O fim do fim da revolução

Por ROGER COHEN Em meu primeiro dia em Havana, perambulei pelo Malecon, o passeio urbano à beira-bar mais movimentado do planeta. Um vento norte rugia enquanto ondas quebravam violentamente sobre o dique de pedras construído em 1901, durante o curto período de domínio americano.

The New York Times |

Eu estava praticamente sozinho naquela manhã de domingo na capital cubana de 2,2 milhões de habitantes. Uns dois ou três carros passavam a cada minuto, geralmente os lindos rabo de peixe dos anos 50, velhos e extravagantes Studebakers e Chevrolets. Eu olhava o oceano ao longe buscando por um barco, em vão.

Não era sempre assim a apenas 90 milhas dali, na costa da Flórida. Em 1859, o advogado americano Richard Henry Dana Jr., autor do clássico To Cuba and Back, velejou até Havana. Mas tarde ele escreveu: Que mundo de navegação! Os mastros formam um cinturão de floresta densa margeando a cidade, todas as embarcações com a proa voltada para a rua, como cavalos em seus estábulos. No século seguinte, Cuba se tornaria o parque de diversões de inverno para os americanos. A máfia adorava a ilha, a maior do Caribe, assim como os empresários americanos que controlavam a indústria açucareira e muito mais.

Entretanto, no dia 1 de janeiro de 1959, Fidel Castro derrubou o ditador Fulgencio Batista. Era o fim da era da farra e do comércio em Cuba para os americanos. Centenas de milhares de cubanos fugiram do domínio comunista para Miami, fazendo desta a segunda principal cidade Cubana.


Fidel liderou a guerrilha contra Fulgêncio Batista / AP

O vazio que via diante dos meus olhos capturou a sombra confinadora da cortina tropical de Fidel. Ao longo de meus dias seguintes na ilha, me dei conta que os cubanos que se empoleiravam no muro à beira-mar raramente olhavam para o mundo exterior. Quando perguntei a Yoani Sanchez, uma blogueira dissidente , sobre minha constatação, ele me respondeu: Vivemos de costas para o mar porque ele não nos conecta, ele nos encarcera. Se fosse permitido comprar barcos as pessoas iriam para a Flórida. Como escreveu um de nossos poetas: 'Fomos deixados com a circunstância infeliz de estar cercado de água por todos os lados'.

Não é natural conceber que o mar e o horizonte longínquo imponham limites. Aos 82 anos, o enfermo Fidel ainda mantém os cubanos sob rédeas curtas, mesmo tendo formalmente passado a presidência em 2006 para Raul Castro, seu irmão mais novo.

EUA x Cuba

E o confronto entre os EUA e Cuba se encontra em um tenso estado de paralisia infrutífera, o qual Barack Obama prometeu superar . As relações diplomáticas entre os dois países têm sido severas desde 1961: um embargo comercial americano vem vigorando por quase todo este período, mesmo que e a Guerra Fria já tenha terminado quase duas décadas atrás.

Mudar isso não vai ser fácil. Ainda no Malecon, me encontrei com Josefina Vidal, diretora do departamento de América do Norte do Ministério de Relações Exteriores de Cuba. Sua raiva me pareceu tão vivaz quanto seu elegante vestido em tom violeta.

Os Estados Unidos querem punir Cuba com seu bloqueio, disse-me ela. Eles não nos aceitam da maneira que somos. Eles não conseguem perdoar nossa independência. Eles não conseguem nos deixar escolher nosso próprio modelo. E agora vem Obama dizendo que irá suspender algumas restrições, mas, para que possa seguir adiante, é preciso que Cuba mostre que está fazendo mudanças democráticas. Bem, nós não aceitamos que Cuba tenha de mudar para merecer manter relações normais com os Estados Unidos. 

Durante a campanha presidencial, Obama anunciou uma nova estratégia, centrada em duas mudanças imediatas: a suspensão de todas as restrições de viagens para visitas familiares (limitadas por Bush a uma a cada três anos) e a liberação de remessas familiares (atualmente limitadas a US$ 300 por trimestre por domicilio recebedor).

Obama também falou de diplomacia direta, dizendo que ele próprio estaria preparado para encabeçar este processo em um momento e local de minha escolha, contanto que houvesse avanço para os interesses americanos e para a causa da liberdade para o povo cubano. Ele disse que sua mensagem para Fidel e Raul seria: Se vocês derem passos importantes em direção à democracia, começando com a libertação de todos os presos políticos, daremos passos para começar normalizar as relações entre os dois países.

Cuba se encontra em um importante momento de mudança de gerações: daquela formada por Fidel para aquela que mal o conhecerá. Aproveitar esta oportunidade vai demandar um pouco de humildade por parte dos americanos.

As raízes do conflito remetem à intervenção militar dos EUA, ocorrida em 1898, que deixou os cubanos com a leve impressão de que eles tinham sido destituídos da independência conquistada da Espanha a duras penas. O que se seguiu foram quatro anos de controle direto dos EUA e o surgimento de Cuba como uma república quase independente em 1902 ¿ quase, pois através do dispositivo legal denominado Platt Amendement os Estados Unidos mantiveram o direito de intervir nos negócios da ilha. Cuba também foi levada a ceder eternamente a Baía de Guantánamo, uma área de 45 milhas quadradas localizada no sul da ilha.

Esta é a história que permitiu a Fidel alegar que sua revolução, na verdade, foi uma segunda guerra de independência. Esta é a história que causa reviravoltas em cabeças racionais de Washington e Havana.

Embargo e racionamento

A Rua Lealtad parte do bairro de Malecon e chega a um distrito densamente habitado chamado Centro Habana. Parei em um armazém que vende alimentos racionados - frango, ovos e peixe - que se encontrava completamente vazio. Antonio Rodriguez, o amável cubano de 50 anos que cuida do armazém, me explicou o funcionamento do racionamento.

Todo mês, cada cubano tem o direito de adquirir 10 ovos (os cinco primeiros pelo valor de 0,15 pesos cada e os outros cinco por 0,90 pesos cada); meio quilo de frango por 0,70 pesos; meio quilo de peixe com cabeça por 0,35 pesos; e 250 gramas de um substituto de picadinho de carne por 0,17 pesos. Com o dólar cotado a 27 pesos, o lote todo não saia por mais de 25 centavos de dólar.

Isto pode parecer um bom negócio, mas tem ressalvas. O salário mensal médio é de cerca de US$ 20. Perguntei a Rodriguez quando o frango e os ovos iriam chegar. Sei lá, disse ele.

Outro homem se aproximou. Isso tudo é por causa do bloqueio dos Estados Unidos, disse Luiz Jorrin, apontando o dedo para mim e usando o termo exagerado que os cubanos preferem para definir o embargo. Olhe para a crise financeira de seu país! Talvez vocês consigam superá-la com o tempo. Bem, nós também vamos superar isso com o tempo. Não acredito em capitalismo, é uma coisa destrutiva! Veja o que ele causou na África e na América Latina!.


Carros antigos e cartazes da revolução fazem parte da paisagem cubana / AP

Aquilo passava da conta para Javier Aguirre, o camarada magro que ajudava Rodriguez. Estamos naufragados e depois de três furacões afundamos ainda mais, disse ele. Simplesmente não acredito no sistema. Dê-me a Suíça! De todos os cubanos que partiram para os Estados Unidos, quantos querem voltar?.

A pergunta levou a conversa ao silêncio imediato. O próprio Aguirre já tinha tentado escapar e por duas vezes fora pego: uma pelos cubanos e outra pela Guarda Costeira dos EUA. Atualmente a maioria dos cubanos que alcança o solo americano é autorizada a ficar, enquanto grande parte daqueles interceptados no mar são repatriados ¿ prática conhecida como pé seco, pé molhado. Vai saber...

Aquela conversa que tive em frente à pequena loja me pareceu bastante típica: o diálogo franco e aberto, a menção ao embargo americano como a fonte da miséria da ilha e a referência ao colapso da economia global. É preciso dizer que Cuba é um dos pouquíssimos lugares do mundo que praticamente não foi afetado pelo derretimento do índice Dow Jones.

Bagunça na economia

Entretanto, a economia centralizada cubana é uma bagunça. O país tem duas moedas, uma para o comunismo e outra para um capitalismo limitado, dominado pelo Estado. Os pesos recebidos através do salário não podem comprar nada além de itens racionados ou indesejáveis. Por outro lado, os pesos conversíveis atrelados ao dólar, conhecidos por CUCs, podem ser usados para adquirir produtos estrangeiros. 

Passe em frente a uma loja mal iluminada, onde a moeda aceita é o peso, e você provavelmente verá uma roda de bicicleta, um sutiã amarelado ou um jogo de colheres de plástico. Passe em frente a uma loja onde a moeda é o peso convertido e você verá celulares, garrafas de uísque Jameson e de cerveja Heineken dispostas em um ambiente claro e refrigerado. O resultado disso é que muitos cubanos passam a vida toda se virando para conseguir ingressar na economia do peso convertido, que depende basicamente de ter acesso a visitantes estrangeiros.

O governo cubano me recebeu com cordialidade. Fui escoltado a algumas reuniões oficiais, por outro lado fui deixado circular sem um vigia (pelo que eu saiba) para fazer o que quisesse. Um de meus compromissos oficiais foi com Elena Alvarez, que tinha 15 anos quando a revolução de Fidel se instalou e hoje, aos 65 anos, ocupa um cargo de alto escalão no Ministério da Economia.

A seguir, relato o que ela quis me fazer entender. A Cuba da época da revolução era uma das sociedades mais injustas, desiguais e exploradas do planeta. O índice de analfabetismo beirava os 40%, um quarto das terras de maior valor estava nas mãos dos EUA e uma burguesia corrupta mandava em tudo e todos.

Alvarez me forneceu alguns dados. Na época da revolução, havia 6 mil médicos em Cuba; hoje eles são quase 80 mil para uma população de 11,3 milhões - uma das taxas per capita mais elevadas do mundo. O embargo dos EUA custou a Cuba cerca de US$ 200 bilhões em termos reais.

Saúde e educação

Apesar da escassez, em grande parte atribuída ao embargo, trata-se de uma sociedade que quer proteger a todos. O sistema de racionamento garante que todo cidadão tenha as necessidades básicas. Todo mundo recebe alimentação a baixo custo no trabalho. Saúde e educação gratuitas representando um salário mensal de US$ 20 não é a maneira correta de ver a qualidade de vida cubana.

O sistema produziu resultados. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a expectativa de vida para homens e mulheres em Cuba é de 76 e 80 anos, respectivamente, nível similar ao dos EUA. Os dados comparativos no Haiti são de 59 e 63 anos, e na República Dominicana são de 66 e 74 anos. O analfabetismo foi eliminado. Estatísticas da ONU ¿ Organização das Nações Unidas - demonstram que 93,7% das crianças cubanas completam o ciclo secundário; muito acima dos índices americanos ou de qualquer outro país caribenho.

Isto levanta uma questão: por que educar tão bem as pessoas e mais tarde negar a elas o acesso à internet, viagens e a oportunidade de utilizar suas habilidades? Porque dar a elas uma excelente educação e lhes negar a vida? Porque não oferecer, pelo menos, o modelo chinês ou vietnamita, com uma economia de mercado sob o controle de um único partido?

Alvarez respondeu que o mercado tinha algum espaço. Ela insistiu: Não somos fundamentalistas.

Será que Fidel realmente empreendeu a guerra de guerrilhas nas montanhas de Sierra Maestra para que inúmeros cubanos talentosos acabassem desocupados, tramando maneiras de escapar?

Alvarez admitiu que os desafios eram enormes. Ela destacou a joint-venture de exploração de petróleo na costa norte e a crescente economia do conhecimento, que já produziu vacinas e medicamentos patenteados vendidos no mundo todo. Cuba iria agora exportar produtos, como os 30 mil profissionais da área médica enviados para a Venezuela em um acordo de permuta inovador - que traz 90 mil barris de petróleo por dia.

Somos um exemplo para os outros, disse ela, um exemplo para todos aqueles que buscam uma alternativa ao capitalismo.

Eu certamente percebi algo difícil de quantificar, um tipo de consciência socialista, especialmente entre os médicos. Conversei com o Dr. Juan Carrizo, reitor da Escola Latino Americana de Medicina, fundada uma década atrás com o intuito de educar médicos sem condições financeiras suficientes para cursar uma universidade em outros países das Américas. Ele me falou sobre o direito universal à saúde como a nova bandeira humanitária da revolução cubana: fora com as guerrilhas angolanas, dentro com a brigada médica. Dentre os estudantes há mais de 100 cidadãos norte-americanos.

Repressão na ilha

Os dissidentes de Cuba são marginalizados. A imprensa é amordaçada. O veículo impresso do regime, o jornal Granma, é um estudo em oficialês do Estado totalitário, ao estilo George Orwell. A televisão estatal é uma máquina grandiloquente de panfletagem política.


O jornal "Granma" é o veículo de imprensa oficial do Estado / AFP

Há uma repressão muito inteligente aqui, uma repressão científica, contou-me Yoani Sanchez, dissidente cujo blog é atualmente traduzido em 12 idiomas. Eles nos mataram enquanto cidadãos, para que não precisem nos matar fisicamente. A polícia está dentro de nosso cérebro, nos censurando antes mesmo de proferirmos uma idéia crítica.

Aos 33 anos, Sanchez representa algo novo: a dissidência digital. As autoridades parecem não ter certeza de como lidar com isso. Sanchez, uma mulher pequena e vivaz, iniciou seu blog em 2006. Hoje suas dissecações mordazes dos infortúnios da vida cubana têm um vasto séquito de seguidores internacionais ¿ em tais proporções que os serviços de inteligência sabem que se tocarem em mim haverá uma explosão online.

Mesmo assim, eles a assediam. Quando ganhou o prestigiado prêmio espanhol Ortega Y Gasset por jornalismo digital em abril, a blogueira foi impedida de receber o prêmio pessoalmente.

Perguntei se ela era otimista em relação a mudanças. Ela disse ser uma pessimista em curto prazo, Porque a apatia entrou em nossa corrente sanguínea e um monte de gente está simplesmente esperando a morte de um bando de líderes de mais de 70 anos. Mas, ela também afirmou ser otimista em longo prazo, Pois somos um povo criativo e capaz - sem quaisquer conflitos étnicos, religiosos ou de outros tipos - que desenvolveu uma alergia ao que temos: um sistema totalitário.

Sanchez me fitou ¿ seus olhos castanhos refletindo intensidade e inteligência com um toque de humor em sua superfície. Acho que vai haver alívio quando Fidel morrer, disse ela. Iremos respirar aliviados. O peso místico e simbólico de sua presença é muito forte, para seus oponentes e até para seus partidários. É difícil consertar seus erros enquanto ele ainda esta presente.

Quando voltei para a Rua Lealtad, deparei-me com um alvoroço total: tinha chegado o frango! Rodriguez estava desembalando cochas de frango em pedaços. Peito de frango só é vendido no mercado de peso convertido. Ele segurava a caixa com um grande sorriso estampado no rosto. Na embalagem estava escrito: Made in USA.

Época de mudanças

Desde o ano 2000, quando o congresso americano se curvou diante do lobby dos fazendeiros, vender produtos agrícolas e alimentícios para Cuba se tornou legal. O que significa qualquer coisa, desde coxas de frango até postes telefônicos. Na verdade, os Estados Unidos são atualmente os maiores exportadores de alimentos para Cuba, com ganhos que superam os US$ 600 milhões anuais. O país está entre os cinco maiores parceiros comerciais de Cuba (os outros são a Venezuela, a China, a Espanha e o Canadá).

Tanta coisa em função do embargo: ele é tão arbitrário quanto a política do pé seco, pé molhado em relação aos cubanos em fuga. Enquanto a América tirou centenas de milhões de dólares de Cuba, ela mandou de volta 2.086 refugiados por via marítima no ano fiscal de 2008. Princípios não têm nada a ver com a atual política externa em relação a Cuba. Tudo não passa de uma bagunça incoerente.

Obama deveria propor a abertura total das relações diplomáticas com Cuba imediatamente. Isto poria pressão no país e, caso a oferta fosse aceita, permitiria que negociações conduzidas pessoalmente começassem no alto escalão. Nestas conversações, Obama não deveria ficar tocando na mesma tecla dos princípios democráticos, pelo menos não imediatamente, mas deveria insistir na libertação de todos os presos políticos como primeiro passo em direção à suspensão do embargo. 

Tony Lake, conselheiro sênior em políticas estrangeiras da campanha de Obama, disse: Com a nova maioria democrática no Congresso, e alguns movimentos cubanos claros em relação aos direitos humanos, seria possível alterar a Helms-Burton, a legislação que determinou o formato da política externa americana em relação a Cuba desde 1996. Depois disso, a bola iria continuar rolando com uma força cinética que o passar das gerações deveriam sustentar.

(Roger Cohen, colunista dos jornais The International Herald Tribune e The New York Times, é o autor de "Hearts Grown Brutal: Sagas of Sarajevo).

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