O preço dos conflitos na Argentina

ROSÁRIO, Argentina ¿ Nas rodovias e auto-estradas do interior do país aumentava o número de caminhões carregados de grãos e gasolina no fim de semana, enquanto fazendeiros limpavam o caminho depois de entrarem em greve pela quarta vez em três meses.

The New York Times |

Enquanto aumenta na província de Santa Fé a eterna esperança de que o racionamento de comida e gasolina finalmente termine, o mais recente capítulo do drama político começa a se desenrolar em Buenos Aires, onde a presidente Cristina Fernadez Kirchner, preparada para guerra, encontrou-se com fazendeiros na segunda-feira, 23.

Espera-se que o congresso argentino inicie um espinhoso debate esta semana a respeito dos impostos sobre importações, motivo que atingiu em cheio os fazendeiros três meses atrás. Em uma concessão muito esperada, Kirchner, com a sua popularidade afundando, concordou em deixar que o congresso aprove ou rejeite o sistema de tributação móvel que ela impôs aos fazendeiros em março deste ano.

Mesmo que o congresso resolva a disputa sobre os impostos, o conflito já atingiu de maneira profunda a economia da Argentina, sua reputação internacional enquanto maior fornecedora de comida e a mente de 40 milhões de pessoas. 

Em apenas 100 dias, isso se tornou outro país, disse Cristian Zarate, um fazendeiro de Armstrong, cidade distante uma hora de Rosário, capital de Santa Fé.  Independente do que aconteça, os danos já estão feitos. 

Argentinos protestaram na semana passada devido à carência de comida nas províncias e ao início do racionamento em Buenos Aires. Apesar da tentativa de bloquear somente os caminhões carregando grãos para a exportação, caminhoneiros preocupados com a queda no rendimento, começaram uma greve própria no início do mês, causando falta de abastecimento nos mercados e ampliando o conflito político.

Racionamento nos mercados

Nós estamos cansados disso, disse Mercedes Alzogarau na última quinta-feira enquanto fazia compras em um supermercado de Abasto, bairro de classe média de Buenos Aires. Nós podemos comprar uma quantidade muito pequena de carne, não tem nada, nenhuma comida esses dias. 

Avisos do governo nos mercados de Buenos Aires advertem para a quantidade máxima de comida que pode ser comprada. As restrições permitiram Alzogaray comprar apenas dois pacotes de carne para sua família; normalmente ela compra seis ou sete, disse. 

O preço dos alimentos aumentou quando a greve dos agricultores começou, dobrando em alguns lugares e causando reações enérgicas por parte dos consumidores. No Mercado Central fora de Buenos Aires onde boa parte das frutas e vegetais é distribuída, o comerciante Javier Frazzetto, 30, disse que os negócios caíram pela metade desde março. As pessoa estão com muitas incertezas quanto aos alimentos, quanto ao dinheiro gasto com os alimentos.

Lembranças de 2001

Para muitos argentinos, a crise na agricultura movimenta as aterrorizantes lembranças da crise econômica de 2001, quando o valor da moeda local despencou em dias, levando muitos à fome.

Muitos argentinos, como Alzogary, acreditam que a inflação está fugindo do controle. Isso está causando um ciclo vicioso, disse Dante Sica, diretor do abeceb.com, uma empresa de consultoria de Buenos Aires. "A expectativa de inflação aumentou muito entre as pessoas, e o consumo está diminuindo, principalmente nas províncias.

Sica, estima que o preço dos alimentos aumentaram 30% em todo o país desde o ano passado, enquanto a inflação total ficou em torno de 20% - duas vezes mais do que o divulgado pelo governo.

Em províncias como Santa Fé e Córdoba, que abrigam boa parte da produção agrícola da Argentina, os pequenos mercados estão com as estantes vazias e as fábricas diminuíram a produção na medida em que os pedidos desaparecem.

Espera-se que economia argentina, que cresce em torno de 8% desde 2003, acalme agora. Sica prevê não mais que 6.5% de crescimento em 2008 e ainda menos em 2009. Alguns bancos internacionais, entre eles Barclays e JPMorgan Chase, também diminuíram suas previsão para o país este ano.

Reputação ameaçada

A Argentina também enfrenta desafios para dar garantir aos comprados de grãos, especialmente os asiáticos,  de que é um fornecedor confiável. Aproximadamente 60 navios estão aguardando nos portos argentinos na segunda-feira para receber soja e grãos. Muitos esperavam durante muitos dias pelo carregamento, com custos que chegavam a US$60 mil por cada dia de atraso.

A Argentina está perdendo muito rapidamente sua reputação de fornecedora confiável, disse W. Basse, presidente de AgResources, uma empresa de consultoria na área da agricultura, em Chicago.

As maiores empresas de grãos como a Cargill e a Bunge tentaram estocar grãos depois da primeira greve, mas eles subestimaram a intensidade dos conflitos, disse Basse. Foram quatro greves desde março. O volume de grãos entregues pelos caminhões no porto de Santa Fé nos últimos três meses diminuiu 42% desde o mês passado, disse Patricia Bergero, diretora assistente de estudos econômicos na Comissão de Comércio de Rosário.

As tentativas de Kirchner de resolver a situação só serviram para alimentar ainda mais os conflitos. Na última semana, apenas dois dias depois de milhares de pessoas participaram de protestos contra o governo em todo o país, a presidente atacou, em seu próprio protesto em Buenos Aires, os quatro principais líderes da associação dos agricultores, dizendo que são quatro pessoas em que ninguém votaria.   

Ela já havia se referido a eles como conspiradores de um golpe.
A presidente não fez nenhuma referencia aos proprietários de pequenas e médias fazendas que estão no centro do conflito. Eles alegam que os impostos estão espremendo seus lucros e aumento os custos dos fertilizantes e outros suplementos.  

Por ALEXEI BARRIONUEVO

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