Obama quer reformular debate de paz no Oriente Médio

Em discurso nesta quinta-feira, expectativa é que líder americano ofereça ideias específicas sobre política dos EUA para a região

The New York Times |

Seis meses depois de o mundo árabe começar a ser agitado por uma tempestade política, o presidente americano, Barack Obama, vem buscando maneiras de vincular a histórica transformação da região às negociações de paz não concretizadas entre israelenses e palestinos. Não está claro, no entanto, como ele irá fazer isso.

Obama terá a oportunidade de remodelar o debate nesta quinta-feira, quando fará um importante discurso no Departamento de Estado. O presidente pretende argumentar que a turbulência política aumenta a perspectiva de progresso em todas as frentes e oferecerá "algumas ideias específicas sobre a nova política dos Estados Unidos para a região", disse o secretário de imprensa da Casa Branca, Jay Carney, na terça-feira.

AP
Obama esteve com o rei da Jordânia, Abdullah 2º, na terça-feira
Oficiais disseram que Obama está considerando se deve apoiar formalmente as fronteiras pré-1967 de Israel como ponto de partida para negociações de um Estado palestino – uma medida que seria menos uma mudança política e mais um sinal de que os EUA esperam que Israel faça concessões na busca por um acordo.

Mas vários outros oficiais disseram que o presidente não planeja apresentar um plano americano para acabar com o impasse entre israelenses e palestinos. Na ausência do mesmo, dizem os especialistas, há pouco que ele possa fazer para aproximar os dois lados, especialmente desde que a revolta no mundo árabe aprofundou o abismo entre eles.

Resposta

Obama vem lutando por uma resposta mais coerente à repressão violenta no Bahrein, Iêmen e Síria, e  pode aproveitar a oportunidade para aumentar a pressão sobre o presidente da Síria, Bashar al-Assad, contra quem os EUA impuseram sanções na quarta-feira. Além das sanções, Obama pode criticar Assad em seu discurso, abandonando sua resposta de certa maneira limitada à repressão que o governo sírio tem exercido sobre os manifestantes. Alguns oficiais do governo disseram que a reticência americana resulta em parte de uma esperança, claramente insatisfeita, de que o tumulto possa servir para afastar o governo sírio de sua aliança com o Irã.

Para os aliados árabes dos EUA, Obama está oferecendo incentivo para que prossigam com as reformas. Na terça-feira, ele saudou o rei Abdullah 2º da Jordânia na Casa Branca e anunciou mais de US$ 400 milhões em investimentos americanos no país, bem como 50 mil toneladas de trigo, que segundo ele irá ajudar os jordanianos e permitir que o governo acelere a reforma de sua economia.

O discurso de Obama acontece durante uma semana agitada na diplomacia do Oriente Médio. Além de Abdullah, o presidente pretende se reunir com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, na sexta-feira. No domingo, ele irá falar com um importante grupo de lobby pró-Israel, o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC). E mais tarde, na próxima semana, Netanyahu planeja fazer seu discurso perante uma sessão conjunta do Congresso americano.

Mas o turbilhão de atividade acontece em um dos cenários mais agressivos para o processo de paz em muitos anos. Forças de segurança israelenses entraram em confronto com milhares de manifestantes palestinos que marcharam nas suas fronteiras no domingo. Além disso, o partido Fatah assinou um acordo com o grupo militante islâmico Hamas, que Netanyahu condena como a antítese a um acordo de paz.

"Eu nunca estive mais preocupado sobre o direcionamento disso do que agora", disse Robert Danin, membro sênior do Conselho de Relações Exteriores, que coordenava o escritório de Jerusalém do grupo conhecido como Quarteto do Oriente Médio. "Parece haver no ar a situação propícia para uma verdadeira explosão".

Obama tinha considerado determinar parâmetros americanos para um acordo de paz, disseram vários oficiais – uma medida favorecida por Clinton, mas que o teria colocado em desacordo com o seu conselheiro de segurança nacional, Thomas E. Donilon, e seu principal assessor para o Oriente Médio, Dennis Ross.

Mas o acordo de união entre o Hamas e o Fatah, o partido do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmud Abbas, efetivamente matou os planos de tentar avançar com uma proposta dos Estados Unidos, de acordo com um oficial do governo. "É difícil imaginar como podemos fazer isso quando o Hamas não aceita "reconhecer o direito de Israel de existir e a repudiar a violência contra Israel, disse o oficial.

Na terça-feira, Obama reafirmou seu compromisso para ajudar a mediar um acordo entre israelenses e palestinos. "Apesar das muitas mudanças, ou talvez por causa das muitas mudanças que estão ocorrendo na região, é mais vital agora do que nunca que tanto israelenses quanto palestinos encontrem uma maneira de voltar a negociar um processo pelo qual possam criar dois Estados vivam lado a lado em paz em segurança ", disse o presidente após o encontro com Abdullah no Salão Oval.

ONU

Oficiais palestinos disseram que irão seguir com seus próprios planos de pedir o reconhecimento das Nações Unidas para um Estado palestino quando a Assembleia Geral se reunir em Nova York em setembro – uma jogada que alarma as autoridades americanas, que detestam ser colocadas na posição de ter de votar contra os palestinos no momento em que há movimentos democráticos no Oriente Médio.

Em um artigo de opinião no New York Times na terça-feira, que analistas interpretaram como o equivalente diplomático de uma declaração de guerra contra o status quo, Abbas disse que irá solicitar o reconhecimento internacional do Estado da Palestina, com base nas fronteiras de Israel antes da guerra de 1967 entre árabes e israelenses.

Tal medida provavelmente conseguiria uma maioria de votos na Assembléia Geral, segundo diplomatas, com países da América Latina, África, Ásia e Oriente Médio votando a favor dela.

Isso, por si só, seria embaraçoso para Israel. Assim, as autoridades israelenses estão tentando ter certeza de que grandes países europeus, incluindo França, Itália, Inglaterra e Alemanha, unam-se aos EUA e votem contra ou abstenham-se, negando assim o plano de reconhecimento pelas potências mundiais dos palestinos.

Para os palestinos, um endosso formal das fronteiras de 1967 pelos EUA como base para as negociações pode torná-los menos suspeitos de retornar à mesa de negociações. Israel tem historicamente rejeitado quaisquer pré-condições para negociar, e os analistas afirmam que a reação de Netanyahu seria crítica.

Em um discurso na segunda-feira ao Parlamento israelense, Netanyahu, descartou qualquer negociação com o Hamas, mas sugeriu que Israel estaria aberto a entregar a maior parte da Cisjordânia em um acordo de paz com os palestinos.

O discurso de Netanyahu "foi mais direto do que no passado", disse David Makovsky, pesquisador sênior do Instituto Washington para Política do Oriente Próximo. "Ele realmente me deu alguma esperança para o processo de paz”.

*Por Mark Landler e Helene Cooper

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