Obama precisa explicar suas propostas para a economia

A crise financeira já tem mais de um ano de idade. Ela foi intensificada durante a campanha presidencial e persistiu no período de transição que veio depois dela. Ainda assim, a menos de duas semanas do Dia da Posse, ainda não se sabe o que o presidente eleito Barack Obama tem em mente quando promete uma estrutura regulamentadora do século 21.

The New York Times |

Os desafios são claros. As medidas antiquadas (segundo as quais o Tesouro e outros regulamentadores federais se apoiaram menos em regras e na sua imposição e mais na fé na disciplina do mercado para limitar riscos ao sistema) se mostraram falhas. Qualquer coisa que não seja um regime baseado em novas regras seria inadequada para a tarefa de restaurar a confiança e, eventualmente, ressuscitar a economia. Ainda mais básico, qualquer novo regime deve ser fundado sobre o desejo declarado e a disposição de regulamentar.

Obama conseguirá fazer isso? Sem um sinal claro do presidente eleito, os primeiros passos não parecem encorajadores. Não há consumidores proeminentes ou investidores entre sua equipe de consultores econômicos. Com exceção de Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve, não há regulamentadores oficiais, do passado ou presente, que tenham se destacado por alertar precocemente sobre a crise ou tomado alguma ação contra os excessos que a alimentaram.

Mary Schapiro, a escolha de Obama para liderar a Comissão de Securities e Exchange, já trabalhou com habilidade em posições governamentais e de regulamentação das indústrias, mas é mais conhecida por seu apoio à autorregulamentação e por um grande papel na regulamentação baseada em princípios (basicamente, o oposto de regras claras). A escolha de Gary Gensler para liderar a Comissão de Commodity Futures, que regulamenta contratos futuros, é ainda mais preocupante.

Gensler, antigo banqueiro de investimentos do Goldman Sachs, um dos maiores corretores de mercadorias, foi assistente do secretário de Tesouro da gestão Bill Clinton. Em 2000, ele acompanhou a criação de leis que excluíam os derivativos de regulamentação federal, inclusive a inadimplência de crédito viral que ampliou a atual crise. Negócios e outros derivados precisam ser regulamentados. O país precisa de trocas que sejam abertamente negociadas e sujeitas ao acompanhamento de regulamentadores.

Finalmente, novas leis para a negociação de derivados precisam ser criadas pelo Congresso, mas a influência de regulamentadores sobre a troca de mercadorias será importante para a criação e implementação destas leis. Qual a posição de Gensler? Como seus elos com Wall Street afetam suas escolhas, sua percepção do que é certo e o que é necessário? Essas são algumas questões que os senadores têm que fazer durante sua audiência de confirmação.

Eles terão que fazer perguntas similares a Timothy Geithner, secretário do Tesouro de Obama. Como presidente do Federal Reserve de Nova York desde novembro de 2003, Geithner era o regulamentador mais próximo de Wall Street durante os anos de excessos que levaram à atual crise.

Um sinal precoce da seriedade da gestão Obama em relação à reforma regulamentadora será a ação de seus oficiais na tentativa de remodelar a estrutura da regulamentação. Há regulamentadores demais com exigências e autoridade sobrepostas, mas uma nova estrutura deve advir de novas regras, não o contrário.

Além de expor a regulamentação dos derivados, estas regras devem limitar a quantidade de dinheiro que as instituições financeiras podem pedir emprestado para melhorar seus lucros (e exigências maiores para a quantidade de capital que precisam ter para apoiar sua atividade e sustentar suas perdas). Um regime regulamentador sábio exigiria que as instituições acumulassem capital em anos bons para que possam apoiar seus recursos em anos difíceis.

Além de regulamentar instrumentos de investimento antes desregulamentados, Washington precisa impor regulamentações a fundos de conversão. Houve um tempo em que as instituições que eram grandes demais para falir representavam maior perigo ao sistema financeiro e à economia. Esta crise mostrou que as instituições financeiras podem se tornar tão interconectadas que permitir sua falência pode ser ainda mais perigoso. A solução é regulamentar os participantes financeiros fora do sistema bancário.

Isso seria um começo. Há uma importante presunção que precisa ser abandonada: que proteger os consumidores e investidores individuais impropriamente limita os lucros corporativos e inovações financeiras. O estabelecimento do que os defensores chamam de Agência de Segurança do Crédito Consumidor já deveriam ter acontecido há muito tempo. Se um processo estivesse ativo para determinar o efeito de produtos e práticas financeiras sobre os consumidores, a atual crise poderia nunca ter acontecido. Os defensores dos consumidores há muito sabem dos perigos do empréstimo subprime que gerou todo o problema.

Pode ser que as pessoas cujas ações contribuíram para a crise sejam as melhores para ajudar a consertá-la. Isso ainda não foi visto. Mas seria trágico se Wall Street concluísse das escolhas de Obama que não precisa se preocupar sobre uma mudança de cenário que alteraria sua busca por lucros. Saberemos se a nova gestão funciona quando Wall Street começar a se preocupar.

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