Nova York se prepara para lutar por um de seus maiores símbolos

Nos negócios, assim como no romance, a familiaridade geralmente cria, se não raiva, ao menos indiferença.

The New York Times |

Considere, por exemplo, o logo da Playboy, símbolo de uma certa sofisticação masculina nos anos 1950, que virou licença para a promiscuidade e, hoje, é mais associado à aromatizadores de táxis.

Agora pense em um caso ainda mais complicado: o logo "I (HEART) NY" (Eu - coração - NY, em tradução literal).

Na semana passada, o comitê de turismo do Estado, Empire State Development, anunciou uma nova campanha de marketing em torno do famoso símbolo, dessa vez com ênfase em visitas rápidas de moradores da região.

Mas inerente à campanha está uma tentativa de reaver o próprio símbolo, que como o logo da Playboy logo, se tornou desvalorizado por causa do uso excessivo.

Este ano, autoridades estaduais planejam introduzir novas ferramentas - como um holograma de difícil reprodução - que garantirão a oficialidade dos produtos.

Aqueles que vendem produtos "I (HEART) NY" não oficiais, serão alertados e depois penalizados pelas autoridades.

Thomas Ranese, 37, chefe de marketing do Empire State Development, admitiu, "Nós nem sempre investimos em proteger a marca como deveríamos".

O registro da marca acabou nos anos 1990 nos Estados Unidos e exterior, levando a crer que o símbolo do coração havia passado ao domínio público e não exigia licença, ele disse. A marca foi registrada novamente, mas o estrago já foi feito.

O Estado de New York perdeu milhões, se não mais, em taxas de licenciamento desde que o símbolo foi criado em 1977, disse Ranese.

O resultado, visível em toda a Cidade de Nova York, mas especialmente no centro de Manhattan, é um universo alternativo de produtos "I (HEART) NY", quase todos falsificados.

Existe uma forma dos turistas identificarem o falso? "A resposta simples é não" , disse Ranese. Mesmo o símbolo com marca registrada é facilmente falsificado, ele disse.

Ainda assim, os produtos são divertidos.

Em busca de uma lembrança diferente? Há uma gravata masculina com o "I (HEART) NY" e a Estátua da Liberdade por US$4.99 e uma camiseta da Betty Boop "I (HEART) NY" por US$19.99. Algo mais culinário? Há um sino de cozinha por US$3.99, um saleiro por US$8.99, um suporte para lata de cerveja por US$4.99 e um prato de jantar por US$12.99. E uma toalha de cozinha por US$8.99, para limpar tudo depois.

Precisa de algo para as crianças? Há ursinhos (US$9.99 o pequeno e US$19.99 o grande) e roupas de bebês por US$9.99. Precisa de bugigangas autênticas de Nova York? Há um mouse pad por US$8.99 e um peso de papel por US$14.99. Sente vontade de se exercitar? Há uma bola de baseball por US$9.99, bolas de golf por US$12.99 e uma bola de pelúcia por US$9.99.

Apenas um dos itens acima é oficial. (A resposta está no final deste artigo.)

Para que fique registrado, Ranese disse que a companhia CMG Worldwide Inc. de Indianópolis é a única licensiada pelo Estado e sem o selo CMG, o produto é falso.

Um vendedor suspeito de vender produtos falsos recebe uma carta de notificação da firma de advocacia Heslin Rothenberg Farley & Mesiti, de Albany, N.Y.

"Nós estamos revendo tudo que nosso agente de licenciamento encontra", disse Ranese. Produtos não desejados incluem cinzeiros (US$6.99) e isqueiros (US$3.99), porque o Estado quer desencorajar o fumo.

Marshall Blonsky, 70, que ensina semiótica na Parsons Escola de Design, se mostrou cético diante dos novos esforços do governo. "Ah, menino! Isso é muito estranho!" ele exclamou. "Eles estão tentando re-apropriar essa coisa".

A marca está ultrapassada, disse Blonsky. "O que era absolutamente original e excitante em 1977", ele disse, "hoje não tem significado, não tem nada, nem comunicação, nem nada, zero. Deixou de ser poesia e se tornou banalidade, do vermelho ao rosa, como uma moeda que perdeu sua superfície depois de tanto uso".

Para Milton Glaser, 78, o famoso designer gráfico que criou o símbolo, há pouco arrependimento.

Nascido no Bronx (ou como ele diz, próximo à Avenida Allerton), Glaser se impressionou com a situação da cidade no final dos anos 1970, com muitos crimes, sem espírito e quase falida. "Havia uma sensação de desespero e impotência que acontece nesses momentos", disse Glaser. Quando lhe pediram para ajudar na campanha a favor do turismo, ele ficou feliz em fazer isso. "Parecia algo importante para se fazer como cidadão", ele disse.

Glaser criou o "I (HEART) NY" gratuitamente, abrindo mão de milhões de dólares. "É uma daquelas decisões da sua vida em que não se prevê as consequências de seus próprios atos", ele disse. "Quem no mundo imaginaria que esse pequeno e simples símbolo se tornaria uma das imagens mais conhecidas do século 20?"

De fato, a única coisa de que Glaser se arrepende é da criação de um símbolo patriótico depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001: "I (HEART) NY More Than Ever" (Eu - coração - NY Mais do Que Nunca, em tradução literal).

A administração de Pataki ameaçou processá-lo por infringir uma marca registrada. "Que estupidez!" Glaser declarou. "Isso me entristeceu".

(Resposta: O mouse pad.)

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