Novo presidente do Iêmen enfrenta problemas no sul do país

Entre os vários desafios de Abdu Rabbu Mansour Hadi é conter ameaça terrorista e anseio de moradores por divisão do país

The New York Times |

De todos os desafios que o novo presidente do Iêmen enfrenta, nenhum é mais importante do que a instabilidade no sul do país, onde muitos estão ansiosos pela secessão e uma brecha na segurança nacional do país permitiu que uma filial da Al-Qaeda se fortalecesse.

O presidente Abed Rabbo Mansour Hadi agiu rapidamente para tentar lidar com a violência crescente e a incerteza política no sul do país. Ele nomeou um novo chefe de segurança e um novo governador para a província de Aden, bem como uma nova ordem da força militar do sul. Mas alguns dos moradores da região disseram que, embora o esforço para mudar os oficiais de cargo possa ajudar a longo prazo, a crise precisa ser resolvida de maneira mais agressiva agora.

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NYT
Homem é visto sentado no porto da cidade de Aden, no Iêmen (13/11/2011)

"Não poderia ser pior", disse o Sheikh Abdullah Tariq, que tem praticado advocacia desde a época em que os colonialistas britânicos estiveram em Adem há mais de 50 anos. "A grande maioria dos iemenitas do sul do país, de quase todas as classes sociais, simplesmente não quer se unir. Eles estão simplesmente nos dizendo que não aguentam mais. "

O Iêmen está começando a lidar com os danos à sua economia e com as questões sociais quase um ano após o levante público contra o presidente Ali Abdullah Saleh, que governou o país por três décadas . O acordo feito por Saleh para abandonar o poder foi considerado como uma necessidade para resolver os problemas enfrentados por uma nação que, mesmo antes da crise, já apresentava características de um Estado falido.

Isso é principalmente verdade no sul, onde "a transição política tem feito pouco para estabilizar a situação e também tem ampliado antigas denúncias que os moradores do sul tem sido marginalizados politicamente, socialmente e economicamente pelo governo do norte desde a unificação do Iêmen em 1990. Esse sentimento, juntamente com a força crescente de uma organização ligada à Al-Qaeda, Ansar Al-Sharia, contribuíram para criar um ambiente volátil.

"Não adianta apenas resolver o problema parcialmente", disse Mohammed Bashraheel, um morador bem conhecido na região que disse que as questões políticas e de segurança devem ser resolvidas simultaneamente. "É como se fosse um pacote."

Embora muitos separatistas do sul continuem comprometidos com a dissidência por meios pacíficos, mesmo diante da brutalidade policial, o ano passado foi marcado pelo aumento de revoltas violentas. Tardes de conflitos entre as forças de segurança e gangues separatistas, que consistem principalmente de jovens desempregados, são ainda comuns em alguns bairros em Aden, como em Mansoura ou Sheikh.

"Quando eu pego o ônibus de manhã, às vezes as pessoas na estação me dizem: 'Não vá para Sheikh, não passe por aquele caminho, pois um tiroteio está acontecendo naquela área ", disse Mohammed Omar, um morador de 26 anos de idade de Aden.

A preocupação imediata com a segurança tem alimentado ainda mais uma sensação de que o governo tem abandonado o sul do país. Em muitas regiões, as forças de segurança foram retiradas há um ano. Isso, disseram os moradores, fez com que a Ansar al-Sharia tenha ficado cada vez mais fortalecida - e violenta. No pior ataque da Al-Qaeda em militares do Iêmen, Ansar al-Sharia levou o crédito por ter matado mais de 100 soldados em um posto militar no oeste da capital da província de Abyan, Zinjibar, cerca de 48 quilômetros ao nordeste da cidade de Aden. Os militantes disseram ter capturado os outros soldados.

Ainda mais preocupante é que Ansar al-Sharia está atuando como um governo instituído em pequenas cidades e vilas nas províncias de Shabwa e Abyan, e está ganhando a fidelidade de pelo menos alguns membros da população, segundo os moradores.

Os militantes estão agindo de acordo com um roteiro pré-definido, oferecendo serviços que o governo falhou em fornecer, providenciando rações de alimentos para civis e fornecendo uma certa segurança com sua própria força policial e um sistema judicial baseado em interpretações rígidas da lei islâmica. "Quando alguém assume o poder e diz que querer governar pela sharia, ninguém pode se opor à essa pessoa", disse Ahmed al-Fadhli, que vem de uma família poderosa na região controlada pelos militantes na província de Abyan. "Essa é a verdadeira justiça."

"Queremos segurança, seja ela vinda da Al-Qaeda ou do governo", disse Ahmed Saeed, um pai de oito filhos que veio recentemente para Aden com sua família após os militantes lhes disseram que um ataque poderia acontecer em breve em Jaar, na província de Abyan. Assim como outros milhares de pessoas deslocadas pelos conflitos ocorrentes na província, Said e sua família criaram suas novas moradias em edifícios decrépitos de escolas públicas.

Enquanto os iemenitas no norte do país estão esperançosos de que a recente demissão de Saleh ofereça um novo começo para a sua nação, a maioria dos sulistas dizem que não querem ter nada a ver com a nova agenda política do país.

E embora existam muitos cartazes pendurados de Hadi por toda Sanaa, a capital do país, em Aden existem bandeiras do antigo Iêmen do Sul pintadas nos prédios, coladas em cabines telefônicas e amarradas sobre postes nas ruas.

"O problema é que, quando os jovens estavam crescendo, foram educados sabendo como sua família estava conseguindo empregos. Agora eles estão vendo como seus pais estão sendo humilhados", disse Yahya al-Jifri, líder de um partido da oposição em Aden. "Eles descobrem que não irão conseguir ir para a universidade pois já não existem bolsas de estudo para os sulistas. E que seus pais perderam seus empregos no serviço militar e civil."

De volta a seu escritório de advocacia no centro de Aden, Abdullah fez uma avaliação pessimista do rumo que tudo isso pode tomar. "Não existe atualmente uma liderança centralizada", disse ele. "Praticamente não temos uma economia. Não existenenhuma base para que possamos formar um país independente. Vamos acabar lutando entre nós mesmos. "

Por Laura Kasinof

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