Novo presidente da Câmara dos EUA prova que meninos também choram

Republicano que substituirá a democrata Nancy Pelosi, John Boehner é conhecido por chorar com frequência em debates e entrevistas

The New York Times |

Nesta quarta-feira, o deputado John Boehner se tornará oficialmente o novo presidente da Câmara. Embora o republicano de Ohio não seja uma figura política conhecida universalmente, as pessoas tendem a saber duas coisas sobre ele. A primeira é que sua pele tem um tom estranhamente alaranjado, que alguns atribuem ao bronzeamento artificial - ao negar o uso de produtos para bronzear a pele, Boehner recentemente chegou às lágrimas no programa 60 Minutes.

Esta é a outra coisa que as pessoas sabem sobre Boehner. Ele chora - e com uma frequência que alguns acham inquietante. Muito foi falado sobre isso e piadas tem sido feitas a respeito.

Mas há aqueles que sugerem que esta grande nação e os seus sábios devem dar espaço ao homem. "Eu acho que é ridículo e insensível", disse Dan Rather, ex-âncora da CBS News, conhecido por derramar lágrimas em público.

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Boehner recentemente chegou às lágrimas no programa de TV 60 Minutes
Para um melhor esclarecimento, é preciso dizer que este que vos escreve, nos últimos anos, também chorou bastante. Entre as coisas que me fizeram chorar no último ano, em nenhuma ordem particular, estão: O final do programa The Curious Incident of the Dog in the Night-Time. A formatura da oitava série do meu filho mais novo. Rei Lear. Quando eu o assisti a algumas décadas atrás, era grandioso e muito triste. Agora que eu tenho pais idosos e filhos cuja própria mortalidade é muito real, uma performance de 2008, em um palco de Nova Jersey pareceu completamente diferente. Eu perdi a compostura.

Os vídeos It gets better destinados a tranquilizar os adolescentes gays, com exceção daquele gravado pelo presidente Barack Obama, que é inspirador, mas um pouco brega.

Com as lágrimas de Boehner nas notícias e as minhas em minha mente, eu procurei psicólogos que estudam as emoções para descobrir se o choro de homens de meia-idade deve ser considerado algo estranho. Enquanto crises médicas, como um acidente vascular cerebral, podem derrubar as paredes que bloqueiam as nossas emoções, eles disseram, muitos homens descobrem que após os 40 eles se tornam mais propensos de serem levados às lágrimas do que em qualquer outro momento, desde os joelhos esfolados da infância.

"O choro é uma resposta normal a vários tipos de situações emocionais", disse Randolph Cornelius, diretor do departamento de psicologia na Faculdade de Vassar."Não há necessidade de procurar tratamento por causa de algumas lágrimas".

Cornelius estuda o assunto há 30 anos e disse que cada um de nós tem uma tendência diferente para chorar. "Conforme alguns homens envelhecem, eles acham mais fácil baixar a guarda e chorar na presença de outros". "Eu não posso dizer se a minha pré-disposição ao choro se deve ao envelhecimento ou simplesmente à sensação de que é OK chorar, porque eu considero que é uma reação muito saudável tanto para os horrores quanto para as alegrias do mundo", disse.

O especialista Jonathan Rottenberg, da Universidade do Sul da Flórida, citou uma pesquisa que sugere que "as pessoas geralmente têm uma maior capacidade para estados emocionais complexos e mistos na vida adulta". Bebês, ele disse, "choram por motivos simples como para atrair a atenção de um adulto quando estão sozinhos, com fome ou com dor". Mas os adultos choram quando estão felizes ou com raiva, ou quando tomados pela mistura agridoce da nostalgia.

O que nos leva de volta a Rather, que disse que está na hora de deixarmos os homens chorarem sem arrependimento. "Como muitos garotos e homens americanos, eu fui ensinado que homens não choram", disse ele, ao lembrar que nossos antepassados sabiam melhor. "Na antiga cultura grega, os homens podiam mostrar suas emoções", disse ele. Em obras como Odisséia, lembrou, "era muito comum para os homens mostrar as suas emoções – isso era considerado parte do caráter e da personalidade heróicos".

Chorar, ele disse, "é genuíno, autêntico". "Vivemos em uma sociedade onde a autenticidade é muito difícil de se encontrar". Ele contou também que um bom tempo depois de ter completado 40 anos, ele não conseguia se lembrar de chorar em público, além do funeral de seu pai. Desde então, as lágrimas vêm com maior frequência – seja na televisão nacional, como quando ele chorou no programa de David Letterman, logo após o 9/11 ou durante os discursos, quando muitas vezes ele pede um minuto de silêncio para lembrar as tropas dos Estados Unidos ao redor do mundo e em risco.

Na época da entrevista com Letterman, Rather lembrou que trabalhava na trágica história sem parar, "concentrado no trabalho", com pouco tempo para dormir e sem chance para por para fora os seus sentimentos. Ao sentar-se como um dos convidados do programa, ele disse: "Eu saí do meu papel de âncora e jornalista e as emoções fluíram por mim". E hoje ele pergunta, e daí? "Aquilo foi puro, puro sofrimento", lembrou Rather. "Não há necessidade de se desculpar pela tristeza".

Chorar, então, não é nada para se envergonhar – embora nós ainda possamos nos sentir um pouco estranhos com isso. Robert Krulwich, jornalista e co-apresentador do programa Radiolab na emissora NPR, disse que recentemente foi às lágrimas no estúdio, enquanto assistia a um vídeo de artistas intérpretes fazendo um trabalho de dança com base em um segmento do seu programa.

Ver alguém transpor a peça com tanto sucesso em um meio diferente o pegou totalmente de surpresa. "Alguma coisa rompeu dentro de mim", disse ele. "Eu não entendo isso. A obra era bonita, muito bonita, de uma forma completamente nova. E era tão maravilhosa que eu comecei a chorar".

Foi nesse momento, em meio às lágrimas, que uma delegação da chefia da NPR parou na mesa de Krulwich para dizer oi. "Conforme eles se aproximavam do meu cubículo, eu girei para que eles não pudessem me ver", disse ele, e colocou o telefone no ouvido. "Eu fingi estar escrevendo para que eles não vissem as lágrimas rolando. Infelizmente, eu não tinha nada nas mãos e estava escrevendo em nada, torcendo para que os visitantes não percebessem. Depois de um momento desconfortável, eles seguiram adiante.

Hoje, ele parece orgulhoso daquelas lágrimas e de todas as outras. "Eu acho que faz parte do vocabulário emocional de se estar vivo".

*Por John Schwartz

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