O tremor de Wall Street deixa Harlem abalada

NOVA YORK ¿ Antes de sua economia mudar de direção em anos recentes, Harlem foi um estudo de caso em desinvestimento. Bancos estavam se recusando a fazer empréstimos ou abrir outras agências, cadeias de lojas nacionais não podiam ser atraídas por bairros ricos, serviços da cidade estavam atrasados e a vizinhança se tornou economicamente isolada do resto de Manhattan. Na última década, esse cenário deu lugar a um ressurgimento, assim que cadeias nacionais como Starbucks e American Apparel se mudaram para a Rua 125th e o preço das residências começou a crescer constantemente.

The New York Times |

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Mas o colapso das instituições financeiras como o Washington Mutual Saving Bank, Bear Stearns e Lehman Brother fizeram com que Harlem enfrentasse uma dupla perda: o desaparecimento de empresas que ajudavam a impulsionar o ressurgimento não irá somente tornar mais difícil para que executivos consigam empréstimos, como também irá levar a uma perda de milhões de dólares em contribuições de caridade feitas pelas mesmas companhias. Isso irá afetar tudo, desde a saúde de crianças e o conhecimento dos adultos até a conhecida noite amadora do Teatro Apollo.

O efeito que a falência dessas companhias causa no Harlem é um exemplo do longo ¿ e em alguns casos, inesperado- alcanço que Wall Street tem em toda a cidade, mesmo em vizinhanças com altas taxas de pobreza e onde relativamente poucas pessoas trabalham como corretor de fundos públicos ou banqueiros investidores.

As pessoas falam sobre a ambição de Wall Street, mas uma das coisas que muitas pessoas não entendem é que muitas organizações têm recebido contribuições da mesma Wall Street, disse Geoffrey Canada, presidente e executivo chefe da Zona de Crianças de Harlem, um dos maiores grupos privados não-lucrativos do bairro. A ausência deles nos deixa lutando para substituir o que tem sido um apoio muito significante.

As relações entre Harlem e as companhias se estendem do pessoal ¿ 240 funcionários do Lehman Brothers ajudaram a construir um prédio residencial de seis unidades e instruíram matemática às crianças todos os sábados - ao simbólico: Washington Mutual tinha seu nome na entrada do Apollo por ser o maior patrocinador da noite de amadores.

E há o estritamente financeiro: Bear Stearns fornecia importantes fundos para o Centro Harlem, de US$ 85 milhões, uma revenda e um complexo de escritórios na Rua 125th que inclui, entre outros negócios, uma agência do Washington Mutual.

Futuro incerto

Segundo observadores, o estreito mercado de crédito provavelmente terá outras consequências em Harlem, como, principalmente, uma diminuição da velocidade do desenvolvimento na economia, que poderia regular uma rápida valorização das propriedades da vizinhança.

Um dos fatores que causaram mudanças foi o alto preço das residências no resto da cidade, que levavam ao Harlem pessoas que em outra situação não morariam no bairro, disse Lance Freeman, professor de planejamento urbano na Universidade de Columbia e autor de There Goes the Hood, livro sobre a valorização das propriedades de Harlem e Clinton Hill no Brooklyn. Então se o preço das residências parar de crescer em outras partes da cidade poderia reverter ou estagnar alguns aspectos do ciclo de mudanças.

Muito dessa mudança, durante os últimos cinco anos, tem sido resultado de milhões de dólares de investimento privado, alguns de companhias de Wall Street. Nos últimos anos, tantos bancos ¿ mais de 15 ¿ surgiram ao longo da Rua 125th, que este ano a cidade aprovou a lei de divisão de áreas que limita a quantidade de bancos no local. A legislação também irá permitir que edifícios de escritórios comerciais com muitos andares e alguns 2.100 flats com novas taxas de mercado sejam construídos na Rua 125th, a principal artéria de Harlem.

Representantes da Lehman Brothers, Bear Stearns, Washington Mutual, Merrill Lynch e AIG ¿ instituições que afundaram de diversas formas nos últimos meses ¿ não retornaram ligações feitas à procura de comentários ou disseram que é muito cedo para determinar seus investimentos e estratégias filantrópicas em Harlem.

Proprietários de empresas na vizinhança, contudo, estão preocupados.

Lloyd Williams, presidente e executivo da Câmara de Comércio da Grande Harlem, apontou diversos sinais de problemas: o já alto nível de desemprego local está crescendo, empregos sazonais no Serviço Postal e lojas de departamento não se tornaram reais, os créditos para pequenos negócios têm feito tudo menos encolher e o trabalho de construção e revitalização feita com tijolos tem diminuído consideravelmente.

A outra maior preocupação é a perda de contribuições de caridade de milhões de dólares a cada ano, feitas pela indústria financeira à organizações comunitárias, incluindo escolas e hospitais.

W. Franc. Perry, presidente da Comunidade Board 10, que abrange o território do centro de Harlem, disse que muitos dos privilégios vieram apenas após anos pressionando as empresas.

Nós temos mantido essas empresas perto do fogo, dissemos-lhes que se querem seus dólares, vocês têm que nos ajudar, e eles têm ajudado, Perry disse. Agora, isso é tudo tão novo. Há tantas questões não respondidas, incluindo se eles continuarão investindo em Harlem ou não.

Por TIMOTHY WILLIAMS

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