Novos dissidentes se voltam contra estrangeiros no Japão

Grupo de extrema-direita faz manifestações pela internet e levanta bandeira contra coreanos e seus descendentes

The New York Times |

Os manifestantes apareceram em um dia de dezembro, no momento em que as crianças de uma escola primária para coreanos se preparavam para o almoço. O grupo de cerca de uma dúzia de homens japoneses se reuniu em frente ao portão da escola, usando megafones para chamar os estudantes de baratas e espiões da Coreia.

O episódio foi o primeiro de uma série de manifestações na Escola Elementar Coreana de Kyoto Número 1, que chocou o Japão, um país avesso a conflitos, onde mesmo manifestantes políticos mais radicais devem evitar envolver cidadãos comuns, especialmente crianças.

Respondendo à indignação pública, a polícia prendeu quatro dos manifestantes este mês sob a acusação de prejudicar a reputação da escola.

Mais significativamente, os protestos também assinalaram o surgimento de um novo tipo de grupo ultranacionalista no Japão. Os grupos veiculam uma mensagem abertamente contra estrangeiros e não têm medo de chamar a atenção através de indisciplinados protestos de rua.

Protestos

Desde sua primeira aparição no ano passado, os protestos foram dirigidos não apenas ao meio milhão de coreanos que vivem no Japão, mas também a chineses e outros trabalhadores asiáticos, cristãos devotos e mesmo ocidentais em trajes de Halloween.

A mídia local apelidou esses grupos de extrema-direita da net, porque eles se organizam livremente através da internet e se reúnem apenas para os protestos. Eles são uma comunidade virtual que mantém seu próprio site para anunciar os horários e os locais de protestos, trocar informações e gravações de vídeo de suas manifestações.

Embora esses grupos permaneçam um pequeno, ainda que barulhento, elemento marginal, recebem cada vez mais atenção por serem um efeito colateral preocupante da longa recessão econômica e política do Japão.

A maioria de seus membros é jovem, muitos deles vivendo com a baixa remuneração de trabalhos de meio período ou temporários que têm proliferado no Japão nos últimos anos.

Neonazismo?

Embora alguns aqui comparem esses grupos aos neonazistas, sociólogos dizem que eles são diferentes porque não têm uma ideologia agressiva de supremacia racial e até agora têm tido o cuidado de evitar a violência. O principal objetivo do grupo de extrema-direita da net tem sido expressar sua frustração, tanto a respeito da estatura diminuída do Japão quanto em suas próprias dificuldades financeiras.

Eles também são diferentes dos grupos ultranacionalistas japoneses, que são vistos comumente, mesmo na Tóquio de hoje, vestindo uniformes paramilitares e dirigindo caminhões pretos com alto-falantes que tocam música marcial. Essa tradicional extrema-direita, que tem raízes que remontam pelo menos ao auge do militarismo japonês em 1930, é agora uma parte tacitamente aceita do estabelecimento político conservador local.

Sociólogos os descrevem como parte de uma espécie de mecanismo não-oficial para impor a conformidade no Japão do pós-guerra, tendo como alvo japoneses que eram vistos como por demais à esquerda ou outros grupos que os incomodavam, tais como embaixadas de países com os quais o Japão tem disputas territoriais.

E seus membros têm agido rapidamente para se distanciar da extrema-direita da net, que julgam ser formada por amadores e agitadores das massas. “Se o Japão não fizer algo para impedir essa linguagem de ódio, o que vai acontecer em seguida?", questionou Park Chung-ha, 43 anos, que lidera a associação de mães da escola.

*Por Martin Fackler

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