O longo caminho para um governo no Iraque

Apesar de manobras políticas, recontagem descarta fraude e confirma vitória de coalizão multissectária liderada por Ayad Allawi

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Ayad Allawi em Bagdá (10/05/2010)
Apesar de manobras políticas dúbias, especialmente uma tentativa de eliminar candidatos sunitas, o relato das eleições parlamentares iraquianas foi animador.

A comissão eleitoral afirmou no domingo que, após uma análise manual dos votos depositados em Bagdá nas eleições de 7 de março, não encontrou qualquer sinal de fraude generalizada. Ela afirmou também que a coalizão multissectária liderada por Ayad Allawi, antigo primeiro-ministro interino, havia sim derrotado a coalizão de maioria xiita do primeiro-ministro Nuri Al-Maliki com uma diferença de meras duas cadeiras - 91 a 89.

Os candidatos ainda têm tempo para apelar à Suprema Corte do Iraque, mas o relato foi considerado uma pedra fundamental para a criação de um novo governo.

A ausência de uma óbvia manipulação eleitoral - que manchou as recentes eleições no Afeganistão - é um testamento para os eleitores iraquianos e seu instável, porém mais desenvolvido, sistema político.

Isso foi reforçado na segunda-feira, quando um recurso tribunal rejeitou a desqualificação de nove candidatos vencedores - sete deles da chapa de Allawi - por supostos elos com o banido partido Baath, do ex-ditador Saddam Hussein.

Essas decisões sugerem que o Iraque está a caminho de formar um governo novo e legítimo. Por isso, é decepcionante que os políticos iraquianos ainda falem sobre uma prolongada disputa pela próxima liderança do país. Ataques feitos por supostos insurgentes sunitas mataram dezenas de pessoas desde a eleição.

Oficiais americanos e iraquianos precisam se concentrar em garantir uma transição rápida e limpa para que as tropas americanas possam ser retiradas, como previsto, até ao final de agosto.

Há muito trabalho sério e difícil a ser feito pelo próximo governo do Iraque, como aprovar uma nova lei do petróleo e resolver o futuro da contestada cidade de Kirkuk.

Apesar de sua coalizão Iraqiya, de apoio sunita, ter conquistado a maioria dos votos, Allawi está longe de se tornar o próximo primeiro-ministro. Isso porque a coalizão de Al-Maliki tem se alinhado com os outras grandes coalizões xiitas, que são amigáveis ao Irã.

Com quatro cadeiras para uma maioria, esse é o maior bloco do novo Parlamento. (Al-Maliki parece ter perdido o entusiasmo para desafios eleitorais depois de ter forjado essa aliança.)

Líderes iraquianos devem olhar para além de suas bases étnicas e sectárias e demonstrar a capacidade e visão de reger toda a população. Infelizmente, os iraquianos votaram alinhados ao sectarismo e principalmente de acordo com sua etnia. Mas eles também deram a Allawi uma significativa representação que precisa ser refletida no governo.

Os sunitas precisam de um motivo para continuar no processo político e não voltar à violência como muitos fizeram após as últimas eleições parlamentares em 2005.

*Editorial

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