O currículo incomum de Hillary Clinton

WASHINGTON - Hillary Rodham Clinton não fala nenhuma língua estrangeira, mas já visitou quase 90 países. Ela nunca mediou nenhuma negociação, mas seu discurso em Pequim em 1995 ainda é lembrado por movimentos pelos direitos da mulher de todo o mundo.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Escolhida pelo presidente eleito Barack Obama para o cargo de secretária de Estado, Hillary carrega um currículo menor que muitos de seus antecessores. Ela não traz décadas de conhecimento acadêmico e político que Condoleezza Rice trouxe para o cargo, nem tem o know-how de Colin Powell, nem o passado de vice-secretária de Estado como Warren Christopher.

Ela não tem a relação amigável que James A. Baker III tinha com seu chefe. Ou a credibilidade nas ruas que tinham Madeleine K. Albright ou Henry A. Kissinger, cujos locais de nascimento ¿ Praga e Bavária ¿ deu a eles uma áurea mundana que adicionava brilho a suas credenciais diplomáticas. 

E ainda, a escolha de Clinton eletrificou o mundo diplomático onde as autoridades podem agora antecipar a possibilidade de sentarem a mesa com uma ex-primeira-dama americana e candidata à presidência, com todos os dramas que estão incluídos na história dos Clintons.

Quando ela chegar em uma capital, a cidade estará revirada, disse George Friedman, presidente da Stratfor, uma companhia de análise geopolítica. A única coisa que ela terá será a inteira atenção de qualquer outra autoridade estrangeira. 

Além do mero status de estrela, os apoiadores de Hillary dizem que seu passado não-ortodoxo mescla conhecimentos diplomáticos que muitos antecessores não tiveram. E eles desmentem que a falta de habilidade dela em pedir uma comida em francês signifique que ela não irá convencer a União Europeia a enviar mais tropas ao Afeganistão.

Veja, há muitas autoridades com carreiras estrangeiras fabulosas  por ai, mas primeiro e acima de tudo, um secretário de Estado precisa ser uma pessoa que entenda a complexidade do mundo, diz Liz Schrayer, diretora do Centro pelo Comprometimento Global dos Estados Unidos. No mundo de hoje, a velha escola de critérios para o cargo de secretário de Estado já não faz mais tanto sentido para mim como fazia há uma década. 


Obama anunciou na segunda-feira (1/12) Hillary como secretária de Estado / AP

Hillary Clinton não tem, no momento, o mesmo relacionamento profissional com Obama com tinham dois dos mais lembrados secretários de Estado, Dean Acheson e George Marshall, com o presidente Harry S. Truman, Mas nem Acheson ou Marshall começaram suas atividades como amigos próximos de Truman. Eles desenvolveram relações profissionais com Truman, disse Richard C. Holbrooke, ex-embaixador dos EUA nas Nações Unidas, mas eles não eram amigos de bar.

Hillary, disse Holbrooke, entende assuntos globais, direitos da mulher e diplomacia pública, e assistiu seu marido fazer decisões pela paz.

Essa última parte ¿ a ideia de que Hillary recebeu lições de diplomacia por osmose durante os oito anos que foi primeira-dama ¿ foi assunto disputado durante as eleições primárias democratas, quando os conselheiros de Obama duvidaram da experiência de Hillary. Em sua entrevista coletiva na segunda-feira, Obama deu os ombros para suas declarações passadas.  

Com a campanha para trás, os assessores de Obama e Hillary dizem agora que a campanha de Obama exagerou sobre a falta de experiência da ex-rival em assuntos internacionais.  Clinton viajou 82 países como primeira-dama, e antes de viajar geralmente consultava empregados do serviço de segurança nacional da Casa Branca. Ela não comparecia às reuniões do Conselho de Segurança Nacional, mas conversava regularmente com diplomatas e especialistas, dizem seus assessores.

Ela pressionou para comparecer à Conferência das Nações Unidas para Mulheres, em Pequim em 1995, quando muitos críticos de Washington, dentro e fora da administração Clinton, diziam que a presença dela no evento emitiria um sinal errado, oferecendo à China uma recompensa pelo tratamento indevido na detenção de ativistas pelos direitos humanos. (O presidente Bill Clinton não visitou a China até 1998.)

Na Conferência, Hillary disse: Se há uma mensagem para ecoar desta Conferência, que seja a de que os direitos humanos são os direitos das mulheres e os direitos das mulheres são os direitos humanos, de uma vez por todas. Mais de uma década depois, os defensores dos direitos humanos ainda mencionam aquelas palavras.

Hillary tem uma extensa rede de contatos estrangeiros feitos pelo marido e durante o longo período que passou no Comitê dos Serviços Armados do Senado, pelo qual viajou três vezes ao Iraque e ao Afeganistão. No Senado, ela às vezes usou os contatos que fez na Casa Branca, inclusive pegou o telefone e pediu a Tony Blair, o então primeiro-ministro da Inglaterra, para que interferisse em um contrato na Casa Branca que beneficiaria Nova York.

A grande questão no currículo de Hillary é se ela conseguirá de fato negociar um acordo de paz ¿ um requisito para qualquer bom secretário de Estado. Hillary ainda não teve que trancar líderes estrangeiros em uma sala e forçá-los a um acordo, ou viajar entre capitais para pressionar autoridades a assinarem um pedaço de papel.

Hillary parabenizou o general Wesley K. Clark, ex-comandante da Otan, e Holbrooke, enviado aos Balcãs na administração Clinton, por suas condutas diplomáticas, quando socializaram e beberam com o líder da Sérvia, Slobodan Milosevic, para medir sua resistência. Você não aprende nada com ele apenas ao apontá-lo no oceano, disse ela ao The New York Times este ano. 

Philippe Reines, porta-voz de Hillary, disse que ela trabalhou como senadora para persuadir empresários de Manhattan a investirem no desenvolvimento econômico do norte do Estado, e até trabalhou para que restaurantes de Manhattan usassem produtos de fazendas do norte.

Por HELENE COOPER

Leia mais sobre Barack Obama

    Leia tudo sobre: barack obama

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG