Oficiais de Kadafi procuraram fábricas de armas chinesas, diz Pequim

China admite que companhias estatais se reuniram com líbios, mas nega envolvimento do governo e entrega de armas

The NewYork Times |

O Ministério das Relações Exteriores da China admitiu na segunda-feira que companhias estatais de fabricação de armas se reuniram com autoridades da Líbia nos últimos meses para negociar a venda de armas ao regime de Muamar Kadafi. Aparentemente, este pronunciamento confirma informações contidas em documentos do governo líbio encontrados por um jornalista canadense em Trípoli.

Reuters
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Mas uma porta-voz do ministério negou que oficiais do governo chinês soubessem das negociações e disse que nenhuma arma foi entregue ao regime de Kadafi, diretamente ou por meio de terceiros.

"As empresas chinesas não assinaram nenhum contrato militar ou comercial com a Líbia, e muito menos realizaram exportações militares para a Líbia", disse o porta-voz, Zhang Qiyue, durante o briefing diário do ministério. “A China exercita uma gestão rigorosa sobre todas as exportações militares”.

Segundo ela, "os departamentos do governo chinês com responsabilidades pelas exportações militares vão levar esse assunto a sério".

Oficiais do governo de transição da Líbia haviam manifestado indignação com os documentos, que foram divulgados pela primeira vez no jornal The Globe and Mail de Toronto. Os dados indicavam que durante as reuniões em Pequim, em meados de julho, os comerciantes de armas chineses tentaram vender aos representantes de Kadafi US$ 200 milhões em armas sofisticadas, incluindo mísseis portáteis semelhantes ao Stinger fabricado nos Estados Unidos e que potencialmente poderiam derrubar certas aeronaves militares.

Os negociadores chineses sugeriram que as armas fossem entregues via África do Sul ou Argélia, e disseram que o estoque de armas chinesas existente da Argélia poderia ser imediatamente transferido para a Líbia e reabastecido por novas exportações da China.

Zhang não disse por que o negócio não foi concluído, mas observou que todas as vendas de armas devem receber a aprovação do governo antes das armas serem exportadas.

O governo chinês se absteve em março da resolução da ONU que autorizou "todas as medidas necessárias" para proteger os civis da Líbia, a base da Otan para usar a força para apoiar os rebeldes. Mas o país asiático participou de uma votação anterior unânime que aprovou uma resolução da Onu de 1970, que proibiu a assistência militar ao governo de Kadafi. A China normalmente se opõe a sanções, mas disse na época que as vítimas civis do conflito da Líbia mereciam o embargo.

"Até onde eu sei, desde a aprovação da resolução de 1970 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, as empresas chinesas não forneceram equipamento militar para a Líbia, direta ou indiretamente", disse Zhang na segunda-feira.

Ainda não está claro se a declaração do governo chinês irá satisfazer os rebeldes da Líbia. As relações entre a China e o novo Conselho Nacional de Transição já parece ter sido prejudicada pela relutância da China em acompanhar o resto do Conselho de Segurança da ONU no reconhecimento do novo governo. A China disse que irá apoiar totalmente os esforços da ONU na reconstrução da infra-estrutura da Líbia, danificada na guerra.

Omar Hariri, que lidera o conselho militar do governo de transição, disse ao jornal The Globe and Mail na sexta-feira estar "quase certo de que essas armas chegaram e foram usadas contra nosso povo". Um porta-voz militar da Líbia, Abdulrahman Busin, disse no domingo que os rebeldes "têm provas concretas de negócios acontecendo entre a China e Kadafi”, bem como de outros países.

Mas os documentos sobre a venda de armas, encontrados em uma pilha de lixo em um bairro de Trípoli antes ocupado por apoiadores ricos de Kadafi, indicam apenas que as negociações aconteceram e não sugerem a sua conclusão.

Os documentos foram escritos em papel timbrado da Autoridade de Abastecimento do governo de Kadafi, uma agência de compras. Eles detalham reuniões em Pequim com responsáveis por três empresas estatais chinesas de fabricação de armas: China North Industries Corp, conhecida como Norinco; China National Machinery Precision Import-Export Corporation, conhecida como CPMIEC e China Xinxing Import and Export Corp.

O site da Norinco afirma que a empresa faz "sistemas de ataque de precisão" e outras armas, incluindo mísseis antiaéreos e armas pequenas. A CPMIEC, fabricante de sistemas antiaéreos e de mísseis com lançadores de ombro foi sancionada na década de 1990 e no início de 2000 pelos Estados Unidos pelo fornecimento de tecnologia de armas proibidas para o Paquistão e o Irã. A Xinxing em grande parte faz armaduras e outros equipamentos militares.

* Por Michael Wines

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