NYT Magazine: estudo de caso

Por Alexandra Starr Quando Jaime Escuder, estudante de direito da Universidade de Chicago, estava procurando por um professor para supervisionar um projeto independente sobre os direitos dos presos, ele se voltou a Barack Obama, mas não pela política.

The New York Times |

Como aluno na aula de lei constitucional de Obama em 2001, Escuder ficou impressionado pela habilidade do professor de ver ambos os lados de uma questão. Imaginei que Obama respeitaria o posicionamento que tomei no trabalho, concordando com ele ou não, me disse Escuder, agora um defensor público em Illinois.

No projeto, Escuder advogou favoravelmente para que os presos tivessem a liberdade de procriar. Obama lhe deu direcionamento sobre como aprimorar o argumento ¿ mas nunca lhe disse se concordava. Quando ele arriscava uma opinião, era para lembrar a Escuder a considerar as implicações no mundo real. Ao encontrar Escuder no Hyde Park Co-op numa manhã de fim de semana, Obama disse: Acho que você não está dando consideração adequada ao quão difícil será para os administradores das prisões cuidar de mulheres grávidas. Lidei com isso recentemente, e acredite em mim, não é fácil. Escuder presumiu que Obama estava falando sobre ser pai.

Obama lecionou no curso de direito da Universidade de Chicago por uma década antes de sair em 2003 para concorrer ao senado nos Estados Unidos. Ele emergiu como um dos membros mais liberais do senado, e seu recorde de votação é frequentemente invocado na campanha atual, especialmente pelos oponentes. Mas os homens e mulheres que estudaram com ele em Chicago ecoam as observações de Escuder que Obama era muito mais pragmático do que ideológico. Mesmo com o avanço da carreira política, o ensinar de Obama se ateve à norma das escolas de direito de avaliar sem emoção os argumentos com ferramentas da lógica forense.


Obama lecionou no curso de direito da Universidade de Chicago / Getty Images

Nos foi falado à exaustão desde o primeiro dia que você examinava as suas opiniões e inclinações, me disse Richard Hess, hoje advogado da Susman Godfrey em Houston. E então, quando você toma decisões, elas eram baseadas em razões sonoras empíricas. Escuder via seu professor como um acadêmico esperto das ruas. Ele queria que os alunos considerassem o impacto que as leis e opiniões judiciais tinham nas pessoas reais. De acordo com Marcus Fruchter, que teve aula de lei constitucional com Obama e agora atua na firma de advocacia Schopf & Weiss em Chicago, Você nunca imaginaria que ele seria um senador liberal embasado no que ele dizia nos cursos.

Falei recentemente com muitos dos ex-alunos de Obama e pedi para que especulassem sobre como o professor que viram na sala de aula poderia tentar gerenciar um país. Dan Johson-Weinberger, que faz lobby para causas progressivas em Illinois, concordou que o ex-professor aparentemente não deve emergir como um liberal ideológico se de fato chegar à Casa Branca. Baseado no que vi na da sala de aula, meu palpite é que a administração de Obama pode ser resumida em duas palavras, ele disse. Pragmatismo impiedoso.

O status de Obama como palestrante experiente em lei foi rarefeito. Naquele tempo, dois juízes federais ¿ Richard Posner e Frank Easterbrook, ambos do sétimo distrito ¿ mantiveram essa posição, e ambos os homens haviam sido membros distintos e em tempo integral da faculdade de Chicago antes de ir para o tribunal e reduzir as cargas do curso na escola de direito. Então, quando Obama, com 34 anos, disse ao reitor da faculdade, Douglas Baird, que queria o mesmo posto, Baird de alguma forma ficou surpreso. Ele não é um homem possuído por dúvidas sobre si, Baird me disse com um sorriso.

Não que ele não tivesse Obama em alta estima. Baird o recrutou da faculdade de direito de Harvard, onde Obama foi o primeiro presidente afro-americano da revisão de lei. Baird fez com que o promissor graduando se tornasse uma figura da lei e do governo em Chicago, dando a Obama ajuda de custo e um escritório para que ele pudesse terminar o primeiro livro, Dreams From My Father.

Em 1996, depois de vencer a eleição para o senado do estado, Obama decidiu que precisava suplementar o salário que conquistaria como legislador. E então, durante o jantar no Park Avenue Cafe, em Chicago, ele e Baird chegaram a um acordo em que Obama se tornaria palestrante e daria três aulas por ano.

Baird se esforçou para conseguir a posição de palestrante para Obama. O senador recém-formado do Estado teria adicionado diversidade à faculdade de direito: na época, havia apenas uma pessoa negra na equipe de professores de Chicago em tempo integral. E Obama havia se mostrado um professor habilidoso. Dava para notar pelas avaliações e ingressos do curso que os estudantes foram atraídos a ele, Baird me disse.

Quando Obama foi promovido à posição de palestrante, ele havia feito seminários apenas sobre racismo e lei. Enquanto a programação de aula foi expandida para incluir lei constitucional e direitos de voto, foi sua apresentação original que causou a maior impressão nos alunos. Na aula, Obama enfatizou como as experiências e origens das pessoas podiam influenciar suas percepções de preconceito e a possível necessidade de um governo de ação para controlar os efeitos. Ele queria que ficássemos cientes de nossos atos para que pudéssemos evitar as armadilhas que trazem, me disse uma ex-aluna, Bethany Lampland, que agora atua em Nova York.

Ele fez isso em parte ao compartilhar histórias pessoais que revelaram pré-conceitos que ele mesmo possuía. No outono de 2003, por exemplo, ele relatou um encontro desagradável que teve uma noite no Lake Shore Drive. Um motorista asiático em um Honda tunado lhe cortou; quando os homens chegaram a um farol, Obama lhe deu um olhar reprovador. A resposta do motorista foi baixar a janela e gritar preto para Obama antes de acelerar.

O professor se disse inicialmente chocado. Mas ao refletir sobre o episódio, ele disse à sala, percebeu que o outro motorista não era o único que possuía estereótipos. Eu estava pensando, aqui está um garoto asiático a caminho de uma boate, disse Obama, de acordo com Richard Hess, que estava inscrito no curso. Obama havia estereotipado o motorista como o tipo de pessoa que nunca o chamaria de preto.

Hess, que trabalhou em políticas dos democratas antes de ir para a faculdade de direito, me disse que estava impressionado com a habilidade do professor de analisar friamente uma confrontação desagradável. Pensei que isso mostrava um ensinamento, disse ele. Ele fala sobre raça de uma forma que eu duvido que alguém já ouviu de um professor antes, ou que eu ouvi de um político antes.

A aula levou Tom Hynes, que estudou racismo e lei em 1996, a considerar as experiências ao crescer em uma vizinha irlandesa católica na racista Chicago. Sob a supervisão de Obama, ele escreveu um trabalho histórico sobre a história das tensões entre imigrantes irlandeses e afro-americanos. Ele ficou espantado, ele disse, pela abordagem pragmática de Obama sobre relações de raça. Na cabeça dele, o problema em si não eram atitudes racistas que algumas pessoas podem ter, mas sim o fato de que algumas minorias estavam começando com uma grande desvantagem, Hynes contou. Problemas como educação pública ruim e a falta de acesso a crédito parecem mais óbvios para ele.

Dennis Hutchinson, que também dá cursos sobre raças e lei em Chicago, apontou que o passado racial de Obama lhe deu certa vantagem. Sejamos honestos, Hutchinson, que é branco, disse. Se você é negro, e está dando aula a um grupo majoritariamente composto por alunos brancos sobre tópicos sensíveis sobre raça, então você está controlando a sala.

Mas como qualquer bom professor de direito, Obama parece não ter usado sua posição para produzir um resultado político pré-fabricado. Quando ele deu uma palestra sobre um caso importante da Suprema Corte de ação afirmativa, por exemplo, enfatizou que contratantes brancos que perderam para as minorias de empresários por causa de questões raciais tinham uma queixa legítima. Da mesma forma, Obama permitiu que fosse feito um argumento para o pagamento de reparações pela escravidão. Os autores da aula ¿ incluindo alguns como Frederick Douglass e Booker T. Washington ¿ certamente ajudaram a idéia de que algum tipo de redenção fosse garantido. Mas depois de fazer o caso teórico, Obama incitou os estudantes a pensar sobre as implicações de realmente descontar cheques aos descendentes de escravos. Era possível, ele declarou, que a manobra iria meramente criar ressentimento. Obama manteve os próprios pensamentos nos tópicos que estava ensinando principalmente a si mesmo.

AP
Em 2000, Obama tentou uma vaga no Congresso dos EUA

Em 2000, Obama tentou uma
vaga no Congresso dos EUA

Dan Johnson-Weinberger estudou direitos de voto com Obama. Ele se lembra de Obama como um observador hábil da colocação de poder no sistema democrático norte-americano. Enquanto Obama pastoreava os alunos através da evolução de como os americanos elegem seus representantes, Johnson-Weinberger me disse, ele enfatizou o quão importante as regras do jogo eram para determinar quem vencia as eleições.

Esse passado em direito de voto, o ex-estudante disse, teve influência no triunfo primário de Obama sobre a senadora Hillary Rodham Clinton. Ele entendeu a importância que os estados do caucus teriam, e ele percebeu que os eleitores dos distritos congressistas afro-americanos teriam impacto desproporcional na escolha do indicado, ele disse. Creio que um dos motivos pelos quais ele disse sim para esta corrida é que ele entendeu a trilha estrutural para a vitória.

Johnson-Weinberger, que brigou publicamente por sistemas eleitorais alternativos como o voto proporcional em Illinois, considerou a abordagem prática de Obama um paliativo bem-vindo das instâncias de faculdades de direito tradicionais. Ele trabalhou como voluntário no primeiro desafio sem êxito de Obama em 2000 contra o republicano Bobby Rush e sua triunfante corrida para o senado quatro anos depois. Seu ex-professor, especula, traria uma mentalidade similar à Casa branca. Não acredito que ele esteja atrelado a qualquer ideologia em particular, Johnson-Weinberger me disse. Se ele é impaciente com alguma coisa, é com a idéia de que algumas propostas não são dignas de consideração.

(Alexandra Starr já escreveu sobre política e cultura para o The New York Times, Slate, The New Republic e The American Scholar.)

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