Obsessão por detalhes pode ser ponto fraco de Romney

Organização ajuda campanha de pré-candidato à presidência dos EUA, mas exageros e perfeccionismo o distanciam do público

The New York Times |

O comitê de campanha de Mitt Romney normalmente deixa pouca margem para o azar. Quando seus assistentes encontraram três bêbados sem-teto em um banco, fumando e gritando diante do prédio da prefeitura de Nashua, em Nova Hampshire, onde Romney receberia um apoio importante, eles entraram em ação.

Will Ritter, o diretor de operações de 28 anos, levou os homens até uma lanchonete e comprou para eles sanduíches quentes e café. Eles conversaram sobre suas histórias de vida até finalmente fecharam um acordo. Os homens, disse Ritter, eram bem-vindos ao evento, desde que não interferissem em nada. Eles concordaram e a cerimônia fluiu sem nenhum problema.

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NYT
Romney discursa em fábrica da Ford em Detroit (24/02)

Esse tipo de gestão rigorosa e obsessão por detalhes, até com o tamanho das bandeiras americanas penduradas nos eventos, é precisamente a imagem que a campanha quer transmitir, apresentando Romney como um executivo-chefe exigente e disciplinado. Mas uma falha cometida em Detroit na sexta-feira, quando Romney concordou em dar um discurso sobre a situação econômica para 1,2 mil pessoas em um estádio de 65 mil lugares – uma péssima estratégia política que acabou abafando sua mensagem, quatro dias antes das primárias de Michigan - mostrou como sua organização ainda pode escorregar sob a tensão extenuante de uma longa campanha.

Enquanto Romney está contando mais do que nunca com uma ótima organização e planejamento para ajudá-lo a enfrentar o que parece ser uma prolongada batalha Estado a Estado para conseguir seus delegados, continua a enfrentar a percepção de alguns eleitores de que ele, assim como a equipe que está trabalhando para elegê-lo, é um triunfo da engenharia política sobre a paixão e a autenticidade.

Toda campanha presidencial cristaliza a personalidade, as tendências e as preocupações de seu candidato, com aconteceu há quatro com o estilo "sem drama" do presidente Barack Obama e a maneira não conformista de ser do senador John McCain, que o levou à escolha de Sarah Palin como sua companheira na disputa presidencial.

"Toda organização é um reflexo de seu líder e acho que há uma grande atenção aos detalhes, um amplo planejamento, já que essa não é uma campanha que diz: 'Bom, vamos improvisar e ver o que acontece’", disse Kevin Madden, um conselheiro de Romney. "Se você olhar para a maneira com a qual as campanhas são administradas e organizadas, muitas vezes ela são um reflexo do que você pode esperar do estilo de presidência do candidato em questão.”

Mas um candidato que promove uma imagem de administrador experiente pode sofrer mais quando as coisas dão errado. A meticulosidade de Romney tem às vezes contribuído para a percepção de que ele é uma figura distante. No período que antecedeu a sua disputa com Rick Santorum em Colorado, Minnesota e Missouri , Romney evitou momentos de improviso reduzindo o contato direto com eleitores - uma marca de sua estratégia em Nova Hampshire , com sua espontaneidade e debates pessoais - e a favorecer grandes comícios e eventos com respostas mais simples e mais diretas.

A campanha de Romney sempre foi muito bem organizada e controlada. Mesmo quando enfrentou rixas internas e disputas territoriais em 2008, Romney conseguiu esconder uma grande parte destas informações e toda a magnitude do que estava realmente acontecendo até depois de ter se retirado da disputa presidencial.

Quatro anos depois, sua campanha voltou ainda mais elegante e com uma aura que parece demonstrar que está mais disciplinada. Sua equipe monitora o Twitter implacavelmente, enviando mensagens individuais. Tenta controlar as imagens que os fotógrafos podem chegar a produzir, às vezes até mesmo limitando suas posições para incentivar tomadas amplas que mostram Romney cercado por uma multidão enorme. E seus funcionários mais jovens - muitas vezes acusados, erroneamente, por qualquer vazamento de informação - são todos proibidos de sequer conversar com a imprensa.

Outras campanhas têm se esforçado em simplesmente organizar eventos. Santorum recentemente realizou um comício em um local muito escuro, dando a seu rosto um tom macabro. E um lapso na comunicação entre as equipes nacionais e locais de Newt Gingrich fizeram com que ele tivesse que cancelar uma reunião com o governador Brian Sandoval do Estado de Nevada, um republicano popular, que ficou constrangido com o episódio.

"Você não irá conseguir vencer o presidente Obama com um candidato que tem uma campanha desorganizada e com poucos recursos", disse Eric Fehrnstrom, um conselheiro de Romney. "Alguns dos nossos adversários não conseguem sequer chegar à votação em alguns Estados ou até mesmo reunir chapas completas de delegados. Eles ainda têm dificuldade em organizar um voo fretado para a imprensa. Mitt Romney não apenas é a melhor pessoa para concorrer contra Obama em questões como o emprego e a economia, ele também é o candidato com uma das operações de campanha mais eficazes que há."

Quando as multidões que seguiam Romney começaram a crescer rapidamente em Iowa, os funcionários mais jovens de sua equipe se mobilizaram chamando amigos de campanhas anteriores para ajudar e conseguiram locais maiores para fazer os eventos.

Mas é impossível calcular precisamente a engenharia necessária para se fazer a política presidencial e mesmo antes de sexta-feira Romney e seus assessores se depararam com alguns problemas.

Após ter ido mal em alguns debates no mês passado, a equipe de Romney não conseguiu atrair uma grande parte da multidão para um comício em Florence, Carolina do Sul. O resultado: uma versão reduzida do que aconteceria em Detroit, com Romney retratado nos jornais do dia seguinte em um salão exageradamente grande, discursando para uma multidão que sequer ocupava metade dos lugares disponíveis.

Poucos dias depois, sua equipe planejou uma aparição no Ham Tommy Country House em Greenville, Carolina do Sul, apenas para descobrir que Gingrich, na época seu maior rival, estava também fazendo um evento lá. O restaurante contou aos repórteres que enquanto alguém de lá havia conversado com um dos organizadores da campanha de Gingrich, a equipe de Romney não havia ligado para organizar nada no local.

Romney evitou um confronto na Casa Ham, chegando uma hora mais cedo, apesar dos protestos dos seus assessores, evitando comentários de que estava com medo de encontrar Gingrich.

Na terça-feira em Shelby, Michigan, vários integrantes da campanha de Romney estavam obcecados sobre como arrumar uma faixa que dizia: "Cortem os gastos”. Embora a faixa parecesse perfeitamente colocada, eles continuavam a encontrar problemas com seu posicionamento.

Logo em seguida cinco pessoas apareceram para levantar um dos lados e abaixar o outro. Um sinal de aprovação de que a faixa estava finalmente certa foi dado, mas logo em seguida eles mudaram de ideia.

"Ainda estamos preocupados com isso?" um dos presentes perguntou, depois de repetidas tentativas para conseguir que tudo ficasse perfeitamente colocado.

"Sim", alguém respondeu. "Ainda está um pouquinho fora de lugar.”

Por Ashley Parker

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