Novo legado na Bélgica para os desertores da Primeira Guerra

YPRES ¿ Noventa anos após seu fim, a Primeira Guerra Mundial ainda paira sobre a cidade de Flandres, ponto central do massacre durante a Grande Guerra, como ficou chamada quando pensaram que seria a última.

The New York Times |

Monumentos da guerra começaram a surgir aos montes como cogumelos depois do cessar-fogo, mas levou quase 85 anos para levantar um monumento para um grupo diferente de mortos: soldados executados por seu próprio lado por terem recusado a continuar lutando.

A oito quilômetros de Ypres, em uma varanda calma de uma vila de Poperinge, fica um poste do tipo que era usado como suporte para videiras, colheita comum no local.

É mais ou menos da altura de um homem. Logo atrás há uma placa de aço gravada com um verso de Rudyard Kipling: Eu não podia olhar para a morte, e como se sabe, homens me levaram para ela, com os olhos vendados e sozinho.

Execuções

A guerra aparentemente infindável foi arrastada, enquanto a deserção e as revoltas de tropas se tornaram um problema crescente. Para combater o problema, os comandantes começaram a amarrar os desertores e as tropas rebeldes em postes como o já citado onde eles seriam executados pelo pelotão de fogo.

Os britânicos atiraram em 320 homens e os franceses em mais de 700. Os alemães, contraditoriamente, atiraram em cerca de 50.

Em um dos dois lugares perto do monumento de Poperinge, onde os soldados ficaram amarrados antes da execução na madrugada, agora tem visitantes que aparecem para relembrar não apenas os heróis da guerra, mas também o horror.

Em uma tarde fria recente, um pedaço de papel estava em uma cama feita de madeira onde os homens passavam a última noite. O bilhete, assinado apenas por T.T.S. e rabiscado em inglês, era um dos muitos que foram deixados por lá. Vocês sempre serão lembrados, dizia. Vocês nos deram orgulho.

Mudanças

Enquanto o aniversário de 100 anos da guerra se aproxima, o monumento de Poperinge marca grandes mudanças nas atitudes atuais dos países europeus que sofreram grandes perdas humanas, lembrando não apenas aqueles que morreram em combate, mas também aqueles que enfrentaram o pelotão de fogo para protestar, se recusar a lutar ou fugir do front.

Em Ypres, essa mudança na atitude levou curadores a mudarem totalmente a maneira como o museu local relembra o conflito, enfatizando a desumanidade da guerra mais do que os vitoriosos e os derrotados.

Na Grã-Bretanha, a mudança aconteceu em 2006 em um pedido de perdão póstumo dos parlamentares aos desertores, seguido da construção do monumento em 2001 para aqueles que foram mortos.

Na França, apesar da difícil aceitação, neste ano, o presidente Nicolas Sarkozy fez um reconhecimento público de que os executados também mereciam piedade ¿ primeira vez que um presidente francês o reconhece.

Pedido de perdão

Falando do Dia de Cessar-fogo no Fort Douaumont, no leste da França, onde centenas de milhares de soldados alemães e franceses morreram, Sarkozy disse que aqueles que foram executados não são desonrados ou covardes, mas que eles foram aos limites extremos de suas forças. Mas não houve um perdão muito próximo, disse depois um porta-voz do presidente.

Este foi um dos pontos mais difíceis, toda a discussão sobre as execuções, disse Jürgen van Lerberghe, um membro do conselho da cidade que ajudou a promover o monumento de Poperinge. É algo que não se pode esconder. Não houve apenas feitos heróicos.

Ao ser questionado se o monumento poderia ter sido construído há uma geração atrás, Van Lerberghe disse Se você vê isso como uma pergunta, o que uma guerra pode fazer com as pessoas, teria havido uma discussão bem difícil.

Passado

De fato, visões antigas dificilmente acabam. Os veteranos da Segunda Guerra têm problemas com isso, disse Luc Dehaene, 57, prefeito de Ypres nos últimos 11 anos, sobre a mudança das atitudes.

O museu da guerra aqui, localizado no imenso Cloth Hall, um mercado do século 14 que foi literalmente achatado durante a guerra por um tronco onde ficava sua grande torre com um relógio, não é mais chamado de Ypres Salient Museum (Museu Importante de Ypres).

Agora ele é chamado de In Flanders Fields Museum (Museu nos campos de Flandres), nomeado em homenagem ao famoso poema e seu autor, o coronel tenente John McRae, e seus soldados poetas, muitos dos quais morreram na guerra, mas não antes de denunciar sua desumanidade.

Por JOHN TAGLIABUE

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