O fim da privacidade: na web, um beijo não é apenas um beijo

Casal alçado à fama instantânea por se beijar durante tumultos em Vancouver prova que a internet é o lugar onde o anonimato morreu

The New York Times |

Pouco tempo atrás, os teóricos diziam que a internet era um lugar onde o anonimato prosperaria. Agora, ao que parece, é o lugar onde o anonimato morreu.

Uma usuária do transporte público de Nova York que discutiu com um motorista de ônibus em 14 de junho – e se defendeu perguntando "Você sabe quais escolas frequentei e quão bem-educada sou?" – foi publicamente identificada após um homem publicar o vídeo da briga no YouTube. A mulher, que frequentou a Universidade de Nova York, foi ridicularizada por um grupo de blogueiros, um dos quais apelidou o episódio de "Nome e Vergonha na Web".

Mulheres que trocaram mensagens com o ex-deputado democrata Anthony Weiner também aprenderam rapidamente que os usuários da internet podem farejar todos os detalhes da vida online de uma pessoa. O mesmo aconteceu com os homens que atearam fogo a carros e saquearam lojas depois da final da Copa Stanley em Vancouver em 16 de junho, quando foram identificados e marcados por conhecidos online.

AFP
Após ser flagrado nas ruas de Vancouver em meio a tumulto de torcedores, casal é alçado à fama instantânea (16/06)
A inteligência coletiva dos mais de 2 bilhões de usuários da internet e as impressões digitais que todos deixam pela rede podem ser combinadas para facilitar a identificação dos protagonistas de vídeos embaraçosos, fotos íntimas e emails indelicados, quer a fonte queira ou não. Essa inteligência faz com que a esfera pública se torne mais pública do que nunca e às vezes leva a vida das pessoas ao público forçosamente.

Para alguns, isso poderia evocar comparações com os agentes de governos repressivos do Oriente Médio que monitoram protestos online e retribuem offline. Mas os efeitos positivos podem ser inúmeros: a criminalidade pode ser investigada, falsas alegações podem ser refutadas e indivíduos podem se tornar ícones da internet.

Quando o fotógrafo freelance Lam Rich editava suas imagens dos distúrbios em Vancouver, viu várias fotos de um homem e uma mulher, cercados por policiais da tropa de choque, em um beijo que ignorava que qualquer um estivesse olhando . Quando as fotos foram publicadas, muitos tentaram identificar o “casal do beijo”.

Em menos de um dia, parentes do casal haviam indicado suas identidades e lá estavam eles, segunda-feira, no programa Today: Scott Jones e Alex Thomas, a mais recente prova de que, graças à internet, todo dia pode ser aquele que o tornará famoso no mundo todo. "É surpreendente que houvesse alguém lá para tirar a foto", disse Thomas no programa "Today". O "casal do beijo" provavelmente terá apenas um tweet de fama, mas vale ressaltar que eles foram rastreados e encontrados.

Essa erosão do anonimato é um produto da generalização dos serviços de mídia social, câmeras de celulares mais baratos, sites que permitem a publicação gratuita de fotos e vídeos e talvez o mais importante de tudo, uma mudança na opinião das pessoas sobre o que deveria ser público e o que deveria ser privado. Especialistas dizem que sites como o Facebook, que exigem identidades reais e incentivam a partilha de fotografias e vídeos, têm apressado essa mudança.

"Os seres humanos não querem nada além de se conectar, e as empresas que estão se conectando conosco eletronicamente querem saber quem está dizendo o quê, onde e como", disse Susan Crawford, professora na Escola de Direito Benjamin N. Cardozo. "Como resultado, estamos mais conhecidos do que nunca."

Essa crescente "situação pública", como é chamada às vezes, vem com consequências significativas para o comércio, para o discurso político e para o direito das pessoas comuns à privacidade. Há esforços por parte dos governos e corporações em criar sistemas de identidade online. A tecnologia desempenhará um papel ainda maior na identificação de indivíduos antes anônimos: o Facebook, por exemplo, já usa tecnologia de reconhecimento facial que é alarmante para os reguladores europeus.

Após o tumulto em Vancouver, os moradores não precisaram de tecnologia de reconhecimento facial – eles simplesmente observaram sites de mídia social para tentar identificar alguns dos envolvidos, como Nathan Kotylak, de 17 anos, uma estrela da equipa júnior de pólo aquático do Canadá.

No Facebook, Kotylak pediu desculpas pelos danos que causou. A identificação não afetou apenas ele, mas sua família: a mídia local informou que seu pai, um médico, viu o seu ranking em um site de qualificação da prática médica, o RateMDs.com, cair depois que as pessoas viram comentários sobre o envolvimento de seu filho no tumulto. Outras pessoas posteriormente usaram o site para defender o médico e melhorar sua classificação.

Previsivelmente, houve uma resposta à identificação das pessoas envolvidas no tumulto movido a álcool. Camille Cacnio, uma estudante em Vancouver, que foi fotografada durante o tumulto e admitiu roubo, escreveu em seu blog que a "caça às bruxas do século 21" na internet é "uma outra forma de assédio moral."

Na área de Nova York, a passageira que foi alvo de escárnio online na semana passada encerrou suas contas no Twitter e LinkedIn depois que seu nome passou a circular em blogs. Apesar de a pessoa que originalmente publicou o vídeo feito com um celular o ter removido, outras pessoas rapidamente o republicaram, dando vida nova à história. A pessoa que publicou o vídeo originalmente permanece anônima, porque sua conta do YouTube foi encerrada.

A meio mundo de distância, em países do Oriente Médio como Irã e Síria, os ativistas conseguiram identificar, por vezes, vítimas de violência ditatorial por meio de vídeos publicados anonimamente no YouTube.

Eles também conseguiram identificar falsificações: em um caso amplamente divulgado neste mês, um blogueiro que afirmou ser uma lésbica sírio-americana, que adotava o nome " A Girl Gay in Damascus " (Uma Jovem em Damasco, em tradução literal) foi desmascarado como o americano Tom MacMaster.

A investigação foi liderada por Andy Carvin, um estrategista da NPR que tem exaustivamente coberto os protestos no Oriente Médio no Twitter. Quando algumas de suas fontes disseram desconfiar da identidade do blogueiro, "só comecei a fazer perguntas no Twitter e no Facebook”, lembrou Carvin na CNN. "Algum de vocês a conhece em pessoa? Alguém a conhece? Quanto mais perguntava, menos descobria, porque ninguém a conhecia, nem mesmo os jornalistas que supostamente a entrevistaram pessoalmente.”

Carvin, seus seguidores online e outros utilizaram fotos e dados de registro do servidor para ligar o blog à esposa de MacMaster.

"Publicidade" – algo normalmente associado com celebridades – "não é mais escassa", escreveu Dave Morgan, presidente-executivo da Simulmedia, em um ensaio publicado neste mês. Ele postulou que, como a internet "não esquece" as imagens e momentos do passado, como uma explosão em um trem ou um beijo durante uma rebelião, "a realidade de um mundo público inescapável é um problema sobre o qual todos ainda vamos ouvir falar, e muito”.

*Por Brian Stelter

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