Obama passa de 'candidato da mudança' para 'candidato mudado'

Após se projetar como político incomum em 2008, líder americano adota posições mais firmes e realistas na disputa pela reeleição

The New York Times |

"Uma das coisas positivas de ser presidente", disse Barack Obama durante uma entrevista à NBC News, "é que você melhora com o passar do tempo”.

Se ele melhorou ou não, caberá aos eleitores decidir nas eleições de novembro. Mas a maneira com a qual o presidente dos Estados Unidos lidou com questões controversas na semana passada mostrou que ele realmente mudou. Três anos na Casa Branca fizeram com que essa mudança fosse percebida tanto entre seus partidários quanto entre seus críticos.

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AP
Obama faz pronunciamento em faculdade de Annandale, na Virgínia (13/02)

Se Obama era ingênuo quando foi eleito em 2008, como muitos republicanos afirmaram durante a campanha, hoje certamente não é.

Se ele aspirava a adotar uma postura mais flexível em relação às divisões partidárias quando fez o juramento de posse, como muitos de seus admiradores esperavam, hoje adota uma posição mais firme em discussões políticas.

Se ele pensava que poderia mudar a maneira como Washington funciona - uma proposta que foi vista com ceticismo, para dizer o mínimo, por muitas pessoas experientes de ambos os partidos - ele hoje opta por governar de acordo com as regras existentes.

Se as circunstâncias e sua própria habilidade lhe ajudaram na disputa de 2008, apresentando uma proposta diferente àquela do político comum, desta vez ele deve enfrentar todos os desafios e carregar consigo a bagagem de qualquer outro democrata. A ponto de ele e sua equipe terem mudado a ideia que criaram dele como uma figura transformadora, optando por um enfoque mais prático para manter unida uma coalizão de centro-esquerda que pode fazer com que conquiste a reeleição.

"Na minha religião, chamamos isso de batismo de fogo", disse o senador Richard J. Durbin, falando a respeito de como a experiência adquirida por Obama ao longo dos últimos anos fez com que ele estivesse menos inclinado a conceder aos republicanos o benefício da dúvida e se tornasse mais pragmático sobre o que está ao seu alcance. "Cada candidato a presidente, seja concorrendo pela primeira vez ou para reeleição, é uma pessoa com aspirações", disse Durbin. "Então eles se deparam com a realidade, e o desespero de tentar fazer apenas o que está a seu alcance."

As demonstrações mais recentes da abordagem mais prosaica de Obama aconteceram esta semana, com a mudança de rumo em um elemento-chave de sua campanha no arrecadamento de fundos e na maneira como lidou com as críticas feitas à sua política de cobertura para anticoncepcionais .

Sobre o primeiro assunto, ele abandonou sua posição de longa data contra direcionar seus apoiadores para os chamados Super PACs (comitês de arrecadação formados por empresas e sindicatos), grupos cujos vastos gastos em publicidade negativa estão mudando a cara da política.

Diante da escolha de disputar a reeleição armado com este princípio ou armado com milhões de dólares a mais para ajudar a compensar a atual vantagem republicana nas guerras dos PACs, ele optou por deixar o princípio de lado, fazendo com que muitos administradores do partido o apoiassem de maneira discreta e causando algumas reações negativas por parte dos defensores de um controle mais rígido com o financiamento das campanhas.

Esta decisão foi apenas a mais recente na qual Obama demonstrou uma postura mais agressiva ao enfrentar os republicanos, após seu esforço malfadado no ano passado em tentar chegar a um acordo bipartidário sobre a redução do déficit – que demonstrou uma mudança crucial na sua maneira de pensar.

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A essa altura, a Casa Branca vê com bons olhos que sua postura seja vista como mais agressiva contra os republicanos para conseguir o que deseja. No mês passado, o presidente rebateu algumas ameaças feitas pelos republicanos do Capitólio, fazendo quatro nomeações durante o recesso, incluindo o chefe do novo Departamento de Proteção Financeira do Consumidor.

Ele tem demonstrado poucos sinais de que irá abrir mão de sua exigência em prorrogar o corte nos impostos sobre folha de pagamento. Ele está lidando firmemente com temas de desigualdade e tem adotado uma postura mais populista em sua campanha. "Ele teve que acordar para a realidade de sua oposição política", disse Durbin.

Mas seu estilo mais agressivo nos confrontos políticos foi bem recebido por outros democratas, embora traga alguns riscos. Ele ainda não se encaixa perfeitamente em um padrão ideológico, mas está diante de grandes desafios para manter seu partido unido – basta ver os esforços que a Casa Branca tem feito durante os últimos dias para encontrar um caminho através de sua política que exige que instituições com afiliações religiosas ofereçam seguro de saúde que cubra o uso de anticoncepcionais.

Obama finalmente se posicionou na sexta-feira, depois que democratas de centro, como os senadores Joe Manchin 3º e Bob Casey debateram sobre o assunto com ele, e depois de os pré-candidatos republicanos à presidência utilizarem esta discussão para alegar que a Casa Branca é contra a religião. O governo disse que não abriu mão de suas escolhas e que também pensou nos grupos liberais ao tomar sua decisão, mas a velocidade com a qual respondeu ao tumulto demonstrou o quão sintonizado Obama está em relação a possíveis problemas eleitorais.

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O governo tem mostrado sinais de tensões internas em outros assuntos que têm o potencial de dividir a esquerda e o centro, como o ritmo da retirada dos soldados do Afeganistão e a rejeição ao oleoduto de Keystone.

Ao mesmo tempo, Obama ainda está à procura de um tema atraente para sua reeleição na “era pós-Esperança e Mudança”. Ele tentou versões um pouco mais sutis de "Teria sido pior sem mim", "Em comparação aos outros caras sou a melhor opção" e "Para as mudanças ocorrerem precisamos de mais do que um mandato." Como disse na entrevista à NBC, "os fundadores do nosso país infelizmente projetaram um sistema que torna mais difícil que as mudanças sejam feitas como eu gostaria".

No momento, suas chances parecem estar melhorando. Uma pesquisa nacional feita pelo Washington Post e pela ABC News, divulgada na semana passada, mostrou que na Obama esta à frente de Mitt Romney.

Mas a sua capacidade de poder sair pelo país em campanha é sem dúvida mais limitada do que era há quatro anos, quando os eleitores tinham a oportunidade de projetar sobre ele quase tudo o que queriam.

Ele já não pode alegar que ficará acima das disputas partidárias, pois agora tem um histórico. Embora na primeira eleição tenha moldado seu destino, agora ele está preso a números mensais referentes à criação de empregos e o desemprego. A melhoria destes números será um fator decisivo na hora de os eleitores decidirem se ele melhorou ou não.

Por Richard W. Stevenson

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