Novela usa melodrama multicultural e vira sensação na França

MARSELHA - Após anos de esforço, estudos e sucessos em diversas outras disciplinas culturais, os franceses finalmente dominaram a arte das telenovelas.

The New York Times |

Em um cenário luxuoso, com uma detalhada praça construída em torno de um café de Marselha, a televisão pública francesa grava o programa mais popular das telinhas, a novela "Plus Belle la Vie", que é acompanhada por quase um terço da população francesa. Cerca de 13 milhões de pessoas sintonizam pelo menos uma vez por semana para acompanhar o destino de várias famílias na confusão multicultural de Marseille, a segunda maior cidade da França.

Há a família Marci, proprietária do Bar du Mistral; a família Nassri da Argélia; a família Torres da Espanha; a família Lesermans, cuja matriarca sobreviveu ao Holocausto e é comunista; os ricos Fremonts com seus negócios escusos e sua filha lésbica; a família Chaumette, que se mudou de Paris; os Esteves, com seu filho divorciado que tem uma filha e está apaixonado por um homem; e os Castellis, que segundo o website da novela, "vivem para esquecer o passado".

As relações entre estas famílias (suas disputas, romances, negócios e tragédias) representam os franceses tanto quanto os ensinam, pelo menos um pouco, sobre as diferenças culturais e sociais, além de questões como racismo, drogas, gravidez na adolescência, Islã e homossexualidade e a polícia.

Pascal Tomasini, co-produtor do programa, tem orgulho especial do fato de a novela ter mostrado o primeiro beijo homossexual da televisão francesa, há mais de quatro anos, e ter sobrevivido. "Não estamos aqui para dar lições", ele disse. "Não gostamos de moralizar. Mas queremos ter situações da vida real que acontecem com o Monsieur e a Madame Tout le Monde (ou o Senhor e a Senhora Todo Mundo)".

Não se trata apenas dos franceses assistirem a novela, visitarem o website e comprarem cópias das roupas usadas pelos atores através de uma loja especial. Ou de 100,000 turistas anualmente perguntarem sobre o Place du Mistral, que não existe na realidade. Mesmo depois da novela adiantar em 10 minutos o seu horário para as 20h10 em janeiro (passando a coincidir com o horário do telejornal local) os franceses continuaram fieis. Alguns até mudaram seus hábitos alimentares, passando a jantar mais cedo para garantir que não perderão o programa.

"Plus Belle la Vie", título que pode ser traduzido como "A Vida é Tão Doce", mudou a televisão noturna francesa, que tradicionalmente era construída em torno do telejornal das 20h em todos os canais, algumas vezes mencionada como a Grande Missa Francesa. Apesar do conflito com o telejornal, a novela perdeu menos de 2% da audiência.

Com a proliferação dos canais a cabo, "Plus Belle la Vie" atrai mais telespectadores todas as noites do que qualquer outro canal com exceção da TF1, que transmite as notícias mais vistas do dia. "As pessoas queriam uma alternativa à missa", disse Tomasini. "Os jovens hoje escolhem suas notícias".

Tomasini e seu co-produtor, Hubert Besson, ambos de 45 anos, chegaram no começo, como parte de um esforço do France 3, considerado um canal antiquado para pessoas mais velhas, em encontrar uma audiência mais jovem. Como um canal público, o France 3 também queria produzir uma programa regional e Marseille, com seu passado colorido, reputação criminosa, população misturada e clima temperado, parecia a escolha perfeita.

A novela quase não decolou. Ela começou em 2004, com tramas sociológicas pesadas. "Era boa para os escritores, mas chata para o público", disse Tomasini. "Então a partir do episódio 80, jogamos fora os roteiros e começamos de novo, mais popular e com mais crimes".

Eles decidiram combinar gêneros com três arcos de cruzamento em cada episódio e a estrutura multi geracional de cada família. Uma história sobre a polícia ou uma questão social dura cerca de três meses e sob ela esta uma história policial ou social mais curta, de cerca de um mês, e sob esta uma história de amor de algum tipo que ajuda a envolver os outros. Então, uma das narrativas de um mês se torna a maior pelos próximos três meses. Cada episódio tem um gancho.

Michel Maffesoli, professor de sociologia da Sorbonne, relaciona o sucesso da novela a temas da mitologia grega. "As pessoas se apaixonam e deixam de amar, nada é embelezado, as pessoas são vistas como na vida real", ele disse. "A novela brinca com o lado sombrio e ruim das coisas (crimes, delinquência, sexualidade múltipla). É a primeira vez na França que não temos medo de mostrar isso".

A novela é uma pequena revolução local, ele disse: "É um sinal interessante da evolução da sociedade francesa. A França tinha medo de mostrar o lado escuro. A França é o país do Iluminismo e iluminar significa: mostrar o que não é sombrio".

Para manter a criatividade e consistência, Tomasini adotou uma prática de Hollywood: uma equipe de 20 escritores que cria em workshops, produzindo roteiros cuidadosamente arqueados. Besson disse que o desafio é produzir uma "novela no estilo americano" mas "manter uma identidade própria, falando com um sotaque ainda que comunicando a toda a França".

O trabalho dos escritores é manter a atualidade, disse Besson, mas todas as relações geraram outro problema. "Sempre precisamos de novos personagens e cenários", ele disse. "Todo mundo já dormiu com todo mundo -  é preciso muita imaginação!" Então a novela apresentou outra família, os Cassagnes, que se ligam aos outros, naturalmente, através de um romance.

Um diretor, Roger Wielgus, que co-produziu um filme em 1989 com James Coburn, "Call From Space", fez 200 episódios. "É impossível separá-los", ele disse. "As histórias não acabam nunca".

A julgar pelas muitas mensagens de email e cartas, o relacionamento dos franceses, especialmente pais e jovens, é real. Uma carta de uma jovem chamada Kelly está pregada em um mural. "O que me incomoda mais é que quando não me comporto não posso assistir a novela", ela escreveu sobre as brigas com seus pais. "Então eu tento ser o melhor possível".

Por STEVEN ERLANGER


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