O desafio da Times Square: abandone os carros e mantenha a coragem

NOVA YORK ¿ Quando a cidade de Nova York anunciou o plano de fechar partes da Times Square ao tráfego, as reações dos nova-iorquinos foi da confusão para a leve histeria. Apesar das reafirmações do Departamento de Transporte de que as mudanças criariam uma cidade mais verde e mais amiga dos pedestres, alguns críticos do plano advertiram que iria tirar o vigor da energia caótica do lugar. Outros, aparentemente nostálgicos com a sujeira da versão do local de 1970, denunciaram isso como mais um passo para a transformação de Nova York da melhor metrópole do mundo em uma armadilha para turistas comuns.

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Turistas e nova iorquinos no meio da Broadway, nesta segunda-feira

Bem, eu estou feliz em declarar que, um dia após a distância da Broadway entre a Rua 42 e a Rua 47 ser fechada aos carros, a alma da Times Square continua intacta. O neon ainda brilha. Os turistas ainda passeiam estupefatos. O último cheiro de junk food da noite ainda fica no ar.

E a nova avenida de pedestres não é um desvio terrível na identidade de Nova York. Cidades tão diferentes quanto Londres, Copenhagen e Melbourne buscaram a redução do número de carros no centro da cidade sem perder seu caráter urbano.

E parte do valor da Times Square, desde os dias de notoriedade como porto de pornografia até a Walt Disney Co tomar a rua 42, foi como um clique instantâneo de uma foto mostrando como a cidade vê a si mesma. Sua próxima encarnação terá muito mais a ver as amplas mudanças econômicas e sociais pelas quais Nova York está passando do que com algumas poucas plantas e cadeiras.

Mas eu me preocupo com o caráter da avenida, com suas amarras de praças desconectadas. Enquanto o prefeito Michael R. Bloomberg dizia que as praças são um trabalho em progresso ¿, ele decidirá em novembro se as transformará em algo mais permanente ¿ elas se sentem como estranhos espaços abandonados. Até que a cidade tenha um plano para um esboço mais detalhado, não saberemos o que elas se tornarão.

A nova avenida de cinco quarteirões é a maior de uma série de espaços que se estendem do Theater District até o Herald Square e o Madison Square Park. Concebidos pela comissária de transporte, Janette Sadik-Khan, o plano em parte é inspirado no redesenvolvimento do centro de Copenhagen, muitas da quais são ruas medievais e praças que foram fechadas aos carros na década passada.

Desde que se tornou comissária, há dois anos, Sadik-Khan também criou cerca de 320 km de corredores de bicicletas por toda a cidade. Há um ano ela fechou ao tráfego vielas entre a Rua 42 e o Herald Square para criar uma série de esplanadas públicas. Neste fim de semana, ela também fechou partes da Herald Square entre a Rua 33 e 35 aos carros.

Até agora, a avenida de pedestres na Times Square é marcada por pouco mais do que algumas mesas duvidosas e cadeiras de metal. Uma fila de cones laranjas compõe o extremo norte da avenida, onde meia dúzia de policiais pacientemente redirecionam o tráfego para a Broadway. Trabalhadores espalharam alguns vasos de plantas pela fachada das ruas de asfalto (a Seventh Avenue, que se encontra com a Broadway na Rua 45, permanece aberta ao tráfego).

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Tráfego na Times Square, em Nova York, em 23 de maio, de 2009

Uma grande parte do sucesso do plano deriva das modificações na relação entre pedestres e estruturas que compõem a Times Square. Andando pelas calçadas estreitas e apertadas, um visitante nunca poderia sentir a sensação da amplitude do lugar. Agora, parado no meio da Broadway, você pode ter a sensação de estar em uma grande sala pública com seus enormes quadros e telas digitais por todos os lados.

Isso acrescenta à intimidade da praça em si, que, embora indefinida, pode agora funcionar como um genuíno espaço social: as pessoas podem correr de um lado para o outro, flertar um com os outros e contemplar a cidade em volta sem o medo de ser atropelado pelas rodas de um táxi (como alguém que sempre trabalhou perto da Times Square por décadas, acotovelando a multidão na hora de almoço, eu também aprecio o espaço extra para respirar).

Ainda assim, essa não é a Praça de São Marcos em Veneza ou mesmo a Trafalgar Square em Londres. Um número de ruas ainda corta o local, esculpindo-o em partes estranhas de tamanhos irregulares. Aquela entre a 45 e a 47 forma um generoso triângulo irregular no final norte do lugar. Mas quando você vai mais para o sul, os espaços se tornam mais estranhos. Um bloco retangular entre a Rua 42 e 43 parece separado das áreas maiores ao norte. As estreitas esplanadas abaixo da Rua 42, que foi criada no ano passado, são meio sem vida.

Então há a qualidade dos próprios espaços. As mesas e cadeiras podem funcionar como espaços temporários, mas eles são estranhamente diferentes do que há ao seu redor. Fariam mais sentido no Jardim das Tulherias em Paris, do que em uma junção movimentada no coração de uma moderna metrópole.

Se a cidade decide manter as praças, tem de esboçar os espaços de uma forma que reflita genuinamente a tenacidade urbana da cidade que é alimentada dentro dela. Não pode simplesmente recriar uma imagem medieval de um parque europeu. Ou uma avenida no sul da Califórnia.

Será que isso funcionará? A transformação de Copenhagen levou décadas, não anos. E envolveu consertos constantes. Algumas ruas foram fechadas aos carros, então reabertas, parcialmente, anos depois. Estacionar no centro da cidade sofreu lentamente uma redução, durante anos, então as mudanças mal foram notadas. Jan Gehl, que trabalhou no planejamento de Copenhagen e aconselhou Sadik-Khan em Nova York, explicou que a estratégia permitiu um período de ajuste psicológico.

Sadik-Khan parece estar trabalhando em um passo mais rápido. Às vezes o processo aqui parece mais pesado.

Ela também está trabalhando em um ambiente mais impaciente e menos complacente. O que mais encoraja sua visão é que reafirma o papel positivo que o governo pode ter na reforma do domínio público após décadas sentado e assistindo os interesses privados dominarem. Agora ela tem de provar que pode ser tão hábil em suas escolhas de design quanto ao impor suas ideias em uma cidade cética.


Por NICOLAI OUROUSSOFF

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