Ocidente aproveita oportunidades de negócios na Líbia

Empresas de construção e segurança estão animadas com o potencial de negócios em país com muitas necessidades - e muito petróleo

The New York Times |

As armas na Líbia mal tinham se aquietarado quando a assistência militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para a rebelião que derrubou o regime de Muamar Kadafi , que foi morto no dia 20 de outubro, terminou oficialmente nesta segunda-feira . Mas uma nova força de invasão já está planejando o seu próprio desembarque em Trípoli.

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NYT
Bombeiros combatem incêndio depois que partidários de Kadafi a cidade de Misrata, Líbia

Empresas ocidentais de construção, segurança e infra-estrutura que veem as oportunidades lucrativas diminuírem no Iraque e no Afeganistão voltaram seus olhos para a Líbia, agora livre de quatro décadas de ditadura . Empresários estão alvoroçados com o potencial de negócios de um país com enormes necessidades e muito petróleo para pagar por elas, além da vantagem competitiva da gratidão da Líbia para com os Estados Unidos e seus parceiros da Otan.

Uma semana antes da morte de Kadafi, uma delegação de 80 empresas francesas chegou a Trípoli para se encontrar com autoridades do Conselho Nacional de Transição (CNT), o governo interino. Na semana passada, o novo ministro da Defesa britânico, Philip Hammond, encorajou as empresas britânicas a pegar "suas malas" e seguir para Trípoli.

Quando o corpo de Kadafi ainda estava em exposição pública , uma empresa britânica, a Trango Special Projects, passou a vender os seus serviços de apoio a empresas à procura de dinheiro no país.

"Enquanto a especulação a respeito da morte de Kadafi continua", afirma a Trango em seu website, "você e seu negócio estão preparados para voltar para a Líbia?"

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A empresa ofereceu quartos em sua casa de Trípoli e transporte "por nossa equipe de segurança discreta e mista, britânica e líbia". Sua discrição não é barata. O preço para um transporte de 10 minutos do aeroporto, para o qual a tarifa de táxi comum é de cerca de US$ 5, é listado por 500 libras esterlinas, ou cerca de US$ 800.

"Há uma espécie de corrida do ouro ocorrendo agora", disse David Hamod, presidente e diretor executivo da Câmara Nacional de Comércio Estados Unidos-Árabes. "E os europeus e asiáticos estão muito à frente de nós. Estou recebendo ligações diárias de membros da comunidade de negócios na Líbia. Eles dizem: 'Volte, não queremos que os americanos percam espaço".

No entanto, há hesitação em ambos os lados, e até agora a conversa excede em muito a ação. O CNT, na esperança de evitar qualquer eco da corrupção da era Kadafi, disse que nenhum contrato de longo prazo será assinado até que um governo definitivo seja eleito . E com as cidades ainda cheias de armas e jovens desempregados, a Líbia não oferece um ambiente de negócios seguro – daí a presença de provedores de segurança.

Como a França e a Grã-Bretanha, os Estados Unidos podem se beneficiar da apreciação das autoridades líbias pelo crítico apoio aéreo da Otan para a revolução. Seja qual for o rigor das novas regras que regem os contratos, as empresas ocidentais esperam ter alguma vantagem sobre, digamos, a China, que se ofereceu para vender armas a Kadafi em julho .

"Vingança pode ser uma palavra muito forte", disse Phil Dwyer, diretor do Grupo SCN Resources, uma empresa da Virgínia que abriu um escritório em Trípoli há duas semanas para oferecer assessoria de "gestão de risco" e serviços a uma empresa que ele não quis informar. "Mas eu acredito que aqueles que estão a favor do conselho de transição conseguirão obter o assentimento para o estabelecimento empresarial."

A Rede de Segurança Contratante, um serviço de trabalhos executados pela empresa Dwyer, postou em seu blog dois dias após a morte de Kadafi que haveria muitos trabalhos na Líbia. "Haverá um ligeiro aumento na atividade conforme as companhias de petróleo estrangeiras lutam para conseguir espaço na Líbia", disse a empresa, juntamente à necessidade de logística e pessoal de segurança conforme o Departamento de Estado e organizações sem fins lucrativos expandam suas operações. "Fique de olho em quem ganha contratos relacionados, siga o dinheiro e encontre o seu próximo trabalho."

Em Trípoli, ainda há uma atmosfera de esperar para ver. No café da manhã na sexta-feira em um hotel no centro, um agente de segurança britânico apontou para mesas de homens fortes – pistoleiros como ele. "Olhe para eles", disse ele. "Veja quantos deles."

Muitos ainda estão protegendo jornalistas estrangeiros, mas os outros estão esperando para conseguir contratos de treinamento a um governo inexperiente que tenta domar a sua incontrolável força armada. Funcionários da indústria de segurança dizem que o trabalho aqui pode nunca coincidir com a escala colossal de gastos no Iraque e no Afeganistão, mas com o aperto nos gastos governamentais na Europa e nos Estados Unidos, é uma conquista de qualquer jeito.

As oportunidades de negócios para as empresas ocidentais começaram a surgir na Líbia em 2004, quando a decisão de Kadafi de desistir de seu programa de armas nucleares abriu as portas do país. Hamod liderou quatro delegações de negócios americanos à Líbia entre 2004 e 2010 e viu "um gradual degelo das relações comerciais", disse.

O total do investimento estrangeiro na Líbia cresceu de US $ 145 milhões em 2002 para US$ 3,8 bilhões em 2010, segundo o Banco Mundial. Mas muitos negócios foram distorcidos pelas exigências dos filhos de Kadafi de uma participação nos lucros e a situação do país era sombria depois de muitos anos de sanções econômicas e negligência.

A Líbia "precisava de tudo", disse Hamod: serviços bancários e financeiros, hospitais e clínicas médicas, estradas e pontes e infra-estrutura para as indústrias de energia e petróleo.

Agora, após meses de luta, e com a situação de segurança ainda frágil, existem novas exigências, como a reconstrução de complexos de apartamentos reduzidos a escombros pelos bombardeios, a proteção das instalações petrolíferas conforme sejam restauradas ou sua produção ampliada, além do treinamento e equipamento das novas forças armadas.

Hamod disse que as empresas americanas são muitas vezes mais hesitantes do que as chinesas ou algumas empresas europeias sobre a operação em um ambiente tumultuado como a Líbia pós-Kadafi. "Há relutância em mergulhar de cabeça na Líbia", disse ele. "Historicamente, as empresas americanas se preocupam com a atuação do Estado de direito e como ele pode influenciar um investimento de milhões de dólares."

AP
Muamar Kadafi foi morto em 20 de outubro de 2011

Em uma reunião da G8 em Marselha, França, em setembro, os ministros das Finanças prometeram US$ 38 bilhões em novos financiamentos, em grande parte empréstimos, aos países árabes entre 2011 e 2013. Embora a Líbia esteja bombeando menos de um terço de sua produção de petróleo do pré-guerra de 1,7 milhão de barris por dia, o país tem as maiores reservas de petróleo da África, o que eventualmente deve significar um suprimento constante de dinheiro.

A simultânea excitação e confusão que acomete as pessoas que buscam oportunidades na Líbia são evidentes em grupos no site de relacionamento profissional LinkedIn. "Alguém no grupo sabe me dizer se já há voos para Trípoli", perguntou Peter Murphy, um pesquisador irlandês que trabalha em um projeto de energia eólica marítima, em uma página de discussão LinkedIn chamado Anglo Business Group in Lybia (Grupo Anglo de Negócios na Líbia, em tradução livre). "Além disso, qual é a situação para obtenção de vistos para viajantes de negócios?"

A resposta foi oferecida por Mabruk Swayah, que se identificou no LinkedIn como agente de desenvolvimento de negócios na Líbia. "Olá, amigos. Vocês são todos bem-vindos à Líbia", escreveu Swayah. "Apenas certifiquem-se de percorrer os canais adequados para seus contratos de trabalho e não se envolver em subornos ou incentivos a oficiais."

Ele acrescentou: "Lembrem-se que temos liberdade de imprensa agora."

Por Scott Shane

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