Número de pessoas brancas que apoia Obama é surpreendente

De acordo com as pesquisas, se a eleição desta terça-feira levasse em conta apenas eleitores brancos dos EUA, o senador Barack Obama perderia.

The New York Times |

Ainda assim, a força de Obama, além das fronteiras raciais, repousa no centro de sua liderança nas pesquisas contra o senador John McCain, que seguirão até o dia da eleição. Obama, primeiro negro a ser nomeado candidato à Presidência por um partido, caminha entre os brancos com maior desvantagem do que candidatos democratas geralmente o são.

Os partidos políticos americanos foram para lados diferentes em relação à raça após 1964, ano em que o presidente Lyndon B. Johnson aprovou a legislação dos direitos civis ao qual seu oponente, o candidato a pelo Partido Republicano, Barry Goldwater, se opôs. Institutos de pesquisas eleitorais estimam que desde então candidatos democratas tenham aproximadamente 39% dos votos de eleitores brancos. Na pesquisa do New York Times/ CBS News da semana passada, Obama teve 44% de apoio entre brancos ¿ uma proporção maior do que teve Bill Clinton nas vitórias das eleições gerais.

Analistas relacionam esse sucesso a mudanças nas atitudes em relação às raças, às habilidades de Obama, aos passos equivocados dos republicanos e à crise econômica. Independente da causa, juntando o apoio de eleitores latinos e negros, que são em sua maioria democratas, o candidato lidera no dia da eleição nacional.

A corrida ainda não acabou e o dia da eleição pode trazer surpresas. De acordo com as mesmas pesquisas, McCain tem o apoio da maioria dos eleitores brancos. Mesmo assim, as mudanças que a população sofreu tornaram a diversidade racial e étnica um fato inevitável para a vida americana. Quando Ronald Reagan foi reeleito em 1984, 86% do eleitorado era branco; em 2004, esse número caiu para 77%.

Mudanças

Com esse pano de fundo, alguns observadores dizem que as atitudes raciais têm diminuído como força independente, desaparecendo para dar lugar a um leque mais amplo de preocupações culturais que moldam as escolhas dos eleitores em assuntos como religião, aborto ou controle de armas.

Os republicanos teriam que buscar algum outro tema cultural para conseguir o voto de uma pessoa que é contra Barack Obama por causa da cor de sua pele, disse David Saunders, consultor morador do Estado da Virgínia e que orienta candidatos democratas a atrair eleitores brancos das zonas rurais e da classe trabalhadora.

O historiador Michael Beschloss liga Obama a John F. Kennedy que, nos anos 1960, foi o primeiro presidente Católico Romano eleito. Ele estava competindo para ser presidente de todas as pessoas e não de uma parcela da população, disse Beschloss.

Uma pesquisa recente da NBC News/ Wall Street Journal analisa o sucesso de Obama nessa situação. Ao serem questionados se a presidência de Obama iria favorecer o interesse dos negros em detrimento do interesse dos outros americanos, oito em dez brancos responderam que não.

Conquistas do democrata

Para estrategistas democratas que passaram a carreira trabalhando para recuperar a fidelidade dos eleitores brancos, apenas isso já é uma conquista impressionante. Nos anos 80, uma pesquisa feita por Stan Greenberg em Macomb County, Michigan, concluiu que brancos de classe média se ressentiam pelo tratamento injusto que recebiam em debates políticos nos quais democratas apareciam focando negro e pobres.

Assim como Bill Clinton, cliente de Greenberg em 1992, Obama destacou em sua campanha medidas amplas, que auxiliem a classe média. Ele conseguiu fazer campanha de uma forma que não mudasse a visão de mundo dessas pessoas, mas que lhes permitisse colocar esses sentimentos de lado, disse Greenberg. Ele acrescentou um pouco confuso, Talvez ele tenha avançado no território de Tiger Woods(negro e mais jovem jogador de golfe a conquistar o Campeonato Amador dos EUA).

Republicanos frustrados vêem o desempenho sólido de Obama nos discursos e debates como apenas uma parte da explicação para a quantidade surpreendente de apoio dos eleitores brancos. Alguns argumentam que a falta de popularidade do presidente Bush em tempos econômicos turbulentos também tem muita responsabilidade nisso, colocando-o perto do território de Herbert Hoover (Presidente dos EUA de 1929 a 1933 na época da Grande Depressão).

A ajuda da crise

Obama realmente merece muito crédito por seu carisma, disse Tom Slade, ex-presidente do Partido Republicano da Flórida, que abandonou o Partido Democrata em 1964, quando conservadores brancos migraram para o Partido Republicano. Segundo ele, mais importante ainda é que nós republicanos temos feito um trabalho péssimo no gerenciamento dos negócios do governo.

No começo dos anos 90, o jornalista político Peter Brown escreveu Partido da Minoria, um livro explorando as armadilhas em identificar os democratas em relação aos interesses dos afro-americanos. Ele apreciou a maneira como Obama em ofereceu uma zona de conforto aos eleitores brancos, mas apontou o maior incentivo que ele recebeu: a crise financeira sob os cuidados do presidente republicano.

A cor mais importante é verde (a cor da esperança e da cédula do dólar), disse Brown, atual diretor assistente do Instituto de Pesquisas de Opinião da Universidade de Quinnipiac. Quando a Lehman Bros. afundou, as coisas mudaram drasticamente. As pessoas estão apavoradas com o futuro de suas finanças.

Na primeira metade do ano, alguns estrategistas democratas temiam que Obama pudesse ser prejudicado nos Estados onde perdeu os votos de eleitores brancos da classe trabalhadoras para a senadora Hillary Clinton, nas eleições primárias. Em Ohio, onde Bush venceu em 2000 e 2004, pesquisas atuais mostram que Obama está competitivo; em Pensilvânia, um dos principais alvos de McCain, ele está à frente nas pesquisas.

Com uma mensagem que tanquiliza quem têm preocupações raciais, Obama não iniciou sua corrida presidencial com uma força impressionante entre os negros; ela apareceu apenas após ele ter derrotado Clinton nas convenções partidárias em Iowa, onde há a predominância de eleitores brancos. Ironicamente, a maior dificuldade para Obama quanto à raça foram as dúvidas entre afro-americanos sobre sua habilidade em conseguir passar pelo processo de candidatura, disse Tad Devine, principal estrategista de Al Gore, em 2000, e de John Kerry, em 2004.

É incrível para mim ¿ quase irreal, disse o reputado John Lewis, representante democrata da Geórgia. No começo desse semestre, Lewis, veterano do movimento dos direitos civis, acusou a campanha de McCain de semear as sementes do ódio de uma forma que recordava George Wallace (político a favor da segregação) durante os anos 60, um ataque o qual McCain chamou de insolente e sem fundamentos e do qual Obama se distanciou.

Mais recentemente, Lewis acrescentou que a campanha o deixou meio triste porque os líderes do movimento, incluindo o reverendo Dr. Martin Luther King e o presidente Johnson, não poderão testemunhar a candidatura de Obama.

Por JOHN HARWOOD

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