Número de mães solteiras com menos de 30 anos aumenta nos EUA

Antes algo que fazia parte da vida de mulheres pobres ou de minorias, a maternidade sem o casamento agora atinge a classe média

The New York Times |

Antes, era algo considerado ilegítimo. Hoje pode ser definido como o novo padrão. Depois de ter aumentado constantemente durante cinco décadas, a proporção de crianças nascidas de mulheres solteiras atingiu um novo patamar: mais da metade dos partos de americanas com menos de 30 anos acontece fora do casamento.

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Amber Strader, mãe solteira de duas crianças, beija filha de 18 meses, Arianna Fickey, em sua casa em Lorain, Ohio
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Antes algo que fazia parte da vida de mulheres pobres e das minorias, a maternidade sem o casamento ocorre cada vez mais entre mulheres da classe média americana. O crescimento mais rápido nas duas últimas décadas acontece entre as mulheres brancas na casa dos 20 anos, que possuem algum tipo de formação superior, porém não universitária, de acordo com o grupo de pesquisa de Washington, o Child Trends, que analisou dados do governo.

Entre as mães americanas de qualquer idade, a maioria – 59% em 2009 – são casadas quando têm filhos. Mas a onda de nascimentos fora do casamento entre mulheres mais jovens – quase dois terços das crianças dos EUA são filhos de mães com menos de 30 anos – é um símbolo da transformação da família americana e também uma indicação do que pode ser uma mudança geracional.

Um grupo ainda resiste a essa tendência: as graduadas em faculdade se casam antes de ter filhos. Isso transforma a estrutura familiar em uma nova divisão de classe, com os benefícios econômicos e sociais do casamento cada vez mais reservados para pessoas que possuem mais educação formal. "O casamento tornou-se um bem de luxo", disse Frank Furstenberg, um sociólogo da Universidade da Pensilvânia.

A mudança está afetando a vida das crianças. Pesquisadores têm consistentemente descoberto que as crianças americanas nascidas fora do casamento demonstram mais riscos de cair na pobreza, de ter um desempenho ruim na escola ou de sofrer problemas emocionais e comportamentais.

As forças que têm reorganizado o núcleo familiar são diversas, entre elas estão a globalização e a pílula anticoncepcional. Analistas liberais argumentam que a redução nos salários dilui as opções de homens propícios ao casamento, enquanto os conservadores costumam dizer que a revolução sexual diminui o incentivo para se casar e que muitos programas de apoio desencorajam o casamento.

Em Lorain, uma cidade de classe média perto de Cleveland, onde o declínio do número de famílias com pais casados foi especialmente alarmante, dezenas de entrevistas com pais jovens sugerem que ambos os lados têm uma certa razão.

Ao longo da última geração, Lorain perdeu mais de duas fábricas de aço, um estaleiro e uma fábrica da Ford, diminuindo as ofertas de empregos que permitiam que operários mantivessem uma família com um estilo de vida de classe média. Mais mulheres foram trabalhar, fazendo com que o casamento já não fosse visto como uma necessidade financeira para elas. Viver junto tornou-se uma rotina e o fato de uma mulher ser mãe solteira perdeu o estigma que antes fazia com que casais corressem para o altar. As mulheres da cidade muitas vezes descrevem o casamento como o fim e não como um meio para um fim.

Enquanto isso, as crianças acabam nascendo. Amber Strader, 27, estava em um relacionamento instável com um funcionário da Sears alguns anos atrás quando engravidou. Ex-estudante de enfermagem, que agora trabalha em um bar, Amber disse que seu namorado era tão dependente que ela tinha de comprar até seus cigarros. Ela nunca sequer considerou se casar com ele. "Era como viver com uma outra criança", disse.

Quando seu segundo filho nasceu, de um novo namorado, três anos depois – sua pílula anticoncepcional não funcionou, segundo ela – seu namorado, um pintor de casas temporário, relutou em se casar.

Amber gosta da ideia do casamento, tem fotos da cerimônia de seus pais na parede da cozinha de sua casa e diz que seu namorado é um bom pai. Mas, por enquanto, o casamento está fora de seu alcance. "Gostaria de me casar, mas não vejo isso acontecendo neste exato momento", disse. "A maioria dos meus amigos diz que é apenas um pedaço de papel e que os relacionamentos acabam não dando certo independentemente disso."

O recente aumento da maternidade de mães solteira está cada vez mais alarmante, ao contrário de épocas passadas. Quando Daniel Patrick Moynihan, um ex-oficial do Departamento do Trabalho e, posteriormente, senador dos Estados Unidos pelo Estado de Nova York, relatou em 1965 que um quarto das crianças negras nascia fora do casamento e alertou para um "emaranhado de patologias", deu início a um debate amargo.

Em meados dos anos 1990, esses números chamaram ainda mais a atenção: um terço dos americanos tinha nascido sem que seus pais fossem casados. O Congresso, em grande parte culpando a assistência social, impôs novas restrições. Agora os números apontam 41% - e 53% para o número de filhos de mulheres com menos de 30 anos de idade, de acordo com o Child Trends, que analisou dados coletados em 2009 pelo Centro Nacional de Estatísticas da Saúde.

Grandes diferenças raciais também estão presentes: 73% das crianças negras nascem sem ter pais casados, em comparação com 53% dos latinos e 29% dos brancos. E as diferenças educacionais estão crescendo. Cerca de 92% das mulheres com um grau universitário são casadas quando dão à luz, em comparação a 62% das mulheres com alguma escolaridade pós-secundária e 43% das com um diploma do ensino médio ou menos, de acordo com as análises do Child Trends.

Quase todo o aumento referente ao nascimento de filhos de pais não casados ocorreu entre casais que vivem juntos. Embora em alguns países tais relações possuam as mesmas taxas de duração dos casamentos, nos Estados Unidos são mais prováveis de se dissolverem do que os casamentos.

Em Lorain, no Estado americano de Ohio, como em outros lugares, as explicações para o início do declínio de um casamento começam com a economia doméstica: os homens valem menos do que costumavam valer. Entre os homens com alguma faculdade, suas rendas caíram 8% nos últimos 30 anos, de acordo com o Bureau de Estatísticas do Trabalho, enquanto os ganhos das mulheres aumentaram em 8%.

"As mulheres costumavam precisar dos homens, mas já não precisam mais", disse Teresa Fragoso, 25, uma mãe solteira de Lorain. "Nós sustentamos a nós mesmas. Sustentamos aos nossos filhos."

Há 50 anos, segundo pesquisadores, cerca de um terço dos casamentos nos Estados Unidos era impulsionado por uma gravidez - os casais se casavam para manter a respeitabilidade. Em entrevistas com as mulheres da região, as crianças foram descritas como algo não planejado, um subproduto das relações com falta de comprometimento.

Consequências: Saúde de mães solteiras é mais deficiente

Algumas mães solteiras citam a separação dos pais como razões para esperar. Brittany Kidd tinha 13 anos quando seu pai fugiu com uma das amigas de sua mãe, fazendo com que sua mãe entrasse em depressão e deixando a família financeiramente instável. "Nossa vida familiar era muito perfeita: uma bela casa, dois carros, um cão e um gato", disse. "Essa estabilidade acabou em um piscar de olhos.”

Kidd, 21, disse que não consegue se imaginar casando com o pai de seu filho, mesmo que o ame. "Não quero ter de confiar em alguém", disse. "Não quero acabar como minha mãe."

Mesmo que muitos americanos estejam cada vez mais relutantes em relação ao casamento, dizem os pesquisadores, eles esperam cada vez mais do mesmo: satisfação emocional em oposição a apenas apoio prático.

"A vida em família não é mais apenas sobre o papel social do pai ou do marido ou da esposa, é mais sobre a satisfação individual e o autodesenvolvimento", disse Andrew Cherlin, um sociólogo da Universidade Johns Hopkins.

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A mãe solteira Teresa Fragoso com seu filho Jeaun Marcos Sanchez, de 3 anos, em seu local de trabalho em Lorain, Ohio
Certamente o dinheiro ajuda a explicar por que os americanos com uma boa educação ainda apresentam altas taxas de casamento: eles podem oferecer uns aos outros mais apoio financeiro e contratar outras pessoas para fazerem as tarefas que podem causar conflitos em uma relação. Mas alguns pesquisadores argumentam que os homens também têm aceitado com mais facilidade do que as mulheres papéis que dão a elas a mesma autoridade.

"Eles estão mais dispostos a desempenhar o papel de 'coadjuvantes'", disse Sara McLanahan, uma socióloga de Princeton.

Ao revisar a literatura acadêmica, Susan L. Brown da Universidade Bowling Green em Ohio descobriu recentemente que as crianças de pais casados, em média, "têm uma melhor experiência educacional, apresentam melhores resultados sociais, cognitivos e comportamentais".

Lisa Mercado, uma mãe solteira de Lorain, não ficou surpresa com isso. Entre aulas de enfermagem e um trabalho de período integral noturno em um posto de gasolina, ela raramente vê a filha de 6 anos, que acaba ficando com parentes. O pai da menina tem filhos com outra mulher e raramente ajuda. "Quero fazer coisas com ela, mas sempre acabo caindo no sono", contou.

*Por Jason Deparle e Sabrina Tavernise

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