cerca de 60 milhões de anos luz da Terra, ao sul de Leão. Em uma mesa ao lado de Dr. Corbally está Aileen ODonoghue, astrônoma da Universidade de St. Lawrence em Canton, Nova York, que tem interesse em como essas massas gravitacionais fluem ao lado umas das outras criando uma espécie de maré estelar.

Na sala de controle ela explica que essas marés gravitacionais que estuda são empurradas por outras e suas nuvens de gás são movimentadas com tamanha violência que geram estrelas.

No relatório anual do Observatório do Vaticano, em algo que poderia ser descrito por uma companhia como uma estratégia de negócios, existe uma seção que diferencia a crianção ex nihilo (a partir do nada) da creatio continua: o fato de que a cada instante, a contínua existência do próprio universo é deliberadamente desejada por Deus, que desta forma continua a fazer com que o universo permaneça criado".

Os teólogos chamam isso de "causas primárias", aquelas que fluem a partir do catalizador do que não existe. Acima desta plataforma eterna está outra de "causas secundárias", que podem seguramente ser explicadas pela ciência.

Dr. Corbally e Dr. ODonoghue trabalharam por toda a noite, coletando dados sobre causas secundárias - marés galácticas, nascimentos estelares. O sono terá que esperar até a manhã e os pensamentos sobre as causas primárias ficarão para a próxima.

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