Ocupe Wall Street não é movimento como o nosso, diz Tea Party

Analistas comparam os dois movimentos, o que é rejeitado pelos conservadores que chamam os manifestantes de 'sujos e preguiçosos'

The New York Times |

Em um fórum republicano na semana passada, em Fort Worth, Texas, um ativista do movimento Tea Party que é candidato ao Senado chamou os manifestantes do Ocupe Wall Street de "desempregados, analfabetos e desinformados". A esse comentário, o apresentador de rádio conservador responsável por moderar o painel acrescentou, alegremente: "Essa é a primeira ocupação que muitas dessas pessoas viram nos últimos anos."

NYT
Manifestante usa chapéu coberto com saquinhos de chá enquanto protesta pelo movimento Tea Party na Casa Branca em 2009

Cada vez mais comentaristas – assim como o presidente Barack Obama – comparam o protesto que se espalhou por todo o país ao movimento Tea Party. Mas conforme o fazem, os conservadores e ativistas do Tea Party se apressam em desacreditar a comparação e o movimento nascente. Eles têm retratado os manifestantes do Ocupe Wall Street como sujos, preguiçosos, drogados e anti-semitas, chegando a circular uma foto em que um deles é visto defecando em um carro de polícia e insinuando que os democratas que os aceitam estão seguindo rumo à Chicago de 1968 (série de protestos provocados pela morte do ativista Martin Luther King).

É uma guerra cultural: jovens versus velhos, esquerda versus direita, mesas de comida comunal versus bandeiras que dizem "Não pise em mim". Na verdade, os dois movimentos compartilham traços fundamentais. Eles surgiram do nada, mas rapidamente se tornaram potentes forças políticas, movidas pela ansiedade popular em relação à economia, a crença de que as grandes instituições favorecem os imprudentes em vez daqueles que trabalham arduamente, queixas que são rudimentares e mesmo contraditórias, e uma insistência de que não têm líderes. Cartazes que pedem “Fim ao Fed" – e até mesmo algumas bandeiras amarelas Gadsden – encontraram lugar no Tea Party e no Ocupe Wall Street.

Eles diferem apenas em quem colocam a culpa. O Ocupe Wall Street culpa os bancos e milionários, enquanto o movimento Tea Party culpa o governo pela calamidade econômica provocada pela crise das hipotecas e vê os ricos como criadores de emprego que tirarão o país de seu atual mal-estar econômico. Para eles, a solução é menos regulamentação dos bancos, não mais.

Chris Christie , governador de Nova Jersey - e uma espécie de garoto propaganda do movimento Tea Party -, declarou na segunda-feira: “Se você dissesse às pessoas do Ocupe Wall Street e do Tea Party que elas são semelhantes, elas bateriam em você."

Nem tanto. Mas os ativistas do movimento Tea Party estão de fato combatendo as comparações. “Eles parecem mais a favor da anarquia do que a favor de resolver os problemas por meio da Constituição”, disse Jenny Beth Martin, co-fundadora do Tea Party Patriots, sobre o movimento Ocupe Wall Street.

“Nós nos esforçamos muito para respeitar as leis”, ela disse. “Nós protestamos e reclamamos, mas também tentamos operar dentro do sistema. É frustrante ver pessoas que têm uma total falta de respeito pela nossa forma de governo.”

O Tea Party Patriots divulgou uma declaração na semana passada intitulada: “Ocupe Wall Street? Eles não são do Tea Party”. Os simpatizantes do movimento Tea Party, argumenta o texto, são aqueles que “defendem firmemente um princípio”.

“Eles acreditam que menos interferência do governo permite que os empreendedores experimentem coisas novas, vejam o que funciona e descartem o que não funciona”, afirma. “Eles não acreditam que corporações são inerentemente malignas, nem que os banqueiros devem ser decapitados.”

Em comparação, o texto comparou os manifestantes do Ocupe Wall Street a aproveitadores ou aspirantes a aproveitadores: “As pessoas que ocuparam Wall Street e outras cidades, quando são inteligíveis, querem menos daquilo que tornou a América grande e mais do que está prejudicando a América: um governo maior e mais poderoso que cuide deles, para que não tenham que trabalhar como o restante de nós que paga suas contas."

Getty Images
"Avareza mata", são os dizeres deste cartaz (17/10)

Outro motivo para os conservadores não gostarem da comparação é o fato dos democratas e dos sindicatos estarem de olho no movimento Ocupe Wall Street como veículo para energizar a esquerda nas eleições de 2012.

Na terça-feira, Obama, o homem que os integrantes do movimento Tea Party amam odiar, fez a conexão, dizendo à emissora ABC News que o protesto Ocupe Wall Street e os outros que se seguiram “não são diferentes de alguns dos protestos promovidos pelo movimento Tea Party”.

“Eu acredito que tanto na esquerda quanto na direita as pessoas se sentem separadas de seu governo”, disse o presidente. “Elas sentem que suas instituições não mais se preocupam com elas.”

Os veículos conservadores acusam a “imprensa popular” de dar atenção demais ao movimento Ocupe Wall Street, mas que também o cobrem extensamente – principalmente para argumentar que o movimento é composto por socialistas raivosos e desordeiros.

O The Daily Caller notou na segunda-feira que o Partido Nazista da América apoia o movimento Ocupe Wall Street. O Big Journalism, outro site conservador, publicou uma coleção de fotos mostrando carros e bandeiras vandalizados nos protestos Ocupe Wall Street, assim como cartazes pedindo o fim da ajuda a Israel, que o site usou para alegar o antissemitismo do novo movimento.

Há um certo elemento que parece mostrar as críticas como algo do outro lado do espelho. Com base nas fotos, o The Daily Caller noticiou que as forças do Ocupe Wall Street são quase exclusivamente brancas (vários estudos e pesquisas mostram que o movimento Tea Party conta com poucos membros de minorias étnicas).

O Tea Party também era vago, ou contraditório, a respeito de suas frustrações no início – como em um cartaz visto em um comício que foi citado como evidência de que o movimento Tea Party é ignorante e desinformado: “Mantenham as Mãos do Governo Longe do Meu Medicare”.

Nos protestos do movimento Tea Party também é possível encontrar alguns excêntricos como os encontrados pelos conservadores nos comícios do Ocupe Wall Street – segundo os organizadores, trata-se de radicais intrometidos. Aqueles cartazes de Obama como Hitler, eles afirmam, foram obra dos simpatizantes de Lyndon LaRouche, não de ativistas do Tea Party.

Da mesma forma, as críticas dos conservadores aos protestos do Ocupe Wall Street às vezes são infundadas. Lu Busse, líder do movimento Tea Party no Colorado, alegou no Facebook que dois manifestantes do Ocupe Denver morreram de overdose de heroína na semana passada. Na verdade, segundo as autoridades municipais, não ocorreu nenhuma morte por overdose em Denver esse mês.

Alguns manifestantes do Ocupe Wall Street parecem mais dispostos a expressar que existe algo em comum entre o seu movimento e o Tea Party – e até mesmo certa admiração.

Lin Wefel, uma simpatizante do Ocupe atuante no Zuccotti Park, em Nova York, onde os protestos tiveram início, disse que participou de um evento do movimento Tea Party na Pensilvânia e acha que as missões dos dois movimentos coincidem “em 80%”. “Eles querem empregos, salários justos, tirar o dinheiro do sistema – as mesmas coisas que queremos”, ela disse.

Kate Linker, outra manifestante, disse que apesar dos dois movimentos concordarem que o sistema não está funcionando, eles discordam sobre como ele deve funcionar. Ela, por exemplo, estava coletando assinaturas para a renovação do imposto sobre fortunas no Estado de Nova York e pelo estabelecimento de um novo imposto federal – uma causa que o movimento Tea Party não apoiaria.

Mesmo assim, ela disse, o Ocupe aspira ter um impacto tão forte no debate nacional quanto o movimento Tea Party teve.

Getty Images
"Capitalismo = corrupção", são os dizeres desta placa (17/10)
Até o momento, a maioria dos americanos não se alinha a nenhum movimento. Em uma pesquisa realizada no último fim de semana, 26% dos entrevistados disseram apoiar o movimento Ocupe Wall Street, 19% se identificaram como oponentes a ele e 52% disseram não apoiar e nem se opor. Por outro lado, 22% disseram apoiar o movimento Tea Party, 27% disseram ser oponentes a ele e 47% não apoiam e nem são oponentes.

Mas a grande maioria – 63% – disse não saber o suficiente sobre os objetivos do Ocupe Wall Street para dizer se aprovam ou desaprovam suas ações. No início do movimento Tea Party, um percentual igualmente alto não sabia muito a seu respeito.

Os conservadores estão tentando definir os manifestantes do Ocupe Wall Street antes que eles definam a si mesmos.

Ed Morrissey, escrevendo na The Week, insistiu que o movimento Ocupe quer “confiscos e redistribuições, o que necessariamente significa mais burocracia, gastos e muito mais oportunidades para conluio entre as autoridades e os interesses endinheirados de um jeito ou de outro”. Ainda assim, ele reconheceu que lembra o movimento Tea Party em alguns aspectos.

Martin, do Tea Party Patriots, disse que o ano que vem irá determinar se mais americanos concordam com as forças do Ocupe ou com o movimento Tea Party. “É nisso que a eleição se resume”, disse, “que direção acreditamos que a América irá seguir e qual o tamanho apropriado e a esfera de ação do governo”.

Por Kate Zernike

    Leia tudo sobre: ocupe wall streettea partycrisedesempregomovimento

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG