Oficial chinês elogia um tabu: a democracia

Integrante do Partido Comunista, Yu Keping é a favor de eleições diretas e descreve democracia como 'melhor sistema político'

The New York Times |

A defesa da democracia em um Estado autoritário de partido único parece ser um exercício inútil.

Wei Jingsheng, um dos mais fervorosos dissidentes pró-democracia da China, passou mais de uma década na prisão por exigir eleições multipartidárias. No ano passado, o escritor Liu Xiaobo foi sentenciado a 11 anos de prisão depois que escreveu um manifesto pedindo o fim do Partido Comunista Chinês no poder.

Por outro lado, há Yu Keping, um gentil especialista em política que proclama as glórias da democracia há muitos anos. Em seu mais famoso estudo, "Democracia É Uma Coisa Boa", ele argumenta de maneira apaixonada sobre a inevitabilidade de eleições diretas na China, descrevendo a democracia como "o melhor sistema político para a humanidade".

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Yu Keping, membro do Parido Comunista, defende a democracia (27/03)

Em abril, ele publicou outro tratado, pedindo que o Partido Comunista respeite a Constituição, um assunto importante em um país onde os líderes do governo muitas vezes argumentam que a lei deveria ser subserviente ao partido.

Mas seria ele um agitador cínico brincando com fogo? Dificilmente.

Os textos de Yu são vendidos em livrarias públicas e ele é um oficial do Partido Comunista responsável pelo Escritório Central de Compilação e Tradução, uma obscura agência dedicada a traduzir obras de líderes chineses e tratados marxistas de todo o mundo. Ele também dirige uma organização de pesquisas políticas, o Centro de Política e Economia Comparativas da China, que presta assessoria à liderança do país.

Mesmo os especialistas da China têm dificuldade em determinar se Yu é uma voz corajosa que pede mudança ou um figurante bem posicionado.

Yu, 51, um homem de fala mansa que gosta de armas e de dirigir fora das estradas, faz pouco para esclarecer o seu papel.

"Eu sou apenas um estudioso interessado em pesquisas acadêmicas", ele afirma com um sorriso, cercado por centenas de livros em seu escritório em Pequim.

Um olhar mais atento a Yu fornece uma pequena janela para o papel dos poucos intelectuais públicos que aprenderam a navegar o que parece ser um terreno traiçoeiro. Eles abordam temas aparentemente provocativos e podem funcionar como uma força de mudança, mas no final os seus escritos raramente desafiam as bases do governo autoritário do partido único da China.

Mesmo o uso da palavra "democracia" por Yu não é o que parece. Os líderes da China frequentemente falam sobre isso como um objetivo digno, mas na prática eles não têm virtualmente nenhuma intenção de ceder o monopólio do Partido Comunista. Na verdade, Yu nunca prega uma democracia multipartidária no estilo ocidental.

"O que ele escreve pode parecer bom, mas ele está enganando o povo chinês para que pensem que o governo está se movendo em direção à democracia", disse Guo Tianguo, um ex-advogado de Xangai, que foi forçado ao exílio há cinco anos e hoje vive no Canadá. "Ele deve o seu trabalho ao presidente Hu Jintao, e se pressionar demais irá perder tudo. Ele é um covarde".

No entanto, para alguns que têm seguido a sua carreira, o papel de Yu tem mais nuances. Dizem que ele realmente acredita na democracia, mas anda na corda bamba, tentando empurrar a elite política da China para a reforma, sem prejudicar a si mesmo.

Minxin Pei, um especialista em política chinesa na Faculdade Claremont McKenna, disse que Yu é uma figura pública tipicamente chinesa que tenta influenciar o sistema através de palavras cuidadosamente coreografadas e disfarces bem colocados.

"Ele é flexível no sentido de que se a atmosfera fosse mais tolerante, ele iria mais longe", disse ele. "Mas ele sabe que ir longe demais não vai fazer qualquer bem para ele ou para a causa que está promovendo".

Durante uma série de entrevistas recentes, Yu parecia descontraído e loquaz, mas suas respostas seguiram de perto os seus escritos, que apelam para a introdução gradual da democracia "quando as condições forem certas". Mas ele também foi além dos pronunciamentos vagos sobre a democracia que foram proferidos por Hu, que sugeriu que a China já goza de ampla liberdade política.

Questionado se acredita que o sistema político chinês poderia ser descrito como democrático, Yu ofereceu alguns exemplos de reformas que têm sido testadas em municípios rurais ou pequenas cidades do interior, mas depois acrescentou: "Temos um longo caminho a percorrer".

Como muitos de seus colegas, Yu cresceu no tumulto da Revolução Cultural de Mao, o período entre 1966 e 1976, quando conceitos como direitos universais e a liberdade de expressão eram vistos como contaminantes burgueses do Ocidente. A luta de classes era a ordem do dia, e Yu, filho de agricultores de arroz da Província de Zhejiang, foi estabelecido como líder do batalhão de sua escola, a Guarda Vermelha. Ele ainda não tinha 10 anos.

Com um revólver de madeira enfiado nas calças, ele se lembra de aterrorizar donos de imóveis e comerciantes durante as chamadas sessões de luta. "Eu era tão pequeno que tinha que subir em uma cadeira", disse ele.

Em 1978, dois anos após a morte de Mao, durante o retorno gradual à normalidade e com a reabertura das escolas, ele foi um dos primeiros de sua geração a ir para a faculdade. "Eu literalmente me arrastei pelos arrozais para chegar ao exame de admissão", disse ele, sorrindo e balançando a cabeça.

Yu foi professor na Universidade de Pequim durante a primavera de 1989, e ele disse ter ido várias vezes à Praça da Paz Celestial para cuidar de seus alunos, que faziam parte da multidão protestando contra a corrupção e a inflação e exigindo reformas democráticas.

"Eu estava tão preocupado com eles", ele disse, lembrando do desfecho - uma sangrenta repressão militar na qual centenas de pessoas morreram - como "uma tragédia lamentável".

Mas ele disse que os eventos lhe ensinaram que a China deve ter vias legais para que os seus cidadãos expressem seu desdém pela injustiça ou seu desejo de mudança.

"Em qualquer nação, quando as pessoas estão exigindo reforma, este é um sinal de prosperidade", disse ele. "Ignorar essas exigências é fazer um convite à instabilidade".

Yu disse que ficou impressionado com os Estados Unidos, onde foi pesquisador visitante na Universidade de Duke. Ele saboreia lembranças da troca intelectual nas salas de aulas e do vigor da livre imprensa.

"Eu realmente adorei o espírito americano de possibilidade, os valores de igualdade e justiça, e o modo como as pessoas se preocupavam com o meio ambiente", disse.

Mas apesar da mentalidade aberta dos americanos, ele ainda estremece quando recorda das reações agressivas das pessoas quando descobriam que ele era membro do Partido Comunista.

No entanto, suas experiências mais indeléveis vieram depois que deixou a Duke para viajar por 30 Estados em um ônibus Greyhound. Ele disse que viu o abismo entre os ricos e os muito pobres, a falta de respeito aos idosos e a apatia no Dia da Eleição, especialmente entre as pessoas "comuns" que deveriam estar mais investidas em mudanças políticas.

Yu também se deparou com uma desvantagem da abundância de liberdade. Ele disse que foi assaltado duas vezes, uma vez por um homem que colocou uma faca nas suas costas em um banheiro público em Indianapolis.

"Eu fingi que não falava Inglês, alguém entrou no banheiro e o homem fugiu", disse ele com uma risada.

Essa experiência desencadeou o seu interesse em armas, e Yu, por vezes, descarrega o estresse em um campo de tiros em Pequim. Sua outra distração é dirigir fora das estradas. "Ela fica aterrorizada com a minha condução", disse ele sobre sua esposa, Xiuli Xu, professora de história econômica chinesa.

Antes de terminar a entrevista, ele concedeu um pensamento de despedida. Voltando para sua paixão, ele disse que a história de sua infância contém uma lição.

"Quando eu penso nos dias da Revolução Cultural, isso me faz lembrar de uma verdade", ele disse. "É apenas a democracia e o Estado de direito que podem salvar a China de nunca mais ter que passar por isso".

Por Andrew Jacobs

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