Oficial japonês ordenou envio de emails falsos, dizem investigadores

Mensagens tentavam manipular opinião pública em favor do religamento de reatores, inativos desde Fukushima

The New York Times |

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O governador da província de Saga solicitou a Kyushu Electric Power que enviasse emails em apoio ao religamento de dois reatores
Uma comissão independente de investigação concluiu na quinta-feira que a operadora de uma usina nuclear que tentou manipular a opinião pública por meio do envio de emails falsos estava agindo sob as instruções de um oficial de alto escalão do governo local, ampliando ainda mais um escândalo que tem dificultado os esforços do Japão em retomar o funcionamento de reatores nucleares parados após o desastre de Fukushima.

Os investigadores descobriram que o governador da província de Saga solicitou à operadora, a Kyushu Electric Power, que enviasse emails em apoio ao religamento de dois reatores da empresa localizados na Estação de Energia Nuclear Genkai. A empresa já admitiu ter pedido que funcionários enviassem emails como cidadãos comuns, durante uma reunião municipal online em junho sobre a possibilidade de permitir o reinício dos reatores.

Apesar da empresa ter admitido, o comitê não acusou o governador Yasushi Furukawa de ter solicitado o envio dos emails fingindo que vieram do público, mas somente de ter pedido o envio dos emails. Furukawa negou as acusações, dizendo que o vice-presidente da Kyushu Electric não entendeu seus comentários durante uma reunião privada no início de junho.

As deliberações de Furukawa sobre permitir a retomada das atividades na usina têm sido foco de atenção nacional, porque sua decisão pode influenciar outros líderes locais que enfrentam decisões semelhantes sobre como reiniciar os reatores de seus distritos. Caso neguem todos os pedidos para reiniciar os reatores, os líderes locais poderiam praticamente fechar a indústria japonesa de energia nuclear, que fornece quase um terço da capacidade de geração de energia elétrica da nação.

Atualmente, 43 dos 54 reatores do Japão estão ociosos, alguns por causa dos danos causados pelo terremoto e consequente tsunami do dia 11 de março, que paralisou a usina de Fukushima Daiichi. A maioria foi fechada para manutenção exigida legalmente – que devem ocorrer a cada 13 meses. Enfrentando uma reação popular contra a energia nuclear, o governo nacional está pedindo aos governadores locais e prefeitos que assinem a permissão antes de reiniciar os reatores danificados.

Se nenhum for reiniciado, o último reator em operação terá que ser desligado até abril.

Buscando acalmar os temores sobre a segurança dos reatores, o ex-premiê Naoto Kan começou uma série de testes para confirmar a capacidade dos reatores em resistir a terremotos de grande porte. Os testes, que também têm sido adotados pelo novo premiê, Yoshihiko Noda, devem ser concluídos até o final do ano.

No entanto, parecendo confirmar as suspeitas generalizadas de que o governo está trabalhando secretamente com a indústria para avançar a energia nuclear, apesar da crescente oposição da opinião pública, o escândalo sobre emails falsos pode tornar ainda mais difícil que os oficiais locais concedam a permissão para o religamento dos reatores.

Muitos japoneses culpam tais laços entre o governo e o setor privado pelo fracasso do em exigir defesas mais duras contra tsunamis na usina de Fukushima Daiichi, que foi danificada pelo terremoto e tsunami. O risco sísmico é uma das principais razões pelas quais a grande maioria dos japoneses agora quer eliminar progressivamente a energia nuclear do país, de acordo com pesquisas de opinião.

Em um esforço para acalmar a raiva da população, a Kyushu Electric criou a comissão de investigação, que foi dirigida por Nobuo Gohara, um conhecido ex-promotor do país. O comitê disse ter tirado suas conclusões depois que equipes de advogados entrevistaram 127 envolvidos, incluindo os principais executivos da empresa.

O escândalo já forçou a renúncia de um parlamentar local em Saga, que liderou um painel na assembleia provincial que também analisava a possibilidade de permitir o religamento dos reatores. O legislador Hobun Kihara admitiu ter recebido doações da Kyushu Electric.

* Por Martin Fackler

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