O doído resgate de mulheres vítimas de tráfico na Romênia

Por mais de 10 anos, psicóloga tem tirado moças das mãos de traficantes, oferecendo abrigo e apoio para reconstruírem vida

The New York Times |

A jovem de 15 anos de idade havia sido “treinada” na prostituição em uma boate na cidade romena de Calarasi. Agora, traficantes sexuais estavam prestes a vendê-la a um bordel turco por US$ 2.800.

Iana Matei, a principal defensora de vítimas do tráfico da Romênia, fez contato com a menina e se ofereceu para esperar fora da boate em seu carro para levar a adolescente para longe quando ela saísse para fumar um cigarro. Mas a menina havia tentado fugir antes e foi espancada. Iana não tinha certeza se ela teria coragem de tentar novamente.

Mas ela apareceu, correndo em direção ao carro e entrando no banco de trás. E o problema veio poucos minutos depois. Quando Iana ligou o motor e disparou por ruas desconhecidas, preocupada que os traficantes as seguiriam, ela ficou totalmente perdida.

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Iana Matei, ativista em prol das mulheres vítimas de tráfico, eu seu escritório na Romênia
“Eu gritava para ela me dizer para onde ir”, disse Iana. “E ela não estava sendo muito útil e eu não estava sendo muito legal com ela. E, finalmente, parei o carro e olhei para trás e vi seu rosto...Percebi que era eu quem estava sendo burra. Ela estava tão assustada, não havia nenhuma maneira de poder me ajudar”.

Por mais de 10 anos, Iana, psicóloga por formação, tem tirado moças das mãos de traficantes, às vezes encenando sequestros, às vezes oferecendo-lhes um lugar para ficar, curar e reconstruir suas vidas.

O tempo não entorpeceu sua indignação. Até poucos anos atrás, seu abrigo era o único na Romênia para as vítimas dos traficantes, apesar do país ser um centro para o comércio de meninas há décadas. Muitas vezes, ela contou, os romenos veem as jovens como nada mais do que prostitutas. “Elas são vítimas”, disse ela. “Elas são jovens demais para ser outra coisa”.

Histórico familiar

Quase sempre de famílias pobres e abusivas, as meninas às vezes são vendidas por seus próprios pais. Algumas são atraídas a países estrangeiros com promessas de emprego ou de casamento. Mas uma vez fora do país, são vendidas a quadrilhas e trancadas em bordéis ou forçadas a trabalhar nas ruas.

Iana faz pouco para disfarçar o seu desgosto com os sistemas legais no mundo que não levam o tráfico suficientemente a sério.

“Quando esses caras são pegos, eles pegam o quê? Seis anos? Talvez. Eles destroem 300 vidas e ficam seis anos na cadeia. Você trafica drogas e pega 20 anos. Há algo que não está certo”, reclamou.

Em uma tarde de sábado, Iana estava hospedada em um pequeno hotel nos arredores de Constanta, certificando-se de que duas jovens moradoras de seu abrigo em Pitesti, na Romênia, estavam disponíveis para participar de um filme sobre o tráfico que está sendo feito pelo diretor romeno Cristian Mungiu. Mungiu ganhou aclamação da crítica há três anos pelo filme “Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias”, sobre o aborto nos últimos dias do comunismo.

Enquanto esperava as meninas, ela fumava, ocasionalmente olhando para o banco de trás para cuidar dos gêmeos de 3 anos que adotou recentemente. Os gêmeos nasceram de uma vítima de tráfico que os abandonou. “Algumas pessoas me dizem que eles são muito sortudos por me ter, mas eu é que sou sortuda. Eles são a minha alegria”, disse.

Aos 52 anos, Iana parece ter a energia de uma adolescente e é muito irreverente. “Eles oferecem 10 dias para a ‘reintegração’”, disse ela sobre um dos esforços mais recentes do governo romeno em fornecer abrigo para vítimas do tráfico. “Isso é muito bom, você não acha? Dez dias!”.

Estado

Ela contou também que a maioria das jovens que chegam ao seu abrigo, onde podem permanecer por até um ano, estão em um estado terrível. “Elas não se sentem mais normais e até vestir-se é algo difícil”, disse. “Elas não conseguem escolher suas roupas. Elas querem saber se vão conseguir fazer parte da sociedade”.

Poucas vezes, traficantes aparecem no abrigo de Iana – uma casa em um bairro residencial rodeada por um muro alto – tentando obter as meninas de volta. Certa vez, disse Iana, ela os confrontou no exterior da rua estreita, usando seu carro para bloquear o veículo deles. “Depois disso, eu me perguntei o que eles devem ter pensado”, disse. “Lá estava eu, de cabelo loiro curto, idade avançada e gritando igual louca. Tive muita sorte do segurança aparecer em menos de um minuto”.

Vida

Iana Matei começou a vida pensando que seria designer. Ela se casou, teve um filho e se divorciou. Em 1990, conforme a Romênia emergia do comunismo, ela participou de protestos de rua diariamente. Mas um dia, quando a polícia chegou, ela largou a bolsa no caos. Quando ligou para casa na manhã seguinte, a polícia já havia estado lá.

Ela decidiu fugir do país, andando sozinha às margens de um rio na direção da ex-Iugoslávia, caminhando durante a noite e dormindo durante o dia. Quando finalmente conseguiu que seu filho se juntasse a ela, resolveu se estabelecer na Austrália. Lá, formou-se em psicologia e trabalhou com crianças de rua.

De volta

Mas em 1998, depois de levar seu filho para a Romênia em férias, ela decidiu se mudar de volta e começou a trabalhar com crianças de rua no país. Logo, a polícia ligou pedindo um favor. Ela poderia levar três jovens prostitutas que tinha acabado de encontrar a um médico? Depois disso, ela deveria apenas liberá-las.

“Eu estava irritada até que cheguei lá e vi essas meninas”, lembrou Iana. “Elas tinham rímel escorrido por seus rostos. Eles tinham chorado tanto. Jornalistas foram lá e fizeram elas posarem. E elas eram menores: tinham 14, 15 e 16 anos. Mas ninguém se importava”.

Uma das meninas estava grávida. Todas as três ficariam no hospital por duas semanas. Mas depois, disse Iana, os serviços de bem-estar da criança não teriam nada a ver com elas.

“Eventualmente, eu consegui um apartamento para elas e mais meninas continuaram a vir”, disse. “Assim que tudo começou”.

Apoio

Ao longo dos anos, ela conseguiu financiamento e trabalhou com várias embaixadas. Agora, o abrigo é apoiado por um grupo americano dedicado à luta contra o tráfico humano, o Make Way Partners, de Birmingham, Alabama. Mas Matei gostaria de vê-lo se tornar auto-sustentável. Ela tem uma ideia de criar um hotel onde as jovens possam obter formação profissional.

Enquanto isso, ela cuida de tudo. Mais de 400 meninas já estiveram no abrigo e a maioria delas ainda está em contato, disse. Todas as três adolescentes que ela primeiro resgatou na delegacia agora estão casadas e têm filhos.

Ela diz que admira as meninas pela força que tiveram para recuperar suas vidas. “Quando elas voltaram para a escola, todos os meninos lhes ofereceram dinheiro em troca de sexo oral porque sabiam de tudo. Isso não é nada fácil”.

*Por Suzanne Daley

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