Novo presidente da Câmara dos EUA deverá enfrentar resistência

John Boehner terá menos de dois anos para mostrar que Partido Republicano é antídoto contra os males de Washington

The New York Times |

Ao liderar seu partido ao triunfo eleitoral, o deputado John Boehner, o próximo orador da Câmara, não chega ao fim do jogo. Ele está no início de sua próxima luta - a mais difícil delas.

Confiando em suas décadas de experiência no funcionamento interno da Câmara, Boehner, de Ohio, tem agora menos de dois anos para mostrar que o Partido Republicano é o antídoto para os males de Washington, com bancadas discordantes, uma economia estagnada, uma hostil Casa Branca com poder de veto e a longa sombra de 1994 diante de si.

AFP
O republicano John Boehner, líder da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos
Suas promessas em nome da nova maioria da Casa – reduzir o tamanho do governo, criar empregos e alterar fundamentalmente a forma como o Congresso conduz seus negócios – são, na maioria, tão nobres quanto pouco específicas, e seus esforços para torná-las realidade devem ser feitos com ações ambiciosas dentro de seu próprio partido e uma nova safra de integrantes do movimento Tea Party (alguns dos que parecem acreditar que são eles, e não ele, que comandam o show).

As exigências feitas a Boehner pelos eleitores são muitas e nem todas compatíveis. Segundo pesquisas, há uma ânsia para se ver o atual sistema reformado, mas de preferência sem bloqueios ou rancor. Os eleitores querem que os gastos federais sejam reduzidos, mas também querem manter benefícios onerosos. Eles rejeitam com raiva o que existe, mas não têm uma visão claramente articulada do que seria melhor.

Na verdade, Boehner e seu partido não receberam um mandato claro do eleitorado, que, segundo pesquisas, rejeitaram qualquer agenda política mais do que se uniram em torno de uma. Uma exigência ressoou bem alto: a redução dos gastos federais imediatamente, que é um objetivo particularmente difícil. No entanto, entre as primeiras coisas que Boehner disse que vai procurar realizar estão a reversão do programa Medicare e o prorrogamento do termo dos cortes de impostos da era Bush, medidas difíceis de conciliar com o compromisso de frear a dívida nacional.

Presidência

Boehner, que se tornará o segundo na linha para a presidência em janeiro, tem respondido às forças contraditórias que levaram à vitória dos republicanos com mensagens igualmente mistas. Ele fez discursos sobre a inclusão e, em seguida, escreveu mensagens no Twitter denunciando qualquer tipo acordo entre os partidos.

Ele é específico sobre a quantidade de cortes de gastos que busca – US$ 100 bilhões – , mas diz pouco sobre como vai chegar lá. Em discursos durante uma excursão de campanha por Ohio, no fim de semana, ele prometeu que as coisas seriam “diferentes” em Washington, mas depois voltou ao tema que adotou nos últimos dois anos de denegrir o presidente Barack Obama.

'Promessa'

Os melhores indicativos para compreender o que Boehner busca realizar são o documento político republicano intitulado “Uma Promessa à América” e seu recente discurso ao American Enterprise Institute, em Washington. O primeiro é uma pequena coleção de objetivos, alguns dos quais são quase impossíveis no curto prazo (como o fim do controle governamental das companhias Fannie Mae e Freddie Mac) e alguns pequenos, mas relativamente fáceis de realizar, como revogar regras burocráticas impostas às empresas de pequeno porte.

Boehner e seu partido também deixaram claro que vão imediatamente tentar reverter a nova lei da saúde, seja através de rejeição a partes dela, algumas das quais já entraram em vigor, ou usando o processo de apropriação para remover o financiamento de sua proposta. O republicano também será testado - talvez na última sessão deste mandato, quando os democratas podem estar ansiosos para levar a questão adiante – por causa do corte de impostos. Os democratas gostariam de ver cortes de impostos para todos, menos para aqueles que tem níveis de renda maiores, enquanto os republicanos buscam torná-los permanentes para todos os contribuintes.

Arrastar esse batalha iria criar grandes problemas para o Internal Revenue Service (receita federal americana), e a questão pode ser resolvida nas sessões finais deste mandato. Mas Boehner aprendeu este ano, quando indicou vontade de trabalhar com os democratas para chegar a uma solução boa para ambos os lados e foi execrado por alguns companheiros de partido, que nem todos os republicanos gostam da ideia de um acordo sobre a questão.

Boehner, em seu discurso e em sua promessa, também pede a revisão da forma como o Congresso faz negócios, incluindo a eliminação do grande número de projetos cheios de itens que não têm relação com a intenção principal da possível legislação, bem como a exigência de que os projetos citem autoridade constitucional e garantam um debate mais bipartidário.

Não há dúvida de que Boehner, que estava na chamada Gangue dos Sete em 1994, quando os republicanos assumiram o controle da Câmara e, em seguida, se envolveram em equívocos e disputas, não quer uma repetição da história.

Por exemplo, em 1994, quando os republicanos conquistaram tanto a Câmara quanto o Senado, o orador da Câmara, Newt Gingrich, e o líder do Senado, Bob Dole, tinham aspirações presidenciais e trabalharam mais como adversários do que em conjunto. Essa divisão entre republicanos na Câmara e no Senado representou uma vantagem para o presidente Bill Clinton.

Contraste

Em contraste, a relação de Boehner com seu colega do Senado, o senador Mitch McConnell, do Kentucky, com quem tem trabalhado nos últimos dois anos na oposição à agenda de Obama, continua forte.

Mas há alguma oportunidade para legislar de maneira bipartidária, como democratas e republicanos reconhecem, geralmente diante do gravador do jornalista desligado. A busca de fontes alternativas de energia, acordos comerciais modestos, mudanças no ato educacional do governo Bush e até mesmo ajustes no código fiscal estão todos dentro do alcance.

“A grande pergunta é: ‘Qual a mensagem que Obama tira desta eleição? Qual o caminho que ele irá escolher?’”, disse McConnell, que afirmou que os gastos e o endividamento são possíveis áreas de interesse comum. “Haverá muitos republicanos dispostos a ajudar a reduzir ambos”, disse o senador. “Há áreas nas quais ele manifestou interesse no passado, que seriam semelhantes aos nossos próprios interesses”.

*Por Jennifer Steinhauer

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