Novela turca leva personagens muçulmanas a público árabe

Histórias românticas exibidas pela televisão da Turquia conquistam população árabe

The New York Times |

Um homem de torço nu acende velas em um quarto. Uma mulher aparece na porta.

"Vamos, não podemos nos atrasar", di elaz, apesar de seus olhos castanhos escuros insinuarem algo diferente.

Eles se beijam. Ele solta o cabelo dela e a câmera faz um close na sua aliança de casamento conforme os dois se movem em direção à cama.

Apenas mais um dia de trabalho para as estrelas de "Gumus", a novela turca que em seus dois anos de exibição no Kanal D ofereceu aos turcos não apenas o milagre das preliminares sexuais na televisão diurna, mas todo o compêndio água com açúcar de uma trama cheia de reviravoltas, de tiroteios a casamentos, sequestros e acidentes automobilísticos.

Tudo isso pode parecer comum para quem gosta de novela. Mas a televisão turca modificou o padrão ao fazer de cúmplices, sequestradores e amantes personagens muçulmanas. E é o público árabe, muito mais do que o próprio turco, que caiu de amores pela trama.

Uma onda de melodramas, ações policiais e thrillers de conspiração turcos - liderada por "Gumus" ("Noor" em árabe) e seguida por "Yaprak Dokumu", "Kurtlar Vadisi", "Asmal¿ Konak,"Ihlamurlar Altinda" e a mais recente "Ask Memnu-i", a série de maior audiência na Turquia - está conquistando espaço nas televisões árabes, exercendo uma espécie de "poder suave" da cultura do país.

Pela telinha, a Turquia começou a exercer uma grande influência nas mesas de jantar árabes, em salas e nos quartos do Marrocos ao Iraque, de um tipo que os Estados Unidos sonham em ter.

Política e cultura andam de mãos dadas aqui, como em qualquer lugar.

A maioria dos árabes assiste novelas turcas para ver pessoas bonitas em locais exóticos, mas as mulheres árabes também têm deixado clara a sua admiração por histórias românticas de pobres que ficam ricos como a personagem-título de "Noor", uma forte mulher de negócios, casada com o apaixonado Muhannad.

Shafira Alghamdi, uma pediatra da Arábia Saudita, fazendo compras durante suas férias com duas amigas, explicou que muitos maridos árabes ignoram suas esposas, enquanto em "Noor", ainda dentro de um contexto árabe de casamentos arranjados, em respeito aos idosos e famílias numerosas que vivem juntas, Noor e Muhannad se amam e admiram abertamente.

Mesmo fatwas de clérigos sauditas apelando pelo assassinato dos distribuidores da novela não têm desencorajado uma loja na cidade de Gaza a vender cópias dos vestidos sem mangas usados por Noor (com um colant de manga comprida por baixo, para preservar a modéstia feminina).

Um quadrinho publicado recentemente em um jornal saudita mostrava um homem árabe comum em consulta com um cirurgião plástico mostrando uma foto do marido de Noor, que é interpretado por Kivanc Tatlitug, um ex-jogador de basquete e modelo de olhos azuis, que também faz Adonis em " Ask-i Memnu ". O homem do quadrinho pergunta ao médico se pode ficar parecido com Tatlitug.

"Os homens árabes dizem que não assistem novelas, mas eles assistem sim", disse Arzum Damar, enquanto assistia a um programa no qual Tatlitug silenciosamente demonstrava passos de tango diante de uma audiência de mulheres estupefatas em seu escritório na agência Barracuda Tours, em Istambul. "Os homens gostam de ver as casas de luxo. As mulheres gostam de olhar para ele".

Sina Kologlu, crítico de televisão do canal turco Milliyet, explicou assim: "O imperialismo cultural americano acabou. Anos atrás, nós assistíamos reprises de 'Dallas'. Agora, roteiristas turcos aprenderam a adaptar esses programas aos temas locais em histórias muçulmanas, as produção turcas têm melhorado e canais asiáticos e europeus orientais estão comprando novelas turcas e não mais as americanas, brasileiras ou mexicanas. As histórias têm as mesmas trapaças e os mesmos filhos fora do casamento e questões incestuosas, mas com um tempero turco".

Ali Demirhan, um executivo cuja empresa de construção turca em Dubai planeja ajudar a criar uma premiação para produções turcas, contou que um colega turco havia acabado de fechar um negócio com um sheik do Qatar por arranjar um encontro entre ele e três atrizes de uma novela turca que o sheik queria conhecer.

Demirhan bebericava café turco enquanto os árabes faziam compras nas proximidades.

''Da mesma forma que a cultura americana mudou a nossa sociedade, nós estamos mudando a sociedade árabe", ele disse. "Se a América quer fazer as pazes com o Oriente Médio hoje, terá primeiro que fazer as pazes com a Turquia".

Por Michael Kimmelman

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