O Novo Mundo do Japão oferece parte do passado

OSAKA ¿ Há um século, construtores urbanos, que observavam a terra não desenvolvida no sul de Osaka, criaram uma vizinhança que capturou a devoção do Japão ao ocidente e sua determinação em competir com ele como igual.

The New York Times |

A metade do sul da nova vizinhança seguiu os moldes de Nova York e a metade norte, seguiu os moldes de Paris. No meio, há um modelo da Torre Eiffel e no topo uma cópia de 75 metros do Arco do Triunfo, uma altura imponente. No local de observação, turistas podem olhar para baixo e ver como os três bulevares se espalham em ruas desde a torre até o elegante norte francês.

Ao sul, em meio à confusão e o tumulto da parte americana, pode-se ver um distrito de entretenimento com sua própria Coney Island, repleta com a Luna Park, centro de entretenimento que foi fechado em 1946. A vizinhança, criada em 1912, foi chama de Shin Sekai, cujo significado é Novo Mundo.

Shin Sekai teve altos e baixos durante décadas, incluindo uma depressão prolongada da qual a cidade começou a se recuperar nos últimos anos com costumes pouco usuais. Atualmente, a vizinhança que incorporou o glamour estrangeiro se tornou conhecida, devido diversas circunstâncias e um marketing esperto, por ser uma vizinhança com a essência conservadora japonesa e um pedaço da autêntica Osaka.

Este é o extremo sul de Osaka, disse Masaaki Nishigami, presidente de Tsutenkaku, companhia proprietária da torre (reconstruída após a Segunda Guerra Mundial sem a base do Arco do Triunfo).

Muitas partes da cidade estão se tornando muito parecidas com Tóquio, de acordo com Nishigami, utilizando a comparação mais ofensiva para Osaka, rival de Tóquio. Elas podem ser bonitas, ele disse, mas são poucas as características que ainda restam. E é por isso que Shin Sekai está no centro das atenções.

Os 38 acres de Shin Sekai apertam-se em pequenas lojas cujos donos moram na parte de trás do terreno ou no andar de cima. É um lugar onde residentes ainda conversam com estranhos e pode-se ouvir antigos neologismos que caíram em desuso, como a palavra abekku, originada do francês avec ou com, e que de alguma forma veio significar casal não casado no idioma japonês.

A vizinhança também está se beneficiando da explosão de variedades culinárias. Nos últimos anos, alguns executivos perspicazes, cuja maioria vem de fora da cidade, trouxeram velhos restaurantes especializados em espetos de carne e vegetais, um tipo de fast-food¬ sem sentido que possui favoritismo em Osaka e cabe particularmente bem na imagem de Shin Sekai. Com a ajuda de algumas celebridades locais, fizeram de Shin Sekai o lar do espeto frito, atraindo várias linhas de turistas nos fins de semana.

O velho e o novo

Então como uma vizinhança que simboliza o Novo Mundo passa a representar o Velho Mundo?

Nishigami disse que Shin Sekai, diferente de áreas ricas do norte, teve pouco desenvolvimento desde que foi reconstruída após a Segunda Guerra Mundial. Muito da cidade parece estar vivendo nos anos 50 e 60.

Contudo, a razão verdadeira pode ser encontrada em uma época muito mais distante. Os desenvolvedores originais da vizinhança nunca tiveram sucesso na construção da Nova York e da Paris de Osaka e nunca atraiu a multidão rica que esperavam, principalmente por causa da localização. A área foi por muito tempo uma das regiões mais pobres de Osaka. Atualmente, apenas o sul de Shin Sekai permanece, com Airin, o maior distrito de operários diurnos do país, e Tobita Shinchi, um distrito com luz vermelha onde as mulheres esperam por clientes ajoelhadas na entrada das casas feitas de madeira.

Esse era um lugar de operários, disse Kojiro Onishi, 57, dono da tabacaria na parte nova yorquina de Shin Sekai.

Por causa da presença dos trabalhadores diurnos, Shin Sekai desenvolveu a reputação de ser uma vizinhança perigosa, suja e mal cheirosa, Onishi disse no Sennariya, uma cafeteria perto de sua loja.

O dono de Sennariya, Toyoko Tsunekawa, 65, ficou confuso com os jovens turistas, ou mesmo com jovens abekku em encontros, que agora frequentam sua cafeteria. Talvez eles estivessem mergulhados em suas enfeitadas paredes de madeira onde há pôsteres de impressionistas franceses emoldurados ou o grande moedor de café que precedeu a chegada de Tsunekawa como uma jovem noiva há 50 anos.

Todos os nossos clientes costumavam ser bêbados, disse ela com uma risada. Primeiramente, fiquei chocada, porque cresci como filha de um trabalhador.

Se a Nova York de Shin Sekai está cheia de abismos, Paris logo ao norte se tornou conhecida por sua parte agradável, embora bem japonesa. Antes da presença de um casal há décadas atrás, havia muitos estabelecimentos de gueixas pelas ruas.

Em uma das ruas, Ayako Kinugawa, 73, ainda vive nesse bar de duas histórias, o qual ela comandou até o final dos anos 80. Executivos ou donos de loja vinham beber na companhia de gueixas nos quartos privados dos bares, que agora são usados como armários.

Eu costumava ser tão ocupada, Kinugawa disse. Todo dia por volta das 4 horas da tarde, eu colocava meu kimono e começava a receber os clientes, sejam bem-vindos!

Atualmente, a explosão de turistas em Shin Sekai tem beneficiado muito a metade nova yorquina, com sua alta concentração de restaurantes de espetos fritos. A maioria dos turistas visita Paris no caminho para Nova York.

Chamamos isso de guerra civil norte-sul, disse Tadayoshi Kondo, 71, presidente de uma associação de rua.

Alguns proprietários de loja na parte de Paris disseram que estavam contentes em manter seus antigos clientes. Quando os estabelecimentos de gueixas começaram a ser fechados, uma porção de pequenos bares gays tomou seus lugares.

Há uma sensação de liberdade aqui, disse Asako Hamasaki, 78, que conversava em uma tarde com um proprietário de um bar gay aposentado, do lado de fora de seu lindo salão de beleza, Safuran. Apesar de agora seu negócio ser sossegado, houve uma época em que gueixas vinham até ela para arrumar o cabelo.

Ela também teve disponibilidade para levar o tipo de vida que queria em Shin Sekai. Quando era jovem, eu queria muito casar com um homem alto e bonito, ela disse. Embora seu primeiro marido fosse baixo, ele era um belo líder de um grupo viajante de teatro. No final, ele deixou o grupo e fugiu com outra mulher, Hamasaki disse. Seu segundo marido morreu de câncer em maio.

Eu nasci em Shin Sekai, eu cresci aqui e pretendo morrer aqui, ela disse. E há muitas pessoas que pensam como eu.

Por NORIMITSU ONISHI

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