Novas regras do espanhol descontentam nos dois lados do Atlântico

Tanto espanhóis quanto países colonizados reclamam da ingerência da Academia Real Espanhola para nova ortografia

The New York Times |

A Academia Real Espanhola irá remover duas letras do alfabeto espanhol, reduzindo-o a um total de 27. Deixarão de existir o "ch" e o "ll", sem falar em muitos acentos e hífens.

A ortografia simplificada da academia, uma instituição de Madri que controla todas as questões gramaticais da língua, deveria ser uma boa notícia para as 450 milhões de pessoas que falam o espanhol no mundo, além daquelas que se esforçam para aprender o idioma.

Mas não. Todos, ao que parece, discordam de algo com a academia – a começar pelo presidente Hugo Chávez, da Venezuela.

Caso a Academia não considere o "ch" como uma letra separada, Chávez riu em seu gabinete, ele passaria a ser conhecido simplesmente como "avez". (Na verdade, seu nome permanecerá o mesmo, embora o seu lugar na ordem alfabética deva mudar porque "ch" costumava ser a letra depois de "c.")

De acordo com um editorial no jornal mexicano El Universal, o novo regime é uma afronta à identidade nacional: "A ortografia não é apenas uma instituição que serve para manter um mínimo de coerência e sentido no que está escrito e no que é dito. Pode ela ser ditada por uma sala de conferências no exterior? Um país que é orgulhosamente independente não aceitaria isso". O editorial questionou: "Será que os Estados Unidos aceitam ditames da Inglaterra sobre o uso do inglês?".

Descontentamento

Do lado europeu do Atlântico as pessoas também estão chateadas. Milhares de comentários foram feitos na internet depois que o primeiro artigo sobre as mudanças foi veiculado no jornal espanhol El País no início do mês. A palavra "absurdo" aparece com frequência.

"É um momento de realismo mágico. Eles decidem que duas das 29 letras vão desaparecer", disse Ilan Stavans, mexicano que é professor de estudos e cultura da América Latina na Faculdade Amherst. "Todos os dicionários terão de ser refeitos, o que é bom para vender o dicionário da Academia Real, que eles continuem produzindo como se fosse a Bíblia".

Stavans comparou a situação à da autoridade que as pessoas que falam inglês usam, o Dicionário de Inglês Oxford, que reforça o uso comum, em vez de impô-lo de cima para baixo.

Regras

A academia espanhola utiliza 800 páginas para explicar as novas regras simplificadas. Entre outras mudanças, letras com nomes diferentes em países diferentes receberão apenas um nome (o que é como dizer aos americanos que a última letra do alfabeto deve ser chamada de "Zed", como fazem os ingleses). Iraque torna-se Irak e quasar será escrito como cuasar.

As regras de ortografia serão colocados à venda até o Natal na Espanha. Os latinoamericanos terão que esperar um pouco mais.

Há muito queixas são feitas sobre a ortografia espanhola. No primeiro congresso internacional da língua espanhola em Zacatecas, no México, em 1997, o escritor colombiano e Prêmio Nobel Gabriel García Márquez declarou: "Vamos aposentar a ortografia, o terror de todos os seres, desde o berço". Mas ele admitiu que os seus fundamentos eram pouco mais que "garrafas atiradas ao mar na esperança de que um dia chegassem ao Deus de todas as palavras".

Como este Deus permanece em silêncio, a Academia Real Espanhola tem ocupado seu lugar desde que foi fundada em 1713. "Eles têm uma maneira oracular e apresentar as coisas, como Moisés descendo do Monte Sinai", disse Stavans. "Na minha opinião, é uma relíquia do século 18".

Para aqueles que vivem e respiram o espanhol, as prioridades da academia parecem um pouco fora do alvo. "Somos uma língua em debate", disse o escritor mexicano Paco Ignacio Taibo II. "Infelizmente, a academia não está à frente do debate, mas sim atrás".

Colaboração

Para seu crédito, a academia tem o cuidado de ressaltar que trabalha em colaboração com os seus associados em 21 academias de outros países de língua espanhola, inclusive nos Estados Unidos. As primeiras reuniões sobre a nova ortografia foram realizadas no Chile, o texto foi concluído este mês na Espanha, e será ratificado pela academia e suas filiais na Feira do Livro de Guadalajara, no México, no domingo.

Em um e-mail, Juan Villoro, um escritor mexicano que vive em Barcelona, foi filosófico sobre uma mudança que parece atacar o cerne das almas poéticas das pessoas que falam espanhol em ambos os lados do Atlântico. De acordo com as regras antigas, a palavra "solo" leva acento quando significa "somente" e não tem acento quando significa "sozinho". A academia apagou o acento, argumentando que o significado seria evidente a partir do contexto. "Às vezes, a lei não tem nada a ver com a justiça", escreveu Villoro.

Luis Fernando de Lara, um estudioso no Colégio de México, que coordena a elaboração de um dicionário espanhol utilizado no México, descartou as novas regras da academia: "Estamos livres neste mundo para não ouvi-los".

Quanto às alterações nos nomes das letras, Lara recorreu a uma frase de uma música clássica americana para descrever a briga: "Eu gosto de tomate, você gosta tomahto", disse ele.

Embora ele não tenha dito isso, o título da canção, escrita por George e Ira Gershwin, ficou subentendido: "Vamos deixar de lado tudo isso".

*Por Elisabeth Malkin

    Leia tudo sobre: espanholregrasortografiamadriacademia real espanhola

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG